2017-11-30 15:21:31

Este país não é para medíocres

Este país não é para medíocres

Será que os comentadores têm assim tanta influência no jogo?

Esta semana vou abrir uma excepção e vou falar menos de futebol em si e mais do contexto do futebol. Como diz Rui Vitória, e com razão, “o futebol é a paixão do povo”, e é a partir daí que tudo se constrói. Não há paixões sem apaixonados. E as paixões provocam levitações, desprendimento da terra, alguma loucura mais ou menos sadia. A partir daí entra em cena o contexto, ou seja, o que faz a emoção estar certa ou errada mediante a circunstância.

O que tem acontecido em Portugal é que se mantém a paixão acesa e muda-se o contexto. A bel-prazer. Abundam as críticas aos árbitros, ao videoárbitro, ao fiscal de linha, aos dirigentes que ao "fim ao cabo" manipulam a verdade desportiva. Cria-se o contexto. E depois uns vão para um lado, outros vão para o outro. Dispara-se. Fere-se. Atinge-se. Porquê? Porque o futebol é a paixão do povo mas é também um grande negócio. Rui Vitória tem razão novamente.

Na minha opinião, a resposta a este problema é mais matemática. Mais ligada ao real. Ao facto. Em primeiro lugar a questão das arbitragens. Mas para se falar das arbitragens é preciso falar do todo e não das partes. Qual das situações é preferível: termos arbitragens equilibradas nos três jogos dos “grandes” e duvidosas nos restantes seis jogos? Ou termos o contrário: arbitragens limpinhas em seis jogos e deturpadas nos três restantes jogos? Qual destes cenários prejudica mais ou menos a arbitragem? Eu penso que para se falar do tema é necessário ver jogos do Tondela. Do Desportivo de Chaves, do Feirense e do Portimonense. Fazer uma análise global e englobar no mesmo lote Porto, Benfica e Sporting. Depois reflectir. E para mim seis é maior que três. Louvar-se aquilo que é bom. Nalguns casos extraordinário.

Não vejo nenhum outro país que apresente treinadores tão qualificados. Os treinadores portugueses dão cartas em todo o lado, estando regularmente a ser ligados aos gigantes do futebol. Temos o melhor jogador do mundo, e temos também um lote de jogadores que estarão, com toda a certeza, nos melhores vinte ou trinta do mundo. Somos os campeões da Europa. Temos árbitros reconhecidos internacionalmente, que são com frequência chamados para as grandes competições. Temos um Braga que elimina um Hoffenheim dotado de um orçamento muito superior, um Sporting que se bate de igual para igual com Juventus e Barcelona e um Porto que faz frente à segunda melhor equipa alemã da actualidade, o Leipzig. Sem desprimor para o Benfica que noutras épocas também teve grandes desempenhos europeus. Temos tudo isto. E temos também medíocres. É preciso dar mais voz aos intérpretes do jogo. Aos jogadores, aos treinadores. Sérgio Conceição tem razão. E deixar de lado os supérfluos.

Será que aqueles que vão para as televisões falar disto ou daquilo têm noção dos pontos mais fortes e mais fracos da equipa que defendem? Sabem o que é uma transição defensiva? Uma basculação? Uma fase de construção? Conseguem perceber minimamente aquilo que Carlos Daniel ou Rui Malheiro – também temos dos melhores analistas do mundo – dizem ou explicam? Eu tenho sérias dúvidas. E tenho quase a certeza que muitos desses comentadores que enchem páginas de jornais e encharcam as televisões não teriam a capacidade de analisar um jogo ao vivo. De o explicar. De perceber como está a jogar “x” e “y”. Mas sem quaisquer pré-conceitos. Coloquem-nos a analisar o Tondela-Feirense, o Portimonense-Desportivo das Aves. Ou o Toulouse frente ao Nice. Aí se faria a prova dos nove. Porque este país não é para medíocres. E não o é.

Porque, ao fim ao cabo, assiste-se até a uma situação de invulgar e grande convergência entre os clubes de maior dimensão. Os técnicos dos três grandes estão mais preocupados em falar do jogo. Apelam a um maior holofote nos jogadores e na análise do jogo em si. Acham que tudo está envolto num negócio, na manipulação da paixão do povo. E o resultado em termos de terreno de jogo é zero. Porque o treinador do Porto conhece o Benfica de trás para a frente e vice-versa; tal como o técnico do Tondela conhece a equipa do Moreirense e vice-versa. Porque há um grande profissionalismo na análise, na observação, no estudo do adversário.

As modalidades evoluíram, o futebol evoluiu. Evoluiu com a capacitação dos técnicos, com a introdução de ferramentas tecnológicas. Com os seminários, com as conferências. Com a partilha de ideias, como a troca de informação. Assim tudo faz sentido. Tal como faz sentido algo que Virgílio Ferreira um dia escreveu: “como é que um tipo que é medíocre há-de saber que é medíocre se ele próprio é medíocre?”

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

Últimos Vistos

O que se passa hoje?