2017-07-26 00:08:19

Sérgio Conceição mostra que é

Sérgio Conceição mostra que é

Frieza e racionalidade mostram um dragão mais talhado para regressar aos êxitos

Dizem os mais optimistas que é em tempo de crise que as oportunidades aparecem. Dizem outros, também, que a crise obriga à mudança, e a mudança muitas vezes faz com que o errado passe a estar certo. Porque não é a comprar jogadores que se resolvem os problemas. É a mudar. E, desde logo, Sérgio Conceição acertou em cheio. Na forma como pôs o F.C.Porto a jogar mas, sobretudo, na forma como interveio. Em cheio!

 Isto sim é o pensamento de um treinador de um clube grande. “A grande contratação é a base do ano passado. É preciso ver que o F.C.Porto não ganhou o campeonato por pouco”. Bingo! Porque se pede mesmo isto: frieza e racionalidade. O F.C.Porto ficou em 2º lugar da liga portuguesa, o que é mau mas não é catastrófico. Com isso, os dragões estão qualificados para a fase de grupos da Liga dos Campeões, o que é óptimo. Liga dos Campeões essa onde o F.C.Porto caiu, o ano passado, nos oitavos de final frente ao finalista vencido da competição, o que não é propriamente um desastre. E os dragões mostraram solidez a defender. Nuno Espírito Santo não é nem nunca foi, a meu ver, treinador para o F.C.Porto. Mas não é um indivíduo inapto. Se tivesse deixado mais atributos à equipa seria óptimo. Seria melhor. Mas, valha a verdade, também não deixou nenhum terramoto. Nenhuma catástrofe.

 Perceber-se isso, e dizê-lo, é meio caminho andado para o êxito. Para a reconquista de títulos. São pormenores que fazem toda a diferença. Aliás, há um exemplo bem recente: “só vou para casa no dia 11 de julho. E vou ser recebido em festa”. Porque o contexto é muito semelhante. Portugal não tinha ganho mas também não tinha perdido. Tinha estado melhor frente à Áustria do que frente à Islândia. Estava com coesão defensiva assinalável e previa-se uma resposta mais eficiente frente a equipas de maior dimensão, pois Portugal jogava muito em função do adversário. O Euro não era impossível. Nem estava assim tão longe. Acima de tudo, é entender-se a trajectória ascendente, a melhoria, e fazer todo o grupo acreditar que não se pode quebrar naquele preciso momento.

 Costumo dizer que reconheço três pecados capitais, três pecados emocionais, a cada um dos três grandes. O Sporting é muito vulnerável ao que se passa no exterior. É um clube pouco blindado e fortemente influenciado por aquilo que se diz e se rediz. Dá-se geralmente melhor quando está fora do alcance dos holofotes. Já o Benfica sofre um pouco pela consequência da sua grandeza. Quando ganha gera-se uma pressão positiva que é muito difícil de combater. O problema é quando perde, quando gera desconfiança. Aí, a pressão é feita no sentido contrário. Na minha opinião, não é propriamente uma vulnerabilidade ao exterior, mas antes um efeito-réplica de um clube com uma dimensão até anormalmente grande para um país com a dimensão de Portugal.

 Ao F.C.Porto também reconheço o seu pecado capital: vive mal com o luxo. Com a abundância. Com muito dinheiro na conta bancária. Os dragões podiam ter aproveitado de uma forma muito mais eficiente a conquista da Liga dos Campeões em 2004. À posteriori, fizeram um dos campeonato mais sofríveis dos últimos anos. Contrataram muito e contrataram mal. Quase passar do oitenta ao oito. E os anos recentes vieram um pouco encorpar a minha ideia. O Porto dá-se bem a comprar barato e a vender caro. E a voltar a vender barato e a voltar a vende caro. 

Confesso que nem sempre fui admirador de Sérgio Conceição. Critiquei-o por diversas vezes no Sporting de Braga e no Vitória de Guimarães. Achava-o muito emocional na abordagem ao jogo, com pouca disponibilidade para jogar em função do adversário. Por isso, até foi com alguma estupefacção que observei a espaços o êxito do Nantes da época passada. Futebol extremamente ofensivo, equipa bem equilibrada em 4x4x2, arrojada e destemida. É lógico que se pode argumentar que o analisei mal enquanto ele treinou em Portugal. E eu não replico. Agora, também pode não ser descabida a natural evolução. Tal como aconteceu com Fernando Santos, ele que hoje é muito mais treinador do que aquilo que era de dragão ao peito. Seja como for, é tudo um mar de dúvidas. Ir em busca da razão também não interessa muito.

 Interessa mais é perceber-se a disposição dos dragões nos últimos jogos. Desde logo uma opção que me parece determinante: a colocação de Òliver em zonas adiantadas, onde a sua inteligência e rapidez de decisão podem ser determinantes. Depois, a libertação de espaços para dois laterais tremendamente rápidos, com capacidade para cobrir todo o corredor. Com isso, gera-se, também, e de forma indirecta, uma menor dependência das saídas de jogo através dos centrais, algo que era ponto fraco na época passada. E tal se atenua ainda mais com o posicionamento da equipa em áreas muito avançadas. Com os alas a tenderem muito para dentro, permitindo a alimentação do jogo pelo meio e a “tal” libertação dos laterais. Dois avançados complementares: um mais vocacionado para zonas de tiro fácil (Aboubakar) e outro mais propenso ao jogo directo(Soares). Seja como for, há algo que os une: a predisposição natural para o 4x4x2. Sem adaptações, sem grandes estudos. Dão-se bem a jogar em dupla porque jogaram grande parte das respectivas carreiras em dupla.

 Resta saber como vai jogar o Porto frente a equipas de maior dimensão. Porque a jogar assim as dificuldades podem surgir se as equipas adversárias forem exímias na circulação rápida e variação abrupta do centro de jogo. Mas esta mudança é positiva. É determinante. Porque, valha a verdade, a maior parte das equipas em Portugal não vai oferecer esse problema. O F.C.Porto de Sérgio Conceição quer a normalidade. Quer a normalidade da lei do mais forte. E está no caminho certo.

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