Dimensões do campo: Valorizar sem empobrecer

Dimensões do campo: Valorizar sem empobrecer

 

Antes de aprofundarmos o tema, é importante perceber as origens do desporto que nos apaixona todos os dias, mas mais do que isso, perceber a sua criação social enquanto espetáculo ou na evolução do jogo propriamente dita.

Ora, o futebol, embora tenha outras manifestações mais antigas, os primeiros códigos que se aproximam da realidade que conhecemos atualmente aparecem-nos em Inglaterra por meados do séc. XVII. Por essa altura, desenvolvem-se e unificam-se eventos desportivos que mais tarde deram origem ao rugby, ao futebol e ao futebol americano. Podemos então concluir que existiram algumas divergências naquilo que foram as criações das modalidades, as suas regras e limitações, visíveis na sua construção, mas que têm como base os mesmos pressupostos, ou seja, todas as modalidades apresentadas são desportos coletivos, com oposição, onde é permitido o contacto físico, embora com diferenciações e em que todos os jogos se caracterizam por serem direcionados, isto é,  há o propósito de levar a bola até um determinado fim ou objetivo: no caso do futebol, introduzir a bola na baliza do adversário, no caso do rugby ou do futebol americano, colocar a bola na zona de ensaio ou marcar um touchdown, respetivamente.

Posto isto, podemos agora perceber que o futebol se estruturou com base em regras simples, pouco elaboradas e relacionadas com o conceito de violência, levada a cabo por todos os agentes sociais que compõem o jogo.  Sendo assim, é de realçar a predominância do físico (na luta pela bola), e do técnico (uma vez que o jogo se fazia através de progressões constantes, ainda que sem o elemento do passe). Seguidamente, a introdução do passe e a introdução dos defesas proporcionou ao jogo uma expressão de progressão e penetração tática e coletiva. Dado essa evolução, as equipas perceberam a importância de racionalizar o espaço do jogo e a evolução do jogo rege-se à amplitude e profundidade das equipas que estão com a posse da bola, e à concentração das equipas que, por outro lado, não se encontram com a posse da bola. Isto para evidenciar um aumento gradual da componente tática do jogo, que assim caracteriza o futebol moderno, um futebol cuja vertente tática alavancou as outras componentes para uma nova realidade.

Chegámos então a um novo jogo, a um jogo moderno, suportado por novos princípios gerais e específicos, complementado por um aumento de exigência das componentes do treino direcionadas para um objetivo. Um jogo mais pensado, equilibrando o emocional que reinava outrora, em que o jogador tem que estar constantemente a pensar, em que os processos cognitivos e a capacidade de execução têm que estar lado a lado, para que o jogador consiga decidir e executar corretamente no tempo e no espaço.

Bem, deste modo coloco a seguinte questão: Uma vez que os melhores jogadores, os que decidem e executam melhor no tempo e no espaço, precisam de menos tempo para pensarem e executarem as suas ações, faz sentido a maioria dos escalões, principalmente em divisões amadoras, jogarem em campos cujo espaço e tempo não estão adequados às suas competências técnico-táticas? Será que estamos a valorizar esses jogadores?

A meu ver, penso que não. Enquanto jogador e, agora, como treinador de equipas que participam em divisões distritais, a maioria dos jogos rege-se pela falta de espaço para a competência dos jogadores. Com isto não quero dizer que nas ligas amadoras não há qualidade, antes pelo contrário, há vários jogadores que por um motivo ou por outro, numa primeira fase não conseguem chegar ao futebol profissional, e muitos nunca o vão conseguir, neste caso julgo que fruto das estruturas que não ajudam aquilo que é a evolução do jogador no dia a dia. Quem é médio e já jogou nos distritais tem, de certeza, na memória os vários jogos que passou a ver os colegas a jogarem “ping pong” de área a área e, quando recebes a bola, o metro quadrado por jogador aluga-se caro, sendo que a pressão é de tal forma sufocante que é impossível haver um jogo que não aquele.

Isto para dizer que a necessidade das dimensões do campo serem ajustadas às etapas de desenvolvimento dos jogadores bem com às suas competências, é um fator chave para a criação de um “jogo”, e para a valorização dos jogadores que o integram.  Há pouco tempo, li uma entrevista do Xavi Hernandez, onde ele abordava algumas temáticas que o acompanharam ao longo da sua carreira onde ele nos fala da velocidade de pensamento e de execução, da capacidade de racionalizar espaços e de analisar contextos. Bom, se vários estudos já demonstraram que os melhores jogadores se distanciam dos outros por serem mais rápidos a pensar e a executar, mas fazem-no também com mais frequência, como é que os jogadores menos competentes têm oportunidades de pensar e executar se não têm espaço, se jogam todos os fins de semana em “caixas de fósforos”? E os treinadores? Como pensar num modelo que valorize os jogadores a fim de, dentro de alguns anos, olharem para trás e verificarem que houve desenvolvimento pessoal?

Enfim, penso que isto acontece pelo facto de alguns clubes não olharem para aquilo que é um desenvolvimento a longo prazo, assim como pelo facto de não terem determinados planos de desenvolvimento para os seus jogadores.

Por outro lado, obviamente que os campos com dimensões reduzidas “protegem” os menos competentes, os menos dotados tecnicamente, os que não pensam tanto o jogo. As equipas menos organizadas coletivamente iludem-se em erros constantes que o espaço retém, e muitas delas conseguem bons resultados, mas pergunto-me: e o jogador? Onde entra o jogador? Ou então parte desse plano é a evidencia por aquilo que diferenciou o futebol do rugby, o contacto físico. Campos reduzidos pressupõe um maior numero de lances divididos, um maior contacto físico, algo que nos faz estar mais perto de algo que nos afastámos no passado.

Concluindo, deixo mais uma vez no ar uma questão: quando é que vamos deixar os nossos jogadores serem “Xavis” ou “Iniestas” uma vez na vida, pensando neles e dando-lhes aquilo que é o espaço que precisam para que possa haver jogo? Com isto, não penso em facilitismos, penso em dificuldades, em superação, em evolução, mas uma evolução suportada por princípios e conteúdos, adequadas àquilo que o jogador precisa para, mais que jogar, (consiga) fazer evoluir o jogo.

 

Sandro Jesus 28/03/2018

 

 

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