2017-11-15 11:42:01

Falar da Itália sem memória curta

Falar da Itália sem memória curta

Cenário da Itália é mais contextual e menos catastrófico

Chegou o dia! Chegou o dia em que a Itália não se qualificou para o mundial. Não há impérios que durem para sempre. Também virá o dia em que Brasil, Argentina ou Alemanha vão ficar de fora. É cíclico. É contextual. Porque as selecções são mesmo assim: contextuais.

Porque se Portugal tivesse ficado no grupo de qualificação da Espanha até podia estar na mesma situação. Não seria catastrófico ser eliminado pela Suécia. E agora alegar-se-ia que não se conseguiu lidar com o clima de euforia pós-conquista do europeu. E que se impunha uma renovação urgente. Eu não vou por aí. Aliás, há dois anos, no europeu de 2016, quando a Itália venceu a Bélgica, eliminou a Espanha e foi eliminada “in-extremis” pela Alemanha nos quartos-de-final, falava-se “à boca cheia” no ressurgimento e na readaptação do futebol italiano.

É certo que as selecções jovens da Itália já foram mais competitivas ( o 3º lugar no último mundial de sub-20 disfarça alguma carência de resultados nos últimos anos) e é também certo que a eliminação da Itália foi injusta. Não é bom mas também não é nenhum cataclismo ficar-se no 2º lugar do grupo de qualificação da Espanha e, se olharmos friamente, só mesmo o empate caseiro frente à Macedónia pode ser considerado um resultado anormal. Não alinho pelo diapasão de que a selecção italiana está numa crise tremenda e de que tudo tem de ser mudado. Não. Até porque a Itália, sem ter sido brilhante, foi superior à Suécia no play-off.

A Suécia, que defendeu com as linhas recuadíssimas no jogo da segunda mão, obteve uma vantagem algo fortuita no jogo de Estocolmo. Partida em que a Suécia foi dominada, muito embora o futebol italiano careça de ideias e de uma maior criatividade. Nesse ponto estou completamente de acordo com a maior parte da opinião pública. Há, quanto a mim, uma lacuna ao nível de um jogador que apareça entrelinhas e que provoque desequilíbrios dentro do bloco do adversário. Também entendo que, sobretudo no jogo da segunda mão, os médios estiveram muito distantes da linha avançada, fazendo com que o recurso à profundidade ou à exploração dos corredores fosse uma constante, e uma constante repetida é facilmente anulável. Também é certo que os laterais italianos atacam pouco e são algo previsíveis. Mas, mesmo assim, a Suécia não é melhor que a Itália. Nada disso. Eu preferiria, sem hesitação, todos os problemas da Itália a uma Suécia que baseia o seu jogo ofensivo num médio muito acima da média – Forsberg – e num avançado perspicaz, Berg. A Suécia baseou o seu apuramento  numa segunda mão tremendamente defensiva e no bom controlo da ansiedade a seu favor. Mas foi um apuramento injusto.

Agora, convém não esquecer que a Suécia ganhou o europeu de sub-21 de 2015. E que está a tirar alguns benefícios disso. E também convém não esquecer que a globalização afectou o futebol italiano. A liga italiana é cosmopolita, os jogadores italianos jogam em qualquer campeonato europeu, e tal retirou o carácter distintivo àquilo que era o jogo italiano. Retirou alguma identidade. Enfrentar a Juventus ou o Inter agora não é tão temível como há cinco ou dez anos. Porque, apesar das rivalidades, havia um padrão. Jogar frente a equipas italianas era uma espécie de “salto no desconhecido”, ou seja, era ver um filme completamente diferente e tal obrigava a uma grande adaptação. A uma grande mudança.

Aliás, e voltando ao contexto, bem pior está a Holanda que vai falhar a segunda competição de forma consecutiva. E sem sequer ir ao play-off. No caso holandês, a raiz do problema esteve, a meu ver, na mudança táctica demasiado brusca pós-mundial 2014, quando se passou de um 5x3x2 caso quase único entre selecções para um mais convencional 4x3x3. Bem mais inteligente foi Portugal. Num país onde todos gostam de se criticar, louve-se o discernimento de se perceber que a aposta em alas extremamente dotados tecnicamente era uma opção mais estética do que eficaz. Mais bonita do que prática. E de que a ausência nas grandes competições jovens entre 2003 e 2011 era o caminho para o suicídio. Tudo percebemos e, graças à qualidade excepcional dos nossos técnicos, tudo mudamos a nosso favor. Tal como a Itália. Que também vai mudar tudo a seu favor, porque será esse o caminho da normalidade.

Uma Itália que já não vai ter Buffon mas vai ter Donnarumma. O seu sucessor. Na senda de Zenga, Pagliuca, Peruzzi. A Itália produziu grandes guarda-redes e vê agora partir um elemento marcante. Forte em todos os capítulos do jogo, com grande capacidade emocional. Determinante dentro e fora de campo. E esse parece-me o caminho apropriado: capitalizar a influência de Buffon para fora do relvado. Outro caminho, outro paradigma. E a Itália vai voltar a ganhar.

 

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