Science of Winning Soccer: Emergent pattern-forming dynamics in association football

Science of Winning Soccer: Emergent pattern-forming dynamics in association football

Revisão do artigo Science of Winning Soccer: Emergent pattern-forming dynamics in association football de Vílar, L., Araújo, D., Davids, K., Bar-Yam, Y. publicado no Journal of Systems Science & Complexity 26(1): 73-84 (2013).

Science of Winning Soccer: Emergent pattern-forming dynamics in association football

Vílar, L., Araújo, D., Davids, K., Bar-Yam, Y.

Journal of Systems Science & Complexity 26(1): 73-84 (2013) 

1.

Neste artigo, Vilar, Araújo, Davids e Bar-Yam (2013) centram-se na importância das dinâmicas coletivas na análise de um jogo de futebol, propondo um novo método de análise quantitativa focado nos padrões de movimentação coletiva em diferentes áreas do campo consoante a localização da bola.

A hipótese que está na base do estudo define-se nos seguintes termos: a vantagem numérica em determinada subárea é chave para o equilíbrio defensivo e para a criação de oportunidade ofensiva, sendo que esses momentos definem vencedores e vencidos neste jogo.

As análises quantitativas tradicionais dos desportos coletivos focam-se nos aspetos do confronto de um para um (1v1) entre avançado e defesa, enquanto a análise do rendimento foca a recolha dos seus dados nos feitos individuais de cada atleta. A presente proposta considera o comportamento de múltiplos jogadores, considerando que o rendimento depende da formação de padrões dinâmicos e das relações espaciais entre jogadores da mesma equipa e os seus oponentes.

Da análise tradicional retira-se, no entanto, uma ideia que é chave para este estudo: a de que a quebra da simetria no 1v1 gera vantagens, algo que é também verificável quando aplicado às dinâmicas coletivas. Se temos estabilidade - o objetivo de uma equipa de futebol no momento defensivo - não se geram oportunidades para marcar golo. Se conseguimos gerar instabilidade - o objetivo de uma equipa de futebol no momento ofensivo - estaremos então mais perto de criar oportunidade de golo.

Assim, como refere Vilar et al.(2013), uma análise da dinâmica de formação de padrões nas diferentes áreas de jogo em desportos coletivos poderá explicar como se coordenam os jogadores para manter ou perturbar a estabilidade dos sistemas.

2.

Na preparação deste estudo, os autores sublinham o baixo número de golos como uma condicionante da estratégia no futebol em comparação com outros jogos coletivos. Cada equipa distribui os seus jogadores em sistemas de jogo que sugerem apenas uma organização global, sendo que é da coordenação entre jogadores como resposta às dificuldades sentidas para organizar a equipa que nascem as dinâmicas decisivas para vencer ou perder os encontros. Nessas nuances geram-se, segundo os autores, as vantagens necessárias para vencer partidas.

A investigação cingiu-se a apenas uma partida e não reclama uma generalização das conclusões, ainda que considere um jogo uma medida adequada das forças de ambas as equipas, sendo que as medidas observadas podem não só ajudar a distinguir o vencedor e o derrotado, mas as verdadeiras capacidades de ambas as equipas.

Uma nova definição de área de jogo foi utilizada pelos autores. Assim, por área de jogo entende-se a área que circunscreve o posicionamento dos vinte jogadores de campo (os guarda-redes não são considerados). Dentro dessa área, são definidas subáreas defensiva e ofensiva, com o intuito de delinear os sistemas utilizados pelas equipas. Essa estratégia emerge das interações e da colocação de jogadores em determinadas subáreas.

Participaram no estudo vinte e oito homens profissionais de futebol que jogaram uma partida da Premier League inglesa em outubro de 2010. Os jogadores foram monitorizados pelo sistema multicâmera Prozone3, permitindo a definição das coordenadas de movimentação dos mesmos sempre que a bola esteve em jogo.

Concluiu-se deste estudo que as equipas colocam mais atletas nos espaços defensivos, com vista à estabilidade e segurança, algo típico nos jogos coletivos com baixo número de golos. Para além disso, ao analisar a imprevisibilidade  das relações numéricas em cada subárea, chegou-se a conclusões quanto às áreas onde transições estáveis ou instáveis ocorrem, no que toca à coordenação das equipas. Finalmente, um mesmo sistema pode levar à observação de estratégias diferentes de parte a parte. 

3.

Vilar et al.(2013) divide a apresentação dos resultados em três grandes grupos.

No que toca às tendências de coordenação entre equipas opostas, observa-se uma simetria nas subáreas de jogo. Se a equipa A apresenta uma vantagem de +1 jogador na subárea defensiva lateral esquerda, a equipa B apresenta menos um jogador na subárea ofensiva lateral direita. Observa-se também um padrão de estabilidade nas zonas defensivas, com ambas as equipas a procurarem ter superioridade numérica nessas subáreas. A equipa A apresenta maior prevalência de segurança defensiva na subárea central, entendendo-se que a segurança na zona central será mais importante do que nas faixas laterais, no que toca ao alcançar do sucesso. A procura de vantagem também é registada nas zonas ofensivas, sendo que a equipa A alcançou durante períodos maiores superioridade numérica na subárea ofensiva central, causando instabilidades que se transformaram em oportunidades.

