2016-06-16 12:05:01

O Calcanhar de Aquiles de CR7

O Calcanhar de Aquiles de CR7

Mais mérito da Islândia do que demérito português

E até que Portugal nem fez um mau jogo. Ou, melhor dizendo, fez um bom jogo com alguns hiatos que ditaram o empate final. Dois hiatos: o sub-rendimento de Danilo Pereira e João Moutinho, e ainda a ansiedade geral que invadiu a equipa, típica de um primeiro jogo de uma grande competição internacional para muitos.

 

Com um meio-campo muito povoado, a principal preocupação da Islândia foi a de bloquear o início da construção de jogo portuguesa. Ao contrário de outros anos, hoje em dia uma das principais lacunas de Portugal é a falta de criatividade e de capacidade de desequilíbrio na zona do meio-campo. O meio-campo funciona pela conquista de espaços e não tanto pelos duelos individuais ganhos. Já não há Decos.

 

Pedia-se mais a Danilo. É certo que Danilo é muito forte em termos de transição defensiva mas pedia-se que jogasse um pouco mais à frente e não tanto na prudência. Depois, que fosse mais eficaz em termos de jogo aéreo. Poucas foram as vezes que conseguiu bater os adversários neste aspecto do jogo levando, ainda por cima, a que os islandeses se apoderassem dos ressaltos, ou seja, das ditas “segundas bolas”. Se podemos discutir se o golo islandês é culpa de Pepe ou Vieirinha (a Islândia teve mérito na forma como frequentemente procurou explorar a falta de altura de Vieirinha e disso ele não tem culpa), certo é que o mesmo resulta de mais um duelo perdido por Danilo. Muito abaixo daquilo que se esperava de um dos melhores jogadores da liga portuguesa do último ano.

 

Também se pedia muito mais a João Moutinho. Especialmente como elo de ligação entre o miolo e o ataque. Previsível, lento e sem ritmo de jogo, as suas movimentações foram uma presa relativamente fácil para uma Islândia que teve grandes problemas para fazer face àquele que foi o melhor jogador da equipa portuguesa: André Gomes.

 

As movimentações de André Gomes permitiram “escovar” a muralha central islandesa, dando vida ao jogo pelas alas e deixando espaço livre para os seus colegas. Foi o jogador mais harmonioso na forma como pisou o terreno da zona central e também aquele que, de forma astuta, entendeu os caminhos do futebol pelas alas e, por consequência, do golo português. Muito, muito bem!

 

Fernando Santos foi também inteligente nas substituições. A entrada de Renato Sanches foi acertada: se bem que perca para Moutinho em termos de capacidade de decisão, certo é que a sua aceleração permitiu uma maior união entre todos os sectores. Aliás, na segunda parte, as oportunidades portuguesas surgiram no seguimento de arrancadas, mais ou menos bem decididas, de Renato Sanches. Com a Islândia a colocar Portugal a jogar pelas alas, mais valia ter por lá um jogador com alta capacidade individual. Daí a entrada de Quaresma. E, nos momentos finais, um jogador com capacidade para se dar à marcação (Éder), deixando Nani e Ronaldo em zonas mais propensas à finalização.

 

Se Cristiano Ronaldo desiludiu? É uma resposta complicada. Eu penso que ele foi refém da conjuntura do jogo. Ronaldo pode ser o melhor do mundo mas tem um defeito muito grande: não é um jogador criativo. O forte de Cristiano Ronaldo é a exploração das zonas de finalização (onde aí sim é o melhor do mundo) e nunca a construção de jogo. Alguém já o viu a jogar a 10? Obrigado a recuar, a pisar zonas de construção e não de concretização, Cristiano Ronaldo teve de lutar não contra a Islândia mas sim contra a principal debilidade do seu jogo (a própria forma de jogar do Real Madrid é uma fuga constante à hipótese de colocação de Ronaldo em zonas de construção).

Não foi um resultado catastrófico. Nem tão pouco compromete. Segue-se a Áustria, que considero a formação mais débil de todo o grupo. Depois, atenção à Hungria, que tem uma dinâmica ofensiva de fazer inveja a muitas das grandes selecções europeias. Mas eu penso que Portugal, com maior ou menor dificuldade, se vai qualificar. Portugal e a Islândia. Boa equipa tem a Islândia. Muito embora o seu estilo se baseie na robustez e na ânsia constante de conquista de segundas bolas, certo é que os islandeses são evoluídos tacticamente e, sobretudo, sabem jogar não tanto no talento mas sim no bloqueio dos pontos fortes do adversário. Assim foi com Portugal, assim foi com a Holanda na fase de qualificação.

 

Duas selecções que, até ao momento, me chamaram particularmente a atenção: Alemanha e Itália. Sobretudo a Itália. Os italianos são extremamente perspicazes quando perdem a bola e não se desorganizam na retaguarda. Será uma selecção muito difícil de bater e, até ao momento, aquela selecção que está a dar um bocadinho mais do que aquilo que eu estava à espera. De resto, penso que tem sido um Europeu algo previsível em termos de resultados. Tem prevalecido a lei do mais forte.

 

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