2016-03-02 11:29:24

O leão escandinavo que ruge

O leão escandinavo que ruge

A fórmula escandinava leonina é de granito dentro do terreno de jogo, mas de esferovite fora dele.

 

Analisar o Sporting é quase um desafio de engenharia. De facto, tudo ali está mecanizado. Seja no início da primeira fase de construção(geralmente a três), seja no posicionamento defensivo, seja no comportamento dos laterais ou na própria escolha dos jogadores que entram em cada jogo. O Sporting tem a equipa mais complexa do campeonato. A mais nórdica. Tudo ali é frio e pensado ao pormenor, dando-se pouco espaço à criatividade.

Apesar de todo este “escandinavismo”, o Sporting realizou uma mudança radical nos últimos tempos. Refiro-me à defesa. Reformulação total. Em termos pragmáticos, a mudança teve dois objectivos: em primeiro lugar, uma maior competitividade dos centrais ao nível do jogo aéreo a que se acresce, igualmente, uma maior propensão para se começar a sair a jogar a partir de trás através de Rúben Semedo. Depois, os laterais são escolhidos em função das partidas. A meu ver, com Bruno César e Gelson no onze, Jorge Jesus optou por laterais menos propensos ao ataque imediato, às subidas instintivas no terreno: Zeegelaar e Schelotto.  E, sem dúvida, a equipa apresentou-se de forma equilibrada em Guimarães. Equilibrada e mecanizada. Mesmo sem Adrien, tudo foi ensaiado e definido ao pormenor.

Quanto a mim, o principal problema do Sporting é o de não ter uma componente emocional que vá ao encontro das suas ideias de jogo. É uma espécie de caldo latino-nórdico que se pode tornar intragável: é a relação de “confronto-resposta” com a imprensa  que acaba por gerar, indirectamente, uma instabilidade permanente; é uma equipa em Leverkusen a querer ganhar e um treinador a dar prioridade ao campeonato; é um Presidente a responder a tudo, a todos e a mais alguns. Ou seja, a fórmula escandinava leonina é de granito dentro do terreno de jogo, mas de esferovite fora dele.

A equipa do Benfica é bem mais latina. Rui Vitória conseguiu definir uma mobilidade ofensiva em que são os jogadores que decidem o que fazer em cada jogada. Laboratório q.b. Dá espaço ao erro mas também dá espaço à criatividade. No Benfica, sente-se a falta de Fejsa, ele que é mais sólido em termos de transição defensiva do que Samaris. A componente física de Renato Sanches nem sempre é complementada com o desenho defensivo que se pretende. Pizzi compensa no meio, raramente falha passes e vai acrescentado profundidade ao jogo pelas alas. A falta de centrais trouxe a bela surpresa do desempenho de Lindelof. Jonas desequilibra pela forma como pensa o jogo e se manobra de forma excepcional quando possui um parceiro de ataque. Sem ele, fica mais débil. Seja como for, o Benfica está mais competitivo e o facto do jogo ser em Alvalade até que favorece os encarnados.

Mérito inegável de José Peseiro na vitória dos dragões em Belém. A sua principal preocupação foi a de estabelecer um equilíbrio entre a necessidade de atacar com muitos homens e, por outro lado, não expor a sua equipa em demasia pois a transição defensiva(especialmente Chidozie que ainda está muito verde nesse aspecto) é o ponto fraco dos portistas. Ofensivamente, e não sei se de forma deliberada ou não, o Porto vai apresentando uma série de movimentos “à Benfica”. Veja-se o primeiro golo, com movimentações muito semelhantes àquelas que motivaram o primeiro golo dos encarnados frente ao Paços de Ferreira. Mas os problemas surgiram na segunda parte.

Júlio Velázquez colocou o Belenenses a jogar de forma arrojada e não se coibiu de retirar um central para fazer subir os seus jogadores no terreno. O Belenenses tenta jogar em posse contra Davides e Golias. O seu jogo é variado, com mudanças regulares e definidas do flanco de jogo, cruzamentos atrasados, solicitações aos laterais para subirem no terreno. Na vitória portista, o dedo de Peseiro foi determinante.

José Peseiro, vendo que as transições ofensivas dos dragões não estavam a resultar, colocou Marega em campo. Ou seja, já que o Belenenses não pára de construir, ao menos que o faça longe da baliza do adversário. Desgaste provocado, chamada à componente física e disfarce de uma outra lacuna de jogo dos dragões – o controlo de jogo em posse de bola. Depois Evandro, para meter gelo numa partida complicada e definir mais linhas de passe no meio-campo. Ou seja, frio no jogo, impacto no ritmo e vitória a partir do banco. E o primeiro lugar está a apenas quatro pontos!

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