2017-10-25 10:24:42

Se não tens cão caças com os miúdos

Se não tens cão caças com os miúdos

Benfica potencia valores da sua formação com método e êxito

Portugal tem o melhor jogador do mundo mas, na área do futebol, também tem muitas outras virtudes. Desde logo um leque de treinadores altamente competentes, que se destacam não só a nível sénior como também na formação. Por essa lógica, a aposta nos jogadores jovens é cada vez menos um risco e mais uma certeza. Porque o trabalho que se realiza com os “miúdos” é muito amplo, muito rigoroso, que faz com que tal se traduza em desempenho anos depois.

Serve esta pequena introdução para se falar do Benfica. A cumprir a sua terceira época como treinador, há um mérito a Rui Vitória que ninguém lhe pode tirar: o Benfica é uma equipa mais valiosa. Mais rentável. Apostar na formação é mais barato e, à posteriori, é também mais rentável tendo em linha de conta que se compra a baixo preço e se vende por milhões. Mas uma equipa de futebol não tem apenas uma componente económica.

Com Rui Vitória como técnico surgiu também uma nova maneira de se gerir o plantel e o onze em que há sempre lugares destinados aos mais jovens. Mas sempre. A meu ver, esta forma de pensar traz dois benefícios e um malefício, sendo que dois é maior que um. O malefício é o risco; o benefício directo é o rendimento imediato do jovem na equipa principal; e o outro benefício, o indirecto, é o facto de que se mantivermos sempre a porta aberta para dois ou três jovens também se gera um “efeito bola de neve” que motiva de sobremaneira uma vintena ou trintena de jovens dos escalões de formação na calha para entrarem na equipa profissional. Vão estar mais atentos, vão ser mais rigorosos, vão ser mais profissionais. Vão ser melhores desde jovens, e fazer um trabalho que muitas vezes tem de ser feito como seniores. E é por isso, na minha opinião, que regra geral os jogadores da formação do Benfica dão melhores respostas que os dos rivais.

Hoje em dia, o Benfica sabe que não tem o melhor plantel do campeonato português. Há uma grande diferença de qualidade entre a defesa (sobretudo) e a linha média, em relação aos alas e avançados. É certo que há situações que já podiam ter sido evitadas (já falei vezes sem conta da necessidade de se salvaguardar devidamente a ausência de Fejsa) mas há outras que podem ser resolvidas através do próprio recurso aos jogadores da formação. Nos últimos tempos, três jogadores têm sido destaque: Svilar (este não vem da formação, é certo), Rúben Dias e Diogo Gonçalves. E começo pela baliza.

No rescaldo do jogo de Basileia chegou-se a uma conclusão que, no meio da desgraça, não deixou de ser positiva: mais vale sofrer cinco golos da mesma forma do que sofrer dois ou três de formas diferentes. O Basileia explorou a falta de controlo de profundidade da equipa encarnada, com sérias responsabilidades para o guarda-redes Júlio César. Porém, tal problema não podia ser resolvido no jogo seguinte, frente ao Marítimo. Aí havia um objectivo maior: segurar o grupo, demonstrar confiança. Podem perder por cinco, por dez, que eu continuo a confiar em vocês.

Após a pausa das selecções, vieram também as correcções. Svilar joga bem mais adiantado, tem uma leitura de jogo significativa para a sua idade e, acima de tudo, resolveu o problema principal. Nos últimos dois jogos o Benfica não sofreu golos por causa da exploração da profundidade por parte do adversário. Pode argumentar-se que Svilar pode trazer outros pontos fracos mas, nesta altura, importa se calhar é combater-se a principal patologia.

É lógico que o controlo da profundidade não é apenas da responsabilidade do guarda-redes. A defesa também assina o documento. Mas, na linha defensiva, há um problema maior: refiro-me à falta de capacidade de se sair a jogar com critério. Com excepção de Grimaldo, os jogadores do Benfica tremem com a bola nos pés, fazendo com que toda a dinâmica da equipa fique perra. Nestes últimos jogos, porém, começou a salientar-se a influência de Rúben Dias no centro da defesa. É o central mais jovem mas aquele que tem melhor capacidade técnica. Aquele que tem bom posicionamento, que controla bem o espaço. Frente ao Aves, assumiu-se mais como alimentador do miolo, como definidor do primeiro passe. Como a melhor solução para o problema.

Nas alas, o Benfica tem muito talento e muitas soluções, se bem que as mesmas nem sempre se traduzam em rendimento. Ou em versatilidade. Com Diogo Gonçalves, o Benfica ganhou um jogador com capacidade para actuar na zona central e explorar zonas de tiro, um atributo que os restantes alas não exploram tão bem. Recorde-se que um dos trunfos do Benfica na passada temporada foi a presença de Gonçalo Guedes na primeira fase, que era um jogador que conseguia unir toda a linha avançada através das suas movimentações. A presença de Diogo Gonçalves, e a exploração da zona central, permitem uma maior ligação com Jonas, alimentando-se uma dupla que, quanto a mim, continua a ser a melhor do campeonato português: Jonas e Seferovic.

Se não tens cão caças com os miúdos. Por uma questão de contexto e por uma questão de realismo. O Benfica não tem o melhor plantel do campeonato português mas tal não pode servir de desculpa. Se não há soluções toca a inventá-las. 

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

Últimos Vistos

O que se passa hoje?