A imprevisibilidade da coordenação entre equipas nas diferentes subáreas é outro dos elementos sublinhados como chave para a compreensão deste estudo. A subárea central média é onde se regista maior instabilidade, o que segundo os autores, revela um movimento de jogadores de áreas adjacentes para o meio. Vilar et al.(2013) apontam duas razões para que isso aconteça: esta é a subárea de menor importância para alcançar o golo e serve como uma zona de reserva de jogadores que se deslocam consoante as necessidades da equipa. As outras duas áreas onde se assinala maior instabilidade são nas zonas centrais de ataque/defesa, o que resultará, segundo os autores, de um excesso de defesas concentrados nessas subáreas. Apesar de dominar a subárea central ofensiva seja raro, esse é, em última análise, o objetivo do jogo. Tendo-se notado que a equipa A era mais previsível nas suas subáreas defensivas, entende-se que alcançou maiores períodos de segurança para a sua baliza.

No que toca à coordenação interna das equipas, ambas deram privilégio às subáreas defensivas, com ambas a darem maior importância às subáreas centrais em comparação com as laterais. No entanto, as equipas diferiram na simetria direita-esquerda, com a equipa A a dar maior importância à subárea defensiva direita do que a esquerda, enquanto a equipa B apresenta números equilibrados entre as duas faixas laterais.

Em suma, os autores atribuem o sucesso da equipa A, que saiu vencedora do encontro, ao facto de conseguir manter uma maior segurança nas subáreas defensivas, ao mesmo tempo que apresentava maior capacidade de correr riscos nas subáreas ofensivas, enquanto a equipa B foi mais estável na distribuição dos seus jogadores pelas diferentes subáreas de jogo. Assim sendo, conclui-se que a vantagem numérica nas diferentes situações de jogo tem uma importância chave no alcance do sucesso.

4.

Numa reflexão perante os dados do artigo, sente-se que as conclusões de Vilar et al.(2013) apontam no sentido para o qual evoluem as preocupações táticas das equipas, olhando para uma compactação no momento defensivo e privilegiando o foco da área de jogo em espaços cada vez mais reduzidos. Em estudos futuros, poder-se-ia avaliar se a área de jogo conforme é definida pelo presente estudo tem refletido essa diminuição ao longo do tempo.

Um outro ponto a destacar deste estudo prende-se com a definição do sistema global de jogo (4-3-3, por exemplo) e das diferenças impostas sobre o mesmo pelas dinâmicas e padrões de coordenação internos e externos das equipas. Nesse sentido poderia extrapolar-se a possibilidade de, no futuro, o delineamento dos sistemas táticos das equipas se realizar de forma a abandonar a ideia estática, mas privilegiando uma ideia mais dinâmica que tem, não raras vezes, assimetrias entre as faixas laterais, como se denota neste mesmo estudo. Isso mesmo poderá vir a ser essencial para uma fiel observação feita a equipas adversárias no momento de preparação para a competição.

O estudo abandona a análise quantitativa das ações individuais para a fazer numa base coletiva. Com esse caminho, o ênfase é colocado na coordenação entre os diferentes jogadores. No entanto, para fechar o círculo da análise do jogo de futebol, penso ser essencial o regresso à análise individual, anotando o comportamento de cada jogador perante os diferentes posicionamentos da bola, mas também perante as diferentes situações de jogo, caso a sua equipa esteja empatada, a vencer ou a perder, e também numa análise dessas atitudes conforme o tempo de jogo. Uma vez agrupado o comportamento médio do jogador, o atender às suas especificidades será essencial para podermos conhecer as forças e fraquezas de cada equipa. Para que isso aconteça, é fundamental que a análise tenha por base mais jogos. Analisar uma equipa dentro de um ciclo de várias partidas traria enormes benefícios para a caracterização da mesma e das suas individualidades. 

Finalmente, reconhecendo às vantagens numéricas uma importância chave no alcance do sucesso, a partir deste estudo deve entender-se a preparação das equipas para o reconhecimento e aproveitamento dessas situações em jogo. À imagem do que é feito noutras modalidades coletivas, como é o caso do basquetebol, em que as situações de vantagem numérica são treinadas à exaustão e as decisões a tomar são pensadas e preparadas pelo conjunto da equipa técnica e dos respetivos atletas, o mesmo terá de ser aplicado ao futebol. Identificar cada uma das situações (2v1, 3v2, 4v3, etc.) e as subáreas onde ocorrem com maior frequência, de modo a treinar cada uma das execuções, tornará o aproveitamento da vantagem muito mais rentável para a equipa que o fizer.

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Sobre Luis Cristovao

Luis Cristovao

Aluno do Mestrado em Treino Desportivo da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa. ...

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