2016-09-29 10:54:46

Porto reconstruído a preto e branco

Porto reconstruído a preto e branco

Falta de mobilidade ofensiva tramou dragões em Leicester;

A falta de mobilidade ofensiva é o grande problema colectivo do F.C.Porto. Viu-se contra o Leicester: o campeão inglês não é uma equipa com grandes processos defensivos e até comete erros grosseiros. Ressente-se da ausência de Kanté, agora no Chelsea, o principal pilar da equipa no ano transacto. O problema portista foi o mesmo de sempre: falta de argumentos para tornar o ataque mais colorido. Mais atraente. Falta ao Porto encaixar o jogo bonito dentro do jogo eficiente. Esta ambivalência é a questão-chave.

À falta de mobilidade ofensiva somam-se diversos erros individuais. No lance do golo do Leicester, por exemplo, em que a falta de agressividade de Felipe permitiu a antecipação de Slimani. Há também o “extraordinário” caso de Marcano: na sua primeira época de dragão ao peito era exímio na forma como saía a jogar e começava o processo de construção da equipa. Depois “kaput”! Zero! Opta pelo passe longo quando pode sair em apoio com os médios ou o contrário. Decide mal. Tal como os laterais portistas, Alex Telles e Layún, unidos pelas más decisões individuais que condicionam o jogo da equipa. O Leicester beneficiou desse rol de falhas e apresentou os pontos fortes da equipa: um jogador “top” como é Mahrez no desequilíbrio e uma dupla de avançados – Vardy e Slimani – que se complementa de uma forma que parece cimentada e trabalhada desde há anos.

Em Leicester, Nuno mexeu bem na equipa: Diogo Jota entrou e deu uma maior mobilidade ao 4x4x2; Herrera é um jogador mais vertical e de processos mais práticos e foi melhor que André André; Corona é um jogador de tremendo potencial que pode ser trabalhado para ser uma espécie de Mahrez dos portistas. E convém não esquecer que o Porto agora tem Boly, jogador que era responsável pelo início do processo de construção ofensiva dos bracarenses e que agora pode replicar esse aspecto específico do jogo no F.C.Porto.  

O Sporting teve uma tarefa fácil. Os leões mudaram agulhas este ano (e bem), colocando o seu onze mais rotinado na Liga dos Campeões e fazendo uma gestão controlada na liga portuguesa. É claro que essa gestão tem de ser feita de forma prudente até porque na ideia de jogo de Jorge Jesus os avançados desempenham um papel fundamental no processo defensivo da equipa. Aliás, o próprio Leicester beneficiou, e beneficia, indirectamente disso mesmo através de Slimani. Contra o Rio Ave tal foi evidente. Contra o Légia de Varsóvia o jogo ficou sentenciado logo de início. Não há muito a dizer. A equipa do Sporting é muito superior à equipa polaca e, fruto de uma pressão adequada e circulação de bola nas zonas certas, cedo aniquilou um adversário que não é melhor que muitas equipas da liga portuguesa. De facto, a análise é mais complexa mas a síntese é curta. Foi, quanto a mim, um jogo com sentença precoce e pensamento leonino na poupança e gestão da equipa para desafios futuros.

No futuro deve pensar o Benfica depois da derrota em Nápoles. Eu diria que os encarnados quase que provam, de forma científica, que as estatísticas devem ser lidas de acordo com o contexto caso contrário estão erradas. Ou seja, comecemos pela verdade da estatística: quantos golos sofreu o Benfica de cabeça esta época? Muitos. Só assim de relance sofreu-os frente ao Arouca, Braga e Vitória de Setúbal (e faço um parêntesis para dizer que o Setúbal é uma das equipas que melhor jogam em Portugal). Outra questão: quantos golos sofreu o Benfica na sequência de bolas paradas? Também muitos. Contra o Nacional, contra o Besiktas e agora contra o Nápoles. Também sofre muitos golos quando Fejsa não está em campo. Isto são questões estatísticas, ou seja, mensuráveis.

Mas o problema do Benfica não é mensurável. Chama-se Jonas. Ou não ter Jonas. O tal jogador que é acusado de ter menor rendimento quando enfrenta as ditas equipas de maior dimensão. Este aspecto não se confirma nas estatísticas mas é certo que Jonas vale pelo que joga, pelos golos que marca, mas sobretudo pelo que faz os outros jogar fruto das suas movimentações. O tal Jonas que remata menos frente às equipas grandes porque está a ser fundamental na transição defensiva da equipa; o tal Jonas que faz menos assistências porque está ocupado a compensar a diagonal de um ala; o tal Jonas que é o jogador-chave do Benfica. E este aspecto não é mensurável, não aparece nas análises. É certo que o Benfica tem outros problemas e muitas outras virtudes mas convém também não dramatizar pois as virtudes, mesmo sem Jonas, são claramente superiores às imprecisões. O Benfica perdeu mas continua forte.

E reabro o parêntesis para destacar o Vitória de Setúbal e com isso puxar também para esse conjunto o Desportivo de Chaves. Que equipa organizada, pensada de baixo para cima! Não dá espaço ao adversário, juntando sempre com eficiência os blocos da linha média e da defesa de forma a impedir o adversário de pensar. Grande trabalho de Jorge Simão em Chaves, mais uma vez a cotar-se como um dos grandes técnicos do futebol português.

 

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

O que se passa hoje?