2016-05-13 11:54:21

O campeonato mais emocional dos últimos anos

O campeonato mais emocional dos últimos anos

Benfica uniu-se em torno do seu treinador. Perfil calmo e tranquilo conquistou tudo e todos

Está a chegar ao fim o campeonato mais emocional dos últimos anos. Aquele que foi

(ou está a ser) o mais vulnerável ao que se passa no exterior. O mais dependente das

estratégias de comunicação que estão a ser usadas. O menos táctico. E hoje, indo na

onda, falarei mais de comunicação e menos de tácticas.

 

O Benfica tem estado impecável. Viu o seu treinador ser injusta e duramente atacado no

início da temporada por Jorge Jesus. Aí, o Benfica jogou o seu trunfo: cá para fora

mostrou a tranquilidade necessária para não responder e controlar a ansiedade. Dentro

do balneário o ataque serviu para se unirem as tropas em torno de Rui Vitória, um

homem cujo perfil, sereno e extremamente educado, nunca se adequaria ao papel de

vilão. Ou seja, durante todo o campeonato viu-se um plantel disposto a deixar a pele em

campo quer pelo clube quer pela reposição da justiça em torno do seu treinador.

 

Um treinador, Rui Vitória, que, quanto a mim, assenta a sua filosofia em três “classes

sociais” que define dentro de uma equipa: os jogadores com capacidade de

desequilíbrio; um grupo maciço de elementos definidos para o equilíbrio; e um último

patamar de risco, de aposta nos jovens. E até mesmo esta semana, quando se anunciou a

transferência de Renato Sanches para o Bayern, o Benfica esteve muito bem: com meio

mundo a falar da grande notícia e da evolução do jovem jogador, barrou-se uma equipa

em manteiga de serenidade para, isso sim, preparar a grande final da temporada frente

ao Nacional. Tem sido um Benfica inteligente. Muito inteligente!

 

Mas o Benfica não é a melhor equipa do campeonato. A melhor equipa é o Sporting.

Tem o colectivo mais forte, pensado por um treinador de inegáveis qualidades e também

por um Presidente que percebe muito de futebol. Bruno de Carvalho chegou e os

jogadores passaram a ser contratados com critério, com definição. É, de facto, o seu

ponto mais forte.

 

O problema leonino residiu na comunicação. A estratégia de “ganhas os jogos lá dentro

que eu não deixo ninguém sem resposta cá fora” é a mais errada que se pode ter. Trata-

se de uma liga de futebol e não de um tribunal. As sentenças definem-se pelos

resultados e não pelo veredicto de um júri. Às vezes, não ter razão é a coisa mais

positiva que nos pode acontecer. A fricção constante gera ansiedade, turbulência,

elementos que deitam por terra aquilo que de tão positivo se construiu em laboratório,

em treino.

 

Ainda por cima num Sporting onde, todas as semanas, há centenas de intervenientes a

emitirem opinião. Quando temos um Presidente a responder ao Fábio Sturgeon do

Belenenses num jogo em que o Benfica venceu por 5-0, chegamos ao extremo. Ao

radicalismo. E os jogos em Alvalade, grande parte, foram pautados pelo nervo à flor da

pele, pela emoção em detrimento da razão. Pela perda de pontos frente a equipas mais

pequenas pontos esses que, feitas as contas, fazem muita falta ao Sporting. Mesmo

muita falta!

 

No Porto, pensa-se e pensou-se a longo prazo. Na minha opinião, nunca a estrutura

directiva dos dragões acreditou no êxito de Lopetegui. A permanência do técnico

espanhol era uma espécie de condição para, em anos vindouros, se estabelecer uma

contrapartida. A factura seria paga à posteriori: um núcleo de bons jogadores

continuaria mas liderados por outro treinador. Ou seja, dar-se um passo atrás para se

darem dois passos à frente.

 

A saída de Lopetegui representou uma afinação. O técnico já tinha estado tempo

suficiente e a próxima época, em face da prestação desportiva da equipa, até que podia

começar mais cedo. Assim se fez. O polimento fez-se também na contratação de

jogadores: tendência para o aportuguesamento, para a identificação com o clube, em

detrimento da qualidade pura e dura. É lógico que a mística não ganha campeonatos

mas ajuda; também a muita qualidade, isolada, não chega. Certo é que o Porto está no

rumo certo. Tem um bom treinador, tem uma estratégia afinada e até beneficia do

contexto. Com o país a discutir quem será o campeão, os dragões vão trabalhando de

forma sólida. Com espaço ao erro. Sem holofotes. Este ano só a Taça de Portugal. O

ano que vem é que realmente interessa!

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