2017-04-20 09:15:22

Jogar à Mónaco: nem ao ataque nem à defesa. Simplesmente no ponto certo

Jogar à Mónaco: nem ao ataque nem à defesa. Simplesmente no ponto certo

Mónaco faz do equilíbrio o seu principal trunfo

Dá gosto ver o Mónaco a jogar. Em termos de jogo colectivo, é provavelmente a melhor equipa desta Liga dos Campeões. Defende bem e ataca bem, não sendo propriamente uma equipa muito recuada nem completamente irreverente em relação ao jogo. É uma equipa que sabe aquilo que vale e que sabe até onde se pode superar. O segundo golo marcado frente ao Dortmund é um exemplo de um grande golo colectivo. Circulação eficiente com solicitação pelo corredor e pelo centro, subida do lateral e antecipação de Falcão ao defesa que o marcava. Pleno mérito colectivo. Mesmo sem Fabinho, um dos pilares da equipa, o Mónaco foi implacável e controlou um Dortmund que também está a um nível tremendo.

 O mérito do Mónaco é um consequente mérito de Leonardo Jardim, um treinador português que está ao nível dos melhores do mundo. Valorização do trabalho, do ajustamento do detalhe, da potenciação do jogador às suas reais capacidades (e que talento é Mbappé!). E faço a ponte para o clássico. Um clássico que se revela decisivo para as contas do campeonato mas, sobretudo, que mostra um Sporting que vale também pela força do seu colectivo. E que vale por uma força suplementar adquirida nos últimos tempos em que os holofotes deixaram de estar centrados na equipa. Fluidez, naturalidade. Sem ansiedade, sem coração aos saltos. Neste novo contexto, os passes são mais acertados, erra-se menos, e exponencia-se uma equipa que vê crescer Alan Ruiz como elemento em que vale a pena apostar. Para este ano e para os anos vindouros. Ganhou sobretudo rotinas de jogo interior, de articulação com Bas Dost. E de aparecimento frequente em zonas de tiro a finalizar, como aconteceu no Dragão frente ao F.C.Porto. Nas laterais, o Sporting tem um Schelotto mais estável, mais envolvido no ataque e que assina uma espécie de declaração de certeza para o futuro. Do outro lado, o cenário está mais instável, até pelas intermitências exibicionais de Zeegelaar. Gelson tira a equipa do cenário de laboratório que tanto a caracterizou no ano passado. Está visto: o Sporting vive o melhor período da temporada.

 O Benfica vive por arames, mas tem um grande mérito de reciclar esses mesmos arames semana após semana. Rui Vitória tem a inteligência de perceber exactamente quais os problemas mais prioritários a resolver. Os problemas secundários vê-os e controla-os à distância. Nem que para isso seja imperioso jogar-se mais em função do adversário. Frente ao Marítimo, por exemplo, foram várias as vezes em que Jonas apareceu perto da área, em zona de tiro, para aproveitar uma debilidade específica da equipa insular. Depois, a também entrada de Grimaldo permite um maior aproveitamento da zona central, ele que deriva para essa zona e faz com que a equipa avance e se multiplique na lateral. E aí compensa Jonas, compensa Rafa, aparece Pizzi. O flanco esquerdo equilibra-se e acompanha um flanco direito que vive do fulgor de Nelson Semedo e da boa articulação com Salvio. Se há umas semanas acusei o Benfica de estar muito dependente do seu flanco direito, agora refaço essa afirmação. Entrou Grimaldo e a equipa ganhou outra acutilância pelo outro corredor. Porque o Benfica vive muito dos corredores. E vive muita da reciclagem que apresenta semana após semana.

 Já o Porto mostra-se diferente daquilo que se viu no início da temporada. Dantes era grande frente aos fortes e mais débil frente aos pequenos. Agora, parece ser o contrário. Aliás, eu julgo que esta forma brusca de estar e de conviver entre estes dois paradigmas tem levado a alguma instabilidade. Falta ao Porto ser Mónaco: ter vários contextos e saber viver no limbo. O Porto de hoje em dia é uma equipa que poucas oportunidades de golo concede ao adversário mas também cria e desequilibra muito pouco. É uma equipa temível em termos de bola parada, e também uma equipa bem organizada na forma como aniquila as bolas paradas do adversário. Eu diria que é uma equipa menos criativa, muito física, dependente daquilo que Brahimi pode oferecer individualmente. E o Braga marcou um golo à Leicester: variação rápida de flanco, aproveitamento das debilidades de Alex Telles em situações de 1x1, cruzamento para a área e finalização de cabeça. Ou seja, o Porto é intransigente na defesa da sua baliza mas naturalmente que mesmo o seu ponto forte tem debilidades. Ideal seria fazer imperar a lei do mais forte. Porque jogando no risco, no atrevimento, por certo que o factor individual poderia valer mais pontos aos dragões. Valeria mais a pena.

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