2016-03-30 12:17:37

4x4x2 abraça Portugal

4x4x2 abraça Portugal

Não houve nenhuma epifania: Portugal não esteve em crise frente à Bulgária nem é a melhor selecção do mundo por ter ganho à Bélgica.

 

A selecção portuguesa enfrentou um duplo teste frente à Bulgária e à Bélgica. Mas não se

trataram de actos isolados. Foram jogos complementares. Se frente a Bulgária a selecção

nacional ia dominar a maior parte do tempo(como dominou), no jogo frente à Bélgica tinha de

ser dominada. Ou melhor, saber ser dominada. Nenhuma equipa é campeã se não souber ser

dominada.

 

Mais importante do que os resultados, importante é tirarem-se algumas conclusões. Antes de

mais, um contexto: há selecções que dispõem de um meio-campo “transladado” de um clube,

o que é sempre uma mais-valia em termos de rotinas. No caso de Portugal, trata-se de um

privilégio e de um problema: o tridente William-Adrien-João Mário acrescenta capacidade em

termos de reacção à perda, por exemplo, mas perde em termos de criatividade. É um meio-

campo que privilegia a posse de bola numa selecção que procura transições ofensivas, para

exponenciar zonas de finalização e criação de espaços, com Cristiano Ronaldo(que não é um

jogador criativo) poder afirmar-se como factor de desequilíbrio. Como factor de golos.

 

No jogo frente à Bulgária, uma primeira abordagem ao 4x4x2 e à necessidade da equipa deixar

de procurar tanto as alas do ponto de vista ofensivo. Torná-la mais compacta no momento

defensivo. Numa comparação muito arriscada, a selecção nacional tem de perder um pouco

os vícios do Porto de Lopetegui: perder a obsessão pelas alas(com as devidas proporções, não

é uma comparação linear). Malgrado todo este contexto, a Bulgária ganhou de forma

esporádica, marcando um golo consentido até de forma patética pela equipa portuguesa.

 

No jogo frente a Bélgica testaram-se outras soluções. Não houve nenhuma epifania: Portugal

não estava em crise frente à Bulgária nem é a melhor selecção do mundo por ter ganho à

Bélgica. Frente aos belgas, o que importa reter são os bons desempenhos da equipa também

em 4x4x2.Talvez a melhor exibição do gaiense André Gomes com a camisola das quinas. Ou

seja, Portugal pretendeu controlar o jogo a toda a largura e acrescentar uma maior solidez em

zonas mais baixas do terreno. Não totalmente conseguido, ainda há muito para afinar,

sobretudo ao nível da coordenação dos dois avançados(Cristiano Ronaldo e Nani) que, sendo

indiscutíveis, estão também em processo de mudança táctica na selecção. Estão em mudança

de chip.

 

Em ambos os jogos, o factor João Mário veio à tona. Mais do que saber-se se Renato Sanches

deve ou não ser convocado – eu voto no “sim” muito embora julgue que pouca utilização vá

ter no Euro – é João Mário quem tem assumido papel de protagonista principal. Trata-se de

um jogador fundamental na forma como protege o corredor e deriva para o meio, dando uma

espécie de ritmo cardíaco a um sistema de 4x4x2 que vive muito da forma como procura e cria

espaços através das suas movimentações. Ou seja, Jorge Jesus poderá ter dado um contributo

fundamental à selecção nacional através do trabalho que realizou com João Mário. Mesmo

com as perspectivas de recuperação de Tiago, João Mário quase que salta de caras para a

titularidade. Foi, na selecção, o jogador que mais teve a ganhar nos últimos tempos. Ele e

Bernardo Silva, cujo talento e desempenho se tornou inquestionável e indiscutível.

 

É óbvio que a análise da selecção portuguesa não se cinge ao meio-campo. Concordo que há

poucas dúvidas em relação aos 23 convocados. Agora, em relação ao onze base, há ali dúvidas

presentes. Se Vieirinha acrescenta mais agressividade em termos de dinâmica ofensiva,

também é certo que Cedric é mais sólido do ponto de vista defensivo. Até que ponto as boas

exibições de José Fonte podem tê-lo catapultado para a titularidade em vez de Ricardo

Carvalho?

 

É tempo de trabalho e serenidade. É tempo de se fazerem os últimos retoques. Mas também é

tempo de arriscar. Aqui fica o meu prognóstico em relação aos 23 convocados: Anthony Lopes,

Eduardo, Rui Patrício; Cédric, Fábio Coentrão, Eliseu, Vieirinha, Bruno Alves, Ricardo Carvalho,

José Fonte e Pepe; Adrien Silva, André Gomes, William, Danilo Pereira, João Mário, João

Moutinho e Renato Sanches(ou Tiago se recuperar); Bernardo Silva, Cristiano Ronaldo, Nani,

Quaresma e Danny;

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