2018-07-04 16:14:01

Portugal sofreu golos que já não se usam

Portugal sofreu golos que já não se usam

Portugal eliminado por culpa própria. Erros infantis ditaram desfecho

A táctica pode ser explicada, pode ser escalpelizada, pode ser discutida. De que forma se pretendeu abordar o jogo e o adversário. Se podemos ser ou não vencedