2016-06-02 10:15:45

Plano Jorge Mendes versão 2.0

Plano Jorge Mendes versão 2.0

Filosofia de há dois anos é para continuar. Nuno representa uma evolução

Com Nuno Espírito Santo, o F.C.Porto volta à fórmula de há dois anos: aposta num treinador com a chancela “Jorge Mendes” recebendo, em troca, um naipe de jogadores de elevada qualidade. A escolha veio embrulhada em questões de estratégia.

 

A fórmula é igual mas os ingredientes são diferentes. Isto porque, na minha opinião, Nuno é muito melhor treinador que Lopetegui. À primeira época no Valência, pautada pela qualidade de jogo assente no contra-ataque e organização defensiva, junta-se um trajecto interno de grande mérito no Rio Ave, em que chegou a finalista da Taça de Portugal e levou o clube à Europa.

 

São factos, é certo, mas tudo é residual a partir do momento em que se define uma realidade. Nunca se contrata um treinador, contrata-se uma ideia de jogo. Nuno vai tomar conta de um Porto que, com José Peseiro, foi resolvendo problemas. O principal dos quais residia na obsessão do jogo pelas alas, que tornava o futebol portista cristalizado. Hoje o Porto é ofensivamente mais criativo, tem uma maior percentagem de remates enquadrados bem como uma melhor definição do início das zonas de construção.

 

É lógico que abundaram os erros individuais e as lacunas na linha defensiva, sempre muito instável e “gelatinosa”. Mas o saldo geral é positivo, até pelo crescimento e potenciação de jovens como André Silva ou Sérgio Oliveira. Aliás, e olhando para José Peseiro, a história terá de ser justa em relação a um técnico que, na minha opinião, é muito melhor do que aquilo que se julga.

 

Não considero a contratação de Nuno um risco nem tão pouco um erro. Erro sim é a propalada imagem, ano após ano, de Jorge Jesus de dragão ao peito. Se uma coisa é reconhecermos os méritos de um treinador altamente competente, outra coisa é tomar Jesus como uma espécie de Messias dos treinadores. Não há Messias nem há “Terras Prometidas”. Jesus é bom mas, felizmente, há mais por onde escolher. E a novela tem sido maléfica para os lados do F.C.Porto; instabilidade e falatório a rodos quando o silêncio é de ouro na escolha de um novo técnico.

 

Na selecção, o primeiro teste correu de forma positiva. Portugal teve uma percentagem assinalável de posse de bola (61%), com um William Carvalho a ser fundamental no desenho da dinâmica ofensiva da equipa. No miolo, destacou-se o acerto de André Gomes, que raramente falhou um passe. Já mais difícil de analisar é Ricardo Quaresma. Se Portugal virou as ampulhetas para o 4x4x2, qual o papel de um elemento que tem o seu ADN definido no 4x3x3 mais voltado para o desequilíbrio através das alas?

 

É uma questão de talento. Talento puro. Em termos de técnica individual, Quaresma até consegue ser superior a Cristiano Ronaldo. Depois, o CR7 ganha-lhe em tudo o resto. Porém, e fiel à filosofia de Fernando Santos de explorar os últimos momentos do jogo bem como os momentos de anarquia táctica da equipa adversária, Quaresma ganha especial importância. Assim aconteceu, por exemplo, frente à Dinamarca em Copenhaga em que o regresso ao 4x3x3 e os últimos minutos permitiram uma vitória que se revelou decisiva no apuramento. Aqueles momentos em que é necessário dar um pontapé na enciclopédia.

 

O 4x4x2 assenta bem na selecção portuguesa, e também em Cristiano Ronaldo, desta forma mais focado nas zonas de finalização, onde é o melhor do mundo. Sem dúvida. É o melhor do mundo por muitas mais razões mas também tem pontos de debilidade. Não é propriamente um jogador criativo, por exemplo. Em zonas mais recuadas perde preponderância. Perde pontos.

 

Pontos tem ganho João Mário na dinâmica da selecção. Inteligência na conquista de espaços e criação de desequilíbrios na forma como pende para a ala. Notável. Mérito de Jorge Jesus na sua potenciação. Hoje, é talvez a segunda figura de uma selecção que tem de se habituar a viver sem Cristiano Ronaldo. CR7 não durará sempre e, na ausência de um novo jogador de nível extraterrestre, urge crescer através da racionalidade. Aproveitar os méritos da selecção de sub-20 e fazer crescer a chamada “geração trabalho”. Esse é o caminho a seguir.

 

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