2018-02-01 13:13:26

Porto, Sporting e saltos em frente

Porto, Sporting e saltos em frente

Tudo está em aberto na luta pelo título

Diz-se na gíria que, para se dar um passo em frente, às vezes é necessário dar-se um passo atrás. Bem, o ideal é dar-se mesmo o passo em frente sem passos atrás. De forma simples, como numa caminhada. O problema é que as vitórias não são caminhadas. Para mim, as vitórias são avanços e recuos até ao ponto em que os avanços valem mais que os recuos. Nem que seja um centímetro. Um milímetro.

Ou um ponto. No caso, o campeonato português até pode ser discutido ao ponto. Também no caso, dragões e leões lutam por esse factor diferencial de forma táctica. Porque ambas as equipas têm problemas. É lógico que o Benfica entra totalmente nestas contas, se bem que a análise seja, quanto a mim, mais global e menos localizada. Na final da Taça da Liga, evidenciou-se um problema leonino: a transição defensiva.

Se Adrien Silva era muito agressivo na reacção à perda, fazendo com que a bola fosse recuperada em zonas muito adiantadas, Battaglia tem outras características: é muito forte em termos de transição defensiva. Perde para Adrien em capacidade técnica, é certo, mas a sua grande utilização na primeira fase da época fez com que os leões adquirissem um certo tipo de rotinas. Houve, em vários jogos, a necessidade de se puxar William para zonas adiantadas para tornar o jogo leonino mais criterioso. E a questão do critério é essencial quando não há Gelson.

Gelson Martins é o ponto de desequilíbrio do Sporting mas, sobretudo, o ponto de desequilíbrio no espaço certo. É o copo de cerveja na espuma dos dias. É o elemento que torna a equipa dos leões menos laboratorial, menos previsível. Menos presa ao “tu fazes isto” e “tu fazes aquilo”. Sem Gelson, a equipa tem de ser puxada para a frente, e não se pode falhar quando a construção tem de ser feitas desde trás. Na Taça da Liga, o Vitória de Setúbal causou problemas porque, sem Battaglia, houve espaço para se explorar a transição ofensiva, aspecto esse que só foi estancado aquando da entrada do argentino na equipa. É certo que é um problema localizado, solucionável, mas não deixa de ser uma pedra no sapato numa altura da época em que os pretendentes a campeão têm de abrir a caça ao ponto.

Como também está a fazer o F.C.Porto. Sem Danilo no onze, elemento-chave na transição defensiva, encontra-se um paralelismo com o que está a acontecer ao Sporting. Mas as equipas são diferentes e, sobretudo, os contextos são diferentes. Aos dragões falta futebol de posse. De posse, de jogo interior, de desequilíbrio em espaço curto. Aquele futebol de posse que consegue desmantelar, através do chão, equipas muito fechadas na sua área, como foi o caso do Moreirense. Se Herrera está habituado a jogar na posição de médio-defensivo na selecção do México (com muito êxito até), importa agora estabilizar um duo de médios mais criativos. Que ofereçam mais. É verdade que, em Moreira de Cónegos, a circulação de bola apareceu em zonas mais adiantadas mas, ainda assim, só através da exploração da profundidade é que os dragões criaram verdadeiro perigo, por obra de Marega. E com Waris em evidência na segunda metade. O ganês dá apoio a Brahimi, dá vivacidade à zona interior e, mais uma vez, demonstrou a pertinência da sua contratação.

Depois, há também a questão lateral. Com Brahimi a ligar os sectores e Marega ligeiramente mais atrás a explorar a profundidade, pede-se mais a Alex Telles. Pela linha é imbatível, rápido e agressivo. Mas os laterais querem-se a causar desequilíbrio pelo meio. Que sejam, em pequenas diagonais, autênticos médios. Que não tendam a bater em profundidade quando estão sob pressão. Pede-se mais sobretudo numa equipa que tem escassez de soluções, escassez de rotatividade e, sobretudo, que vive naquele limbo de quem pretende sair do futebol vertiginoso para entrar na posse e no domínio.

E o Benfica? Bem, os encarnados não tiveram um contexto fácil esta temporada. Fruto de vendas de jogadores, fruto de aposta em jogadores com margem de risco, fruto de lesões. Um problema global e não tão localizado. Começaram a temporada ligeiramente atrás de leões e dragões. E esse é o maior elogio, e a maior esperança, que se pode fazer ao Benfica. Porque a tendência natural seria para piorar e, afinal, tudo está na mesma. À mesma distância. À mesma distância do objectivo.

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

Últimos Vistos

O que se passa hoje?