2017-06-01 10:45:31

Benfica foi uma espécie de Banesto e Jonas um tal de Indurain

Benfica foi uma espécie de Banesto e Jonas um tal de Indurain

No Benfica, os benefícios valeram sempre mais que os malefícios

Não sei se estou a exagerar ou não mas é a melhor comparação que encontro. Quem gosta de ciclismo decerto se lembra da equipa da Banesto. A equipa de Miguel Indurain. Ou seja, não foi o Benfica mais espectacular dos últimos anos mas foi o mais sólido e consciente daquilo que valia. Um pouco à imagem do seu treinador. Definir Rui Vitória é entender um conceito de equipa em três castas. Quase como uma equipa de ciclismo.

Temos uma primeira casta de jogadores que fazem a diferença (Jonas, Éderson, Pizzi). Esses fazem o papel de “Indurains”; depois, temos um segundo lote de “aguadeiros”, os ditos ciclistas que levam o abastecimento ao chefe-de-fila ou, futebolizando, os jogadores que equilibram a equipa; e, por último, temos lugares reservados para jovens que querem brilhar. Que querem pedalar mais rápido mas que às vezes gastam todas as suas energias no primeiro prémio de montanha da etapa.

Depois, o treinador do Benfica sabe que tem problemas, mas tem o incrível mérito de escalá-los em conformidade. Resolve os mais graves e deixa os mais pequenos para outras núpcias. Por exemplo, vendo que estava a sofrer muitos golos de bola parada, colocou Luisão na equipa. Estancou a hemorragia mas ficou a perder em termos de confronto individual. Tal foi fatal, por exemplo, contra o Marítimo, no golo de Ghazaryan. E noutras situações. A questão é que feitas as contas, e feitas as contas de forma fria, a opção teve mais benefícios que malefícios. À semelhança de todas aquelas que o Benfica tomou esta época.

O Benfica deste ano não foi a equipa ofensiva de outros anos mas foi mais sólida e organizada em termos defensivos. Apostou na entrada de Grimaldo que, malgrado ter menos frieza no posicionamento, ataca mais e melhor que Eliseu. Benefícios valeram mais que malefícios. Manteve Salvio no onze em altura de contestação e apostou em Cervi, com este último a mostrar uma tremenda evolução na forma como defendeu. Benefício maior do que seguir as modas e apostar em Zivkovic. Contra o Vitória de Guimarães, o Benfica aguentou a sua solidez até ao extremo da paciência, montando uma espécie de cenário à espera que aparecesse o desequilíbrio da sua primeira casta. Isto porque o Vitória apresenta um excelente sistema de jogo. Consolidado. Equilibrado. Mas falta aos vitorianos, quanto a mim, em talento individual aquilo que tem a rodos em termos colectivos. Falta a primeira casta. Uma casta prioritária.

Prioridade foi algo que o F.C.Porto não teve esta época. Mas os tempos são risonhos e de muita esperança. Em primeiro lugar, porque os dragões, até por razões financeiras, têm de mudar o seu paradigma e se olharmos para a falta de títulos dos últimos quatro anos, constatamos que esta mudança obrigatória é a melhor coisa que pode acontecer. É um raciocínio fácil e consensual de se fazer: em equipa que ganha não se mexe, e em que equipa que não ganha tem obrigatoriamente de se mexer. O problema é que este raciocínio tão simples é tantas vezes complexo na altura de se passar à prática. No futebol como em tudo.

Depois, o F.C.Porto não está em cenário de catástrofe. Ficou em segundo lugar, qualificou-se directamente para a Liga dos Campeões, e a poucas jornadas do fim até lutava pelo primeiro lugar. Se a recusa, ou “eventual” recusa, de Marco Silva me pareceu de cariz de salvaguarda – não ganhar no F.C.Porto nesta altura seria um reverso na sua carreira – há outros técnicos de quem se fala. Mas, mais importante do que apontar Sérgios ou Paulos, há que perceber que contratar um treinador significa contratar uma filosofia. Que terá de ser mais arrojada. Mais destemida. Não vale a pena contratar-se o melhor cozinheiro de francesinhas do mundo quando o nosso restaurante serve comida asiática. Algo estava mal, e quando se muda há a grande probabilidade do cenário ficar melhor. No F.C.Porto importa estabelecer uma normalidade em que, mesmo jogando mal, haja uma ofensividade capaz de garantir serviços mínimos de vitória. Ao contrário do ano passado, em que se jogou bem frente ao Benfica e mal frente a Tondela e Belenenses. Malefício maior que benefício.

E o Sporting contratou um bom jogador: Rodrigo Battaglia. Acima de tudo, pode acrescentar uma maior intensidade, capacidade de decisão e astúcia na altura da transição ofensiva. Para além de robustez física e capacidade de finalização. Não é um tecnicista por excelência, mas enquadra-se bem na ideia de jogo de Jorge Jesus. Se bem que eu continue a insistir que Esgaio é muito melhor do que aquilo que parece – nalguns jogos pareceu-me inclusivamente a solução mais sólida para lateral esquerdo – não deixa de ser uma contratação interessante por parte dos leões. Um leão que vai tentar encontrar um companheiro para Bas Dost para voltar em força aos seus tempos de 4x4x2. Foi ali, na frente de ataque, que algo faltou. Não encaixou. Ou então pensou-se que encaixava e a coisa saiu furada. Foi um handicap dos leões: contratou com critério mas os jogadores não renderam o esperado. Agora, há que se calhar correr menos riscos e aproveitar o bom filão do mercado interno. Para futuro benefício leonino.

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