2018-03-03 21:25:03

Clássico à parte, o melhor é Jonas

Clássico à parte, o melhor é Jonas

Jonas é o jogador que faz a diferença nos encarnados

Não há no passado recente da liga portuguesa nenhum jogador que, ano após ano, consiga ser tão preponderante como Jonas. E não é pelo que dribla nem pelos golos que marca. Ou pela componente física. É pela inteligência. É pelo que decide. Pela forma como cada pequeno movimento que faz resulta em benefício para a equipa. Faz a diferença. Faz a diferença, sobretudo, na forma como consegue colocar os colegas a jogar melhor. Esse, sim, é um aspecto ao alcance de poucos.

O Benfica desta época não deixa de ser um caso de estudo. Se no início da época os encarnados se ressentiram das opções de gestão – venda de jogadores decisivos – alguns resultados menos positivos causaram mossa à posteriori, bem como as mudanças tácticas operadas e a lesão de Krovinovic – absolutamente determinante na nova construção táctica. É uma equipa irregular e algo excêntrica, é certo, mas não é por aí que digo que o Benfica é um caso de estudo. Digo-o, sim, pelo facto de, no meio de todo este contexto, os encarnados apresentarem jogadores com qualidade individual para fazerem a diferença. Jonas, Grimaldo e até Zivkovic e Rafa.

Em Paços de Ferreira, Zivkovic foi determinante na forma como atacou o espaço, permitindo que os seus colegas pudessem progredir com bola e conquistar lucidez de jogo em zonas mais adiantadas. Já Rafa desequilibrou pela velocidade, sobretudo velocidade com bola. É certo que o Benfica se teve de reajustar e até nem é a equipa tacticamente mais interessante do campeonato. Não é. O plantel é bastante desarmonioso, com uma diferença significativa de qualidade entre a defesa e o ataque. Mas, certo é, que a preocupação constante do treinador em construir uma base que permita o desequilíbrio individual tem sido uma boa receita. E o Benfica assume-se como candidato ao título, e vai naturalmente colher benefícios indirectos do clássico: ganhará pontos a um dos rivais ou até aos dois.

Um clássico que me parece marcado pelo contexto. Um surto gripal assolou o Sporting e, com isso, toda a estratégia da equipa teve de ser remendada. Foi uma espécie de efeito dominó: sem Mathieu, o Sporting constrói de forma mais débil a partir da retaguarda; a qualidade técnica de Petrovic é evidente mas, dada a falta de criação a partir de trás e dada a falta de rotinas na ocupação de espaços, o Sporting ficou mais confuso. Quem diz confuso diz lateralizado. Mas a lateralização impõe, no raciocínio leonino, um jogador suficiente capaz de responder a cruzamentos e, sobretudo, com agressividade de finalização. Que não é Doumbia. Que é muito bom na exploração da profundidade mas que não é Bas Dost. A piorar todo o contexto, o Sporting viu Petrovic ser expulso e, para além disso, o Moreirense não se preocupou em baixar linhas. E o Moreirense tem um jogador que faria imenso jeito ao Benfica, clube que o formou: Alfa Semedo é um trinco de vinte anos que sabe sair a jogar, bom a ocupar espaços, e que mostra engenho para algo mais.

Seja como for, a vitória acabou por surgir com alguma fortuna. Através de Gélson, o principal ponto de desequilíbrio individual dos leões. Que acabou expulso e, com isso, condicionou a estratégia leonina para o Dragão. Concordo que a componente humana e emocional é bem-vinda ao futebol mas, em certos momentos, impõe-se a frieza. A frieza de, por exemplo, expressar a sua opinião de forma tranquila numa flash-interview. Sem colocar em causa, ingenuamente, os interesses do grupo.

E que grupo tem o F.C.Porto. Discordo daqueles que dizem que os dragões atravessam a melhor fase da temporada. Na minha opinião, atravessa sim a fase mais realista. A constatação real de que a dinâmica ofensiva, a presença maciça de muitos jogadores na área, a intensidade, o duelo físico e a eficiência nas bolas são factores preponderantes ao nível da liga portuguesa. A nível europeu pede-se algo mais, e encarar um jogo da Liga dos Campeões da mesma forma com que se encaram partidas da liga é um mau caminho. Mas, lá está, nesta altura se calhar é preferível ser-se mesmo realista. Era altamente previsível os dragões serem eliminados pelo Liverpool, e era praticamente impossível vencer a Liga dos Campeões. O F.C.Porto tentou algo diferente frente ao Moreirense e viu que não era possível. O F.C.Porto tem um dos plantéis mais fracos dos últimos anos mas é o principal favorito à conquista do título. Porque dá-se bem com a escassez, dá-se mal com a abundância. Em face do contexto e das dúvidas leoninas, é favorito no clássico frente a um Sporting que até tem melhor equipa. Agora, a questão mantém-se: o F.C.Porto terá de se reforçar caso, na próxima temporada, pretenda algo mais. A equipa está esticada ao máximo. Treinador do ano: Sérgio Conceição. 

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