2017-12-07 10:01:40

A sofreguidão é inimiga da vitória

A sofreguidão é inimiga da vitória

Melhor circulação de bola e maior ponderação colocam dragões nos oitavos da Liga dos Campeões

Entre Mónaco e Lisboa vai uma grande distância. Em quilómetros e em tempo. Geografias e seus derivados à parte, certo é que o F.C. Porto soube ser melhor na Liga dos Campeões. Porque controlou melhor a temporização. Foi menos sôfrego. Menos exposto ao carácter emocional do jogo. E daí ter conseguido vencer facilmente o Mónaco. Porque a sofreguidão é inimiga da perfeição.

Sempre que os dragões tinham a bola, o pensamento era único: acelerar. Jogar directo, com poucas variações de flanco, puxando a componente física do jogo para si. É lógico que o F.C.Porto é uma equipa robusta, pelo que esse factor é sempre benéfico. O Benfica percebeu isso e tentou condicionar a primeira fase de construção dos portistas, jogando também com o tempo a seu favor. Os encarnados tiveram a noção de que o F.C.Porto é uma equipa exponenciada em termos de valor, com pouca criatividade a decidir e muito dependente das bolas paradas e da agressividade na reacção à perda, sobretudo quando a mesma acontece em zonas altas do terreno. Era importante bloquear Brahimi, impedindo-lhe situações de duelo individual ou de posse de bola em terreno entrelinhas. Fejsa foi fundamental e o sérvio, mais uma vez, realizou uma excelente exibição, bem como toda uma linha defensiva que se portou à altura, guarda-redes incluído.

Não quero com isto dizer que o F.C.Porto não fosse o vencedor mais natural. Seria o vencedor mais natural. Até porque arriscou mais no segundo tempo, com Otávio sobre a direita e Aboubakar e Marega a formarem dupla de avançados. E porque o Benfica, retido no seu 4x5x1 a defender , pouco criou e pouco surpreendeu no capítulo ofensivo. E aqui a grande crítica, a grande questão que tem de ser colocada a Rui Vitória: por que razão Krovinovic não foi inscrito na Liga dos Campeões? Porquê? Não dá para compreender, até porque ainda nem chegamos à primeira metade do campeonato e Krovinovic já é um dos jogadores mais decisivos dos encarnados: uma recepção orientada fantástica, excelente visão de jogo, boa compensação aos alas e uma vontade de acrescentar um toque de magia que os seus colegas do meio-campo não têm. Porquê Rui Vitória? Porque a partir daí todo o contexto europeu se teria tornado mais fácil de entender, sobretudo nestes dois últimos jogos em que o Benfica foi sofrível e completamente alheado caindo, sobretudo neste jogo frente ao Basileia, até no ridículo em diversas situações. Mas o Benfica do Dragão foi bem diferente. Mais competente. Não deslumbrou mas foi suficientemente lúcido para reter um jogo envolto em ansiedade e em polémica.

Num contexto particularmente difícil, o árbitro Jorge Sousa procurou apitar pela certa. Pela evidência. Em caso de dúvida não apitar. Tudo que não foi flagrante não apitou, não arriscou nos cartões. Tudo pelo certinho. O videoárbitro afinou pelo mesmo diapasão. Daí não ter intervindo no lance de Luisão. Não era flagrante. Discutível sim mas coerente. No lance do golo de Aboubakar o árbitro esteve bem. Cumpriu os regulamentos, seguindo uma errada recomendação do fiscal de linha e apitando apenas depois da defesa de Bruno Varela. Como tinha de fazer. Ou seja, se Aboubakar tivesse marcado, o videoárbitro teria a obrigação de validar o golo à posteriori. Mas não foi por aí. Talvez o mais correcto seja deixar-se o contexto de lado, deixar-se a arbitragem de lado, e perceber-se que ambas as equipas padecem de alguma falta de qualidade individual para conseguirem fazer a diferença em jogos de maior exigência.

Quem teve uma grande exigência na Liga dos Campeões foi o Sporting. Em Barcelona, a receita passou por se bloquear o corredor central e fazer com que o Barcelona puxasse o jogo obrigatoriamente para as alas. O Sporting, que não tem as mesmas armas, jogou com o tempo. Jogou muito com o tempo. À moda antiga. Segurar o jogo na primeira parte e arriscar as suas munições na segunda metade, fazendo entrar os seus principais dinamizadores de jogo ofensivo: Gelson e Bas Dost. Ou seja, se por hipótese os leões precisassem do empate, estou certo que a estratégia da primeira parte se manteria inalterável. Nesta lógica de risco, o Sporting concedeu espaços e, para além de um golo evitável de bola parada, os leões perderam completamente o jogo com a entrada de Messi. O astro argentino beneficiou do risco leonino e passou a fazer algo em que é extraordinário: a decidir. Sobretudo pelo meio. A decidir sempre bem. O Barcelona cresceu e multiplicou-se. O Sporting foi presa fácil mas apenas nos últimos minutos. Um Sporting que se mostra compacto, sólido, e com capacidade para se afirmar no campeonato português. Restam duas dúvidas: conseguirão os leões abstrair-se dos factores externos do jogo? E não há sempre a sensação de que o Sporting, de tão laboratorial que é, pode ceder pontos de forma infantil a qualquer jogo? Talvez seja este desafio, de ser menos “caixinha de surpresas”, que pode definir o Sporting ao longo da época. A ver vamos.

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