O futebol para além da periodização tática

O futebol para além da periodização tática

       No princípio deste jogo só bola era tida em conta, depois a tática mas nunca o homem. Afinal que futebol é este? Poderia ser o princípio de qualquer artigo mas é muito mais que isso!

       Que futebol temos e para onde caminha? Nos dias de hoje é essencial que se conheça o jogo de forma cada vez mais profunda, sem esquecer o mais pequeno dos pormenores. Numa perspetiva holística não poderá ser de outra forma, o futebol e o desporto em geral são muito mais do que apenas um jogo competitivo.

       A evolução do jogo deve-se em muito às metodologias de treino, desde a periodização convencional à periodização tática.

       A mais “atual” e utilizada metodologia de treino de futebol em portugal é a “periodização tática”, criada pelo professor Vítor Frade, que assenta numa ideia de treino baseada em princípios e sub princípios de jogo que permitem operacionalizar uma ideia de jogo. A forma como se deseja que a equipa jogue determina que a mesma fique subjugada às diferentes dimensões do jogo. Esta metodologia originou uma legião enorme de seguidores e tem atingido bons resultados, no entanto, com a evolução do jogo, e com as dificuldades que vão surgindo a cada dia, existe a necessidade de procurar novas metodologias e soluções. A tática tem sobressaído cada vez mais perante a técnica, porém a dimensão tática é demasiado exacerbada comparativamente com as restantes dimensões o que também causa alguns retrocessos evolutivos. A periodização tática não poderá evoluir como é desejável se não se tiver, mais, em consideração os jogadores que a executam, pois serão eles que irão definir algumas particularidades da mesma. Posto isto, é preciso fazer melhor afinal não é isso o que todos desejamos?

       Manuel Sérgio (2015), vai mais longe e acrescenta algo muito importante, “A periodização antropológica e táctica (e não só a periodização táctica), que eu procuro apresentar à crítica sagaz dos especialistas, muda o paradigma do treino, pois que, nela, o essencial é tanto a táctica, como o homem que concretiza a táctica.”

       O jogador tem de ser equacionado enquanto ser racional e emocional em detrimento de um ser mecanizado para poder ser verdadeiramente essencial no jogo e desenvolver-se enquanto ser. Posto isto, é necessário encarar o processo de treino numa perspetiva evolutiva inacabada e em permanente construção, sem esquecer que todo este processo deve ocorrer em função dos jogadores de que se dispõe. Portanto, “Não basta saber para onde se vai, é preciso saber por onde se vai.” A evolução só ocorre se esta se coadunar com os “atores” em cena, ou seja, as ideias terão de estar de acordo com intérpretes das mesmas. Esta operacionalização terá de ser rigorosa e respeitar alguns parâmetros fundamentais, assim, não esquecendo que é necessário construir ideias de jogo coerentes e exequíveis, a observação individual e coletiva tem de ser permanente para se perceber como se pode ir ajustando o processo ao longo do tempo, analisar o desempenho coletivo e individual em função dos objetivos propostos é essencial para aferir como se desenvolve a relação entre o rendimento individual e coletivo.

       O ser humano é e será sempre o fim, nunca o meio!

       Como operacionalizar as teorias existentes de acordo com a prática que se deseja?

       Antes de se poder avançar é necessário que se avalie de forma generalizada quais os limites onde é possível trabalhar, a partir daí fica balizado de onde se está a começar e até onde se pode ir. Porém não é tão fácil quanto a descrição acima indica, pois esse processo torna-se reversível em algumas circunstâncias. As ideias que definem o “nosso” modelo de jogo e sobre as quais se deve periodizar, são definidas entre outros parâmetros pelas características dos jogadores. Porém existe a possibilidade de se terem dois jogadores para a mesma posição completamente distintos (ex. André Almeida e Nélson Semedo, Eliseu e Grimaldo), e agora como se ajusta esta diferença de caraterísticas no desenvolvimento do processo de treino? É aqui que os grandes treinadores se evidenciam, porque conseguem sempre perceber que tipo de jogadores têm pela frente e como extrair o melhor de cada um deles. Em função dos jogadores escolhidos a estratégia a adotar deve coadunar-se com os mesmos, por isso, dentro do modelo devem existir variantes que prevejam este tipo de diferenças, sempre em função dos jogadores da equipa, o modelo não é nem pode ser fechado a novas e a melhores soluções. A equação e preparação de todas estas questões é responsabilidade do treinador, ele não poderá desassociar-se dessa obrigação tal como deve ter sempre equacionadas soluções de recurso para poder implementar sempre que ache necessário. Mas voltando às caraterísticas dos jogadores e ao ajuste do processo de treino é necessário que as prioridades estejam bem definidas. Face aos exemplos apresentados anteriormente, analisemos os laterais que compõem o plantel do SL Benfica, o que acrescenta ou altera cada um deles na forma de jogar da sua equipa?

       Começando pelos laterais direitos, André Almeida é um polivalente, com maior capacidade defensiva que ofensiva, forte no desarme, capacidade de jogar com os dois pés e atacar o espaço aéreo, porém Nélson Semedo é rápido, tem capacidade para assumir o 1x1, capacidade de variar o jogo pelo interior ou exterior, forte na antecipação, mas apresenta algumas dificuldades táticas em ações de caráter defensivo. Pelo lado esquerdo da defesa, Eliseu é o mais experiente, tem forte capacidade de utilizar o corpo nas diferentes ações do jogo, mostra-se mais forte no processo ofensivo que defensivo, mas tem algumas deficiências no jogo aéreo, porém Grimaldo é muito evoluído tecnicamente, tem grande capacidade de interpretar taticamente o jogo, a sua velocidade com bola e agilidade não afetam a sua tomada decisão, mas precisa melhorar o jogo aéreo e alguns aspetos defensivos.

       Para operacionalizar é necessário ter ideias e essas dependem do treinador, porém este não deve ignorar que as diferenças entre jogadores são naturalmente essenciais para se jogar de forma diferente e como tal não é possível jogar da mesma forma com intervenientes diferentes, assim cabe ao treinador desenvolver diferentes princípios e estratégias para potenciar os diferentes recursos disponíveis. Cumprindo parte destas premissas, o futebol ganha outra dimensão e a periodização implementada está muito mais ajustada, não apenas às ideias de jogo mas também aos seus intérpretes. Quando o treinador não ajusta as suas ideias aos homens que têm pela frente mais cedo ou mais tarde vai começar a mudar algo e normalmente muda quase sempre para o “lado do treinador” e de forma negativa, por norma este processo tende a tornar-se irreversível.

        O processo de treino enquanto periodização deveria ser sempre um meio para atingir determinados objetivos, o homem enquanto ser humano ou o jogador deveria ser sempre o fim em si mesmo, com a preponderância de ser o elemento principal ao jogo.

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Sobre André Mendes

André Mendes

Quem gosta de futebol tem de se preparar para trabalhar em diversos contextos de trabalho, esse facto leva-nos a um crescimento que acabará por ser fundamental no nosso desempenho....

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