2018-06-27 15:29:54

Peça de Queiróz

Peça de Queiróz

Ter mérito e chamar a atenção para o mérito que se tem. É o principal problema de Carlos Queiróz

Queiróz atira o casaco para o chão quando é assinalada a grande penalidade contra si. E vai embora. Volta. Queiróz sussurra a João Moutinho antes da entrada deste em campo. Gesticula. Pede ao público iraniano para solicitar o vídeo-árbitro. É eliminado. Aponta os jogadores portugueses que o cumprimentam e aqueles que não o fazem. Vai à conferência de imprensa. Pede expulsão de Cristiano Ronaldo, porque cotovelo é cotovelo, e porque não há muita nem pouca gravidez. Fala de África do Sul. E de afins. Mais afins.

Porquê? Na minha opinião simplesmente para chamar a atenção. Porque há muita razão e pouca razão e Queiróz tem pouca razão. Mas tem alguma. O país não lhe deu o devido reconhecimento. E fala do mundial de África do Sul com alguma razão. É preciso não esquecer que foi Queiróz quem sucedeu a Scolari e contribuiu decisivamente para a renovação das camadas jovens da selecção, a tal visão de pirâmide que permite que o êxito venha de baixo para cima. É preciso não esquecer que Portugal foi eliminado em 2010 pela Espanha por um golo em fora-de-jogo e, dias antes, esteve muito perto de vencer o Brasil; Queiróz acabou com o pseudoconceito de família e recuperou o critério (o dele, é certo) nas convocatórias; foi decisivo na formação de treinadores, na análise do jogo, na profissionalização e qualificação dos técnicos; ganhou dois campeonatos do mundo de sub-20; foi um dos maiores responsáveis pela geração de ouro. Isto é o mérito. Agora, o problema é encontrar-se um ponto de equilíbrio entre o mérito e a chamada de atenção para o mérito. Senão cai-se no ridículo. No mesquinho. E a partir daí o outro lado da barricada fica com a maior fatia da razão. Depois é Queiróz contra Portugal e, se Queiróz é grande, Portugal é maior.

Carlos Queiróz moldou, entretanto, uma selecção do Irão que vale o dobro ou o triplo do que deveria valer. Frente a Portugal, a estratégia iraniana passou pela marcação à zona com marcação individual a William Carvalho para impedir ainda mais a primeira fase de construção portuguesa. Estratégia acertada. A seguir a Cristiano Ronaldo, William Carvalho é o jogador mais importante da selecção portuguesa. Na ausência de centrais que consigam construir, William baixa e dá critério ao jogo português. É certo que é lento. Algo inestético a jogar. Mas tem na cabeça sempre três ou quatro soluções de passe e define sempre com critério. Com ambos os pés. É um dos melhores pivots defensivos do mundo e, tal como Carlos Queiróz, alguém a quem não se dá o devido valor em Portugal.

Portugal esteve melhor frente ao Irão às custas de William. E de outros. Tantas vezes critico Ricardo Quaresma pela abundância de desequilíbrios que provoca – positivos e negativos – mas, desta vez, o desiderato foi amplamente favorável. Golo estupendo e boa articulação com os médios, aparecendo muitas vezes em zonas interiores para acrescentar linhas de passe e um maior critério. Também uma boa exibição de André Silva, que colocou Portugal a atacar a toda a largura, deixando pequenas crateras no centro para Cristiano Ronaldo explorar. Agora o Irão também teve as suas armas: os iranianos agarraram-se muito às bolas paradas (tal como o F.C.Porto fez em Portugal) para alcançarem o golo. São bons na transição ofensiva, no factor físico do jogo, e foram ladinos na forma como deixaram os centrais portugueses subirem quase até à área, para provocar a recuperação e o desgaste. Aliás, foi Queiróz quem melhor definiu a estratégia para combater Portugal em toda a fase de grupos.

Mas o Irão já lá vai. Objectivo cumprido. Segue-se o Uruguai, talvez a equipa mais parecida com Portugal de todas as 32 que participam no mundial. Os uruguaios também não gostam muito de ter bola e apostam de sobremaneira na verticalidade e no talento da dianteira. Marcaram cinco golos na prova e, repare-se, todos eles foram de bola parada. Portugal marcou três golos de bola parada e dois de bola corrida. Ambas as equipas têm, também, dos melhores seleccionadores da prova. Ambas usam muito a qualidade da lateral esquerda para atacar e causar desequilíbrio (Laxalt e Guerreiro). Na minha opinião, o factor qualidade individual vai prevalecer em relação a um duelo colectivo que se antevê equilibrado. E nesse aspecto Portugal tem mais argumentos. Tem Quaresma, Bernardo, Ronaldo, André Silva, Bruno Fernandes. Um lote mais alargado.

Depois, há a questão das ramificações. Se Portugal passar defrontará França ou Argentina. Se há quem argumente que Portugal estaria melhor do outro lado da estrutura, eu discordo. Do que tenho visto, França e Argentina estão perfeitamente ao alcance de Portugal (e do Uruguai também). Se é para evitar a Croácia, por exemplo, eu assino já por baixo. Caso não vacilem nos momentos decisivos, croatas mostram argumentos para conquistarem o troféu. Croácia e México. Duas selecções com um padrão perfeitamente definido e muito complicadas de contrariar. E depois há o talento do Brasil e a Espanha, esta última que não me parece tão mal como a pintam. Azar nas ramificações? Não me parece!

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

O que se passa hoje?