Quatro pilares da participação

Quatro pilares da participação

Quatro pilares para a participação do treinador de formação e do jovem atleta.

Perto do final desta última temporada sentei-me a pensar porque treino. Porque é que ando metido nisto? A realidade do treinador de formação em Portugal, tal como tantas outras ocupações, não está formatada para ser fácil. Existe, para além do treino, outro emprego, uma família, para quem devemos estar disponíveis. Mas é praticamente impossível que o treino, a equipa, o jogo, não acabe por contaminar quase tudo o resto que fazemos, desde um momento em que paramos para pensar a meio de um outro trabalho, até ao filme que deixámos de ir ver porque encontrámos um vídeo sobre determinado exercício que nos parece tão mais interessante.


Algumas razões afloraram como as principais para querer ser treinador. A principal delas, a aprendizagem. Onde mais podemos continuar a aprender, a ser questionados, a ter que responder, com um exercício prático quase diário, no treino, ou semanal, no jogo? Em mais lado algum. O querer aprender, continuar a aprender, percebendo que esta aprendizagem é longa e, muito provavelmente, infindável, é o principal motor para querer treinar. A segunda delas são os atletas. A experiência de conviver com os atletas, de poder ser importante para eles, conduzindo-os e ajudando-os nas suas buscas individuais para serem melhores é algo que também muitas vezes no escapa na experiência da nossa vida. O querer ser um mestre para alguém acaba, então, por ter esse efeito muito forte na minha vontade de ser treinador. Aliado a esta, surge uma terceira condição, que é a da participação social na construção de algo maior. Através da formação de um jovem atleta envolvo-me diretamente na construção de um futuro melhor para a modalidade em que estou envolvido, participando ativamente em discussões, em debates e trocas de ideias com outros que, como eu, também querem o melhor. Finalmente, o divertimento. Coloco o divertimento como uma das razões para treinar porque não faz sentido não ser divertido chegar a um treino e poder conviver, ensinar e aprender com os jovens que estão connosco. Não será por acaso que vários autores (Allen, 2009, McGladrey, Murray & Hannon, 2010) colocam o divertimento como peça fundamental para o sucesso do processo de treino.


Daí que aponto estes quatro pilares como as razões para ser treinador. Aquilo que posso aprender, aquilo que posso ensinar, aquilo que posso ajudar a produzir, o gozo que tudo isso me dá.

 
Agora, de que forma esses meus quatro pilares se encaixam nas razões que levam os meus atletas a participar? Pela minha experiência de campo, aquilo que é mais importante para um jovem participar numa modalidade é a vontade de querer ser melhor, de fazer bem. Sobretudo numa idade precoce (11, 12, 13 anos), em que os jovens estão perante a formação da sua imagem enquanto adultos, é-lhes fundamental ser bons a fazer coisas. Ser bom a rematar, ser bom a passar, ser bom a defender. Cada um deles luta por ser melhor naquilo que sente capacidade para ser e diferenciar-se a partir daí. No fundo, eles querem aprender. Depois, estando a caminhar para essa sua afirmação pessoal, querem mostrar o que sabem. Daí ser tão importante o momento do jogo no treino ou o da competição, porque naturalmente competitivos, os jovens procuram demonstrar aos outros as suas capacidades. De certa forma, querem “ensinar”. A perspetiva de estar em equipa é, sobretudo, a possibilidade de fazer e alimentar amizades. Muitas vezes nos escalões mais baixos a única forma de trazer uma criança para a prática desportiva é fazendo-o com os colegas da turma, de maneira a prolongar na modalidade o círculo onde se sentem protegidos. Depois, cruzando-se com outros meninos e meninas de outras turmas, e até de outras escolas, os atletas passam a fazer parte dos amigos do desporto, um sub-grupo que pode até vir a ter mais influência no compartilhar dos tempos livres, porque acabam por se encontrar fora da escola, ao fim-de-semana e poder partir daí para outras “aventuras”. Eles estão também a “produzir” algo maior a partir da participação na modalidade. Finalmente, o divertimento. Se não é divertido, não vale a pena. Ouvi isso em muitos treinos, em vários pavilhões, ao longo dos últimos anos. Tem que ser divertido. O que não significa não ser exigente, não ser difícil, por vezes, não ser desafiante, quase sempre. Mas divertido.

 
Acredito que os meus quatro pilares e os quatro pilares da participação dos meus atletas se conjugam e alinham uns nos outros.

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Sobre Luis Cristovao

Luis Cristovao

Aluno do Mestrado em Treino Desportivo da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa. ...

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