2017-09-21 12:46:47

O fantasma de Fejsa

O fantasma de Fejsa

A falta de uma alternativa a Fejsa já podia ter sido solucionada. Benfica dentro da normalidade

O Benfica vendeu três jóias e não comprou nenhuma. Sobra o caminho da reconstrução. E, se o caminho da reconstrução é rentável, também é o mais demorado. Ou seja, o Benfica trilha o caminho esperado. Roma e Pavia não se fizeram num dia.

Aliás, a maior crítica que se pode fazer aos encarnados é a falta de criação de uma alternativa à ausência de Fejsa. O sérvio é, indiscutivelmente, um jogador propenso a lesões e a alternativa não está à altura. Samaris colecciona erros tácticos que o impedem de utilização regular; Filipe Augusto garante boa circulação de bola mas não deixa de ser um médio de transição; também não se sabe, ainda, o que pode valer Chrien, isto apesar das boas indicações de pré-época. E já nem coloco na equação o talentoso João Carvalho, presumivelmente destinado a zonas mais adiantadas. Por outras palavras, Fejsa sai da equipa e a casa treme. Treme porque não tem um dos seus pilares. E o problema é que não há uma réplica. Uma réplica que não tem de ser tão boa como o modelo original. Mas pelo menos que tenha características parecidas.

Frente ao Boavista, tal foi evidente na forma como a dupla Filipe Augusto – Pizzi não se conseguiu enquadrar. Porque foi uma dupla que não devia ter sido. Muito emparelhados, muito em linha, com pouca disponibilidade para cobrir um espaço que, na segunda parte, foi ocupado por Fábio Espinho e David Simão. A receita não é assim tão linear mas o que é facto é que para se derrotar o Benfica nesta altura há que colocar jogadores na dita posição “10”. Sente-se mesmo o fantasma de Fejsa.

Mas o Benfica não está em crise. Longe disso. A situação era expectável e obedece a critérios de gestão. André Almeida pode ser uma boa solução para lateral direito se readquirir os índices de desempenho verificados no primeiro ano de Rui Vitória. No centro, Jardel está a recuperar e Rúben Dias a crescer, ambos com a responsabilidade de, para além de defenderem, iniciarem o processo de construção. Falta a baliza. Apesar do erro, Bruno Varela tem mostrado competência na retaguarda encarnada, até na saída aos cruzamentos. É claro que defender a baliza do Benfica é um fardo pesado para um guarda-redes tão jovem. E é claro, também, que a missão de substituir um elemento como Éderson é gigantesca. Trajecto normal. Aliás, basta atravessarmos a segunda circular para vermos o percurso de Rui Patrício, que sofreu golos com grande dose de culpa no início do seu estatuto de titular. E foi a manutenção desses erros que valeram, indirectamente, o título europeu a Portugal.

Em Portugal onde há duas equipas que se superiorizam. O Sporting que frente ao Tondela poupou alguns dos elementos mais produtivos – casos de Gelson e Battaglia – em face da gestão do plantel e dos compromissos que se avizinham. Nos leões de destacar a presença de Acuña, um extremo que se evidencia pela forma como defende com muito rigor. O Sporting continua a ser uma equipa de rigores e com boa dose de laboratório, muito embora as excepções sejam cada vez mais frequentes. A capacidade de tiro aumenta, por exemplo. No miolo cresce uma dupla – William e Bruno Fernandes – que troca de posição com regularidade e que, acima de tudo, se revela como pilar de um futebol de passe e que sustenta toda a criação da equipa a partir daí.

O estilo do F.C.Porto não é laboratorial, mas obedece a um paradigma diferente daquele que foi apresentado na temporada passada. Mais ofensivo. Ciente de que os jogos frente a Rio Ave, Portimonense (e não me engano, o Portimonense tem realmente uma boa equipa!!!), Mónaco e Sporting pressupõem outro tipo de equilíbrios, Sérgio Conceição reforçou o miolo. A forte pressão junto da zona de construção do adversário continua lá, a mobilidade ofensiva com trocas posicionais e o envolvimento dos laterais também continuam lá. Mas importa, sobretudo, impedir um futebol vertiginoso, de “bola na minha área – bola na área do adversário”. Foi isso que fez cair o F.C.Porto frente ao Besiktas. Esse caminho não.

Um F.C.Porto que, aos poucos, vai desenhando alguns padrões na sua frente de ataque. Falo, por exemplo, da rápida transição ofensiva com deslocamento do avançado para a ala, com o intuito de garantir espaço para o médio definir o passe com mais critério. Essa foi a chave do segundo golo dos dragões. Marcado por Marega. Lembro-me que, aquando da sua contratação, se falava dos seus poucos anos de jogo e consequente impreparação táctica num ou noutro momento. Malefício que foi transformado em benefício. O maliano tem a preocupação extrema de interpretar todas as instruções ao pormenor. Compensa a falta de capacidade de desequilíbrio em espaço reduzido com uma profunda dedicação e empenho. É verdade que o ataque é o sector mais débil dos dragões. Mas também é verdade que Marega tudo fará para que tal, um dia, seja mentira. 

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