2016-07-12 09:39:44

Amigáveis não foram acaso

Amigáveis não foram acaso

Fernando Santos mudou sistema táctico e combateu estigmas culturais

 

E tudo começou nos amigáveis. Portugal quis defrontar a Itália, a Argentina, a Bélgica. Por duas vezes a França. Ou seja, para além das questões de preparação táctica, houve um objectivo definido: derrotar os adamastores. Derrotar o pé que falha perante estas equipas, os erros infantis, os detalhes que fazem a diferença para o lado contrário. Derrotar uma questão cultural. Que está errada.

A questão cultural e a mudança táctica para o 4x4x2 foram factores determinantes para o sucesso português. No caso do jogo da final entrou em cena até mais o primeiro factor pois os laterais eram o elo mais fraco de uma equipa francesa que, não sendo superior à Alemanha, joga muito com os ritmos de jogo e com o poderio físico. Frente à França, Portugal pôde jogar em vários momentos do jogo em 4x3x3 com uma referência fixa na área. O tal Éder. O tal Éder que, não sendo o melhor avançado do mundo, é um jogador de grande disponibilidade física e finalização fácil. O movimento do golo é característico de Éder. Aliás, pelo Lille e frente ao Nantes, marcou este ano um golo com muitas semelhanças. Uma nota: o central francês Umtiti não atacou a bola e protegeu o espaço de forma quase infantil, cometendo erro grosseiro de abordagem ao lance.

A França entrou no jogo com um ritmo altíssimo de jogo. Alto demais, até. O objectivo era aproveitar o carácter emocional da final para chegar cedo à vantagem e, com isso, colocar Portugal a correr atrás do prejuízo. A lesão de Cristiano Ronaldo trouxe um malefício tremendo, com a perda de ofensividade daí resultante. No entanto, a saída do CR7 quase que obrigou Portugal a aderir ao 4x3x3 onde, fruto do passado, se sente à vontade. Mas o plano de jogo não estava assim definido. Foi preciso improvisar. O “malefício” pesava mais que o “benefício” e aí Fernando Santos foi fundamental: colocou Moutinho para garantir uma maior circulação e temporização no miolo. Quando não havia Moutinho havia Éder. Jogo directo quando era possível. Acima de tudo, na ausência de capacidade ofensiva definida no plano de jogo, Portugal soube colar os cacos e equilibrar-se. Depois, a equipa francesa deu uma ajuda: com o seu meio-campo a cair aos pedaços no prolongamento, Deschamps optou por guardar inexplicavelmente uma última substituição que permitiria o refrescamento do miolo.. Com isso, o dito “Portugal de cacos colados” subiu e ganhou supremacia.

Na minha opinião, a Alemanha é superior à França, e também a melhor equipa do Euro. Aí, o desfecho da meia- final França-Alemanha acabou por ser favorável aos portugueses. Foi o espelho da final. É uma espécie de antítese: todos os jogadores da França jogaram bastante bem. No entanto, como equipa, faltou algo mais para fazerem a diferença eles que, em termos de análise fria das armas de uns e de outros, são superiores aos portugueses.

Há também outra questão, da qual têm resultado as maiores críticas. Qual a identidade de jogo de Portugal? A minha resposta é filosófica. Eu diria que Portugal não tem identidade de jogo mas ao mesmo tempo tem identidade de jogo. Jogar em função do adversário é uma forma de estar, de encarar uma partida, sobretudo numa competição pouco regular e de desfecho rápido. Mérito de Fernando Santos, um seleccionador experiente que foi definindo o seu ADN desde os tempos da Grécia.

Num fim-de-semana marcado por grandes êxitos do desporto português, há que olhar para a próxima etapa: a Taça das Confederações, a realizar já no próximo ano. E daqui por dois meses arranca a qualificação para o Mundial. Mas eu acho que, acima de tudo, há que continuar com um trabalho de desmistificação de adamastores que ainda não está concluído. Venham jogos de preparação com grandes selecções! Há que encarar todos os adversários com o mesmo espírito com que se encara a Holanda que, sendo uma das melhores selecções do mundo, foi sempre enfrentada por Portugal com a máxima confiança. Como diz o nosso seleccionador “simples como pombas e prudentes como as serpentes”. E eu acrescentava algo dos seus tempos de dragão ao peito: “sempre respeitadores mas nunca subservientes”.

 

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