2017-10-19 10:33:31

Eu até sou menino para tirar o Casillas

Eu até sou menino para tirar o Casillas

Equipa do F.C.Porto é pouco mutável em termos de onze. Saída de Casillas pode ter causa indirecta

Não diria que foi por questões disciplinares, não diria que foi por razões desportivas. Também não diria que foi para Sérgio Conceição mostrar liderança. Não. A substituição de Casillas por José Sá, na minha opinião, deveu-se à pouca mutabilidade da equipa do F.C.Porto e à possibilidade de desleixo por parte de alguns jogadores. Vendo o onze base dos dragões neste momento e imaginando-o daqui por meia dúzia de meses, eu diria que há seis ou sete peças que são incontestáveis. Que vão lá estar. Mas as coisas, numa equipa de top, não são bem assim. Tem de haver competitividade. E eu até sou menino para tirar o Casillas para mostrar que não há lugares cativos. Há sempre competição interna mesmo que esse competição seja artificial.

Não obstante essa possibilidade, a escolha de José Sá é perfeitamente segura. Trata-se do melhor guarda-redes do europeu de sub-21 de 2015. Para mim, a questão até é inversa: é muito estranho o melhor guarda-redes dessa competição, hoje em dia, ser suplente. É claro que há um contexto que valida essa mesma condição de suplente, mas mesmo esse contexto é quase uma excepção àquilo que deveria ser o natural. Seja como for, há um aspecto no qual José Sá é superior a Casillas: a resposta aos cruzamentos longos. E repare-se que, mesmo após a falha no primeiro golo do Leipzig, José Sá saiu com muita autoridade dos postes para colocar fim a dois cruzamentos do género. Ordens específicas. Algo que com Casillas teria de ser pensado de forma diferente.

Agora, não foi pelo guarda-redes que o F.C.Porto perdeu. Surpreendente Leipzig, tendo em conta a sua classificação neste grupo da Liga dos Campeões. Os alemães foram a equipa mais forte que os dragões enfrentaram nesta temporada. E a estratégia saiu furada não por ser uma má estratégia mas antes pela qualidade de um adversário que causou problemas inéditos aos dragões. Desde logo, a capacidade de circulação rápida da bola e de saída de zonas de pressão, levando inclusivamente ao destapamento da zona central dos dragões. O sueco Forsberg é um grande craque e fez a diferença, com muitas diagonais que confundiram Danilo e Sérgio Oliveira, que acabaram por criar uma espécie de cratera na zona central. Aliás, previa-se, no início da temporada, que o sistema de jogo do F.C.Porto tivesse o antídoto da rápida circulação de bola. Os dragões foram vítimas da própria identidade que construíram, uma identidade correcta que não é perfeita mas que é implacável na maior parte das equipas da liga portuguesa.

Quem está a fazer uma boa liga portuguesa é o Sporting. E também uma boa Liga dos Campeões. O Sporting apresentou-se em Turim com muita personalidade, bloqueando os principais pontos de criatividade dos vice-campeões da Europa. Na frente, Bas Dost mostra evolução na forma como consegue recuar e auxiliar o processo de circulação, se bem que nesta partida se tivesse notado mais a transição ofensiva com critério. Não violenta, mas com critério. Ou seja, muita circulação de bola enquanto a Juventus se reagrupava, causando pequenos desequilíbrios que se viriam a revelar perigosos nas contas do ataque leonino. De facto, depois de no ano passado ter calhado no mesmo grupo de Real Madrid e Borussia de Dortmund, é preciso ter azar para este ano aparecerem mais dois tubarões. Seja como for, mesmo enfrentando tubarões, o Sporting cometeu a proeza de, este ano, equilibrar ambos os jogos. No caso, foi mesmo só traído por uma má abordagem de Jonathan Silva na marcação a Mandzukic, o que levanta novamente a dúvida se o defesa argentino tem mesmo nível para jogar no Sporting. Aí o problema é de gestão de plantel, à semelhança do que acontece com o Benfica que vai cometendo o erro de não contratar um substituto à altura de Fejsa. Porque o banco também é preciso.

Um Benfica que está numa fase de reconstrução. E comecemos pela baliza. José Mourinho foi muito claro ao afirmar a grande qualidade de Mile Svilar. Sem dúvida nenhuma. Sempre a jogar em linhas muito avançadas, foi ele o responsável pela resolução do problema do controlo da profundidade. A tal questão da profundidade que praticamente deu cinco golos ao Basileia. Feitas as contas, até que vale bem o erro, se bem que tapar o sol com a peneira é a pior coisa que se pode fazer. Mas o valor de Svilar não está em causa. Encabeça uma mudança que Rui Vitória está a definir no jogo do Benfica, começando na retaguarda, onde não há talento, onde não há segurança com a bola nos pés (com excepção de Grimaldo) mas há espaços mais reduzidos para o adversário. Há interpretação eficaz do fora-de-jogo. Há uma equipa mais compacta, mais precisa, com um futebol mais focalizado nos alas. O que não deixa de ser acertado, tendo em conta que o Benfica tem os melhores extremos da liga portuguesa. Mas não deixou de haver um desvirtuamento, tendo em linha de conta que uma coisa é atacar com Jonas e outro parceiro, e outra atacar só com uma referência fixa na frente. Mas neste momento é um problema menor. Na frente, o que o Benfica não tiver em colectivo, em imaginativo, pode resolver através do individual. Não falta por ali boa abundância. Importa é estancar a hemorragia. Nova defesa. O problema está aí. E o Benfica melhora.

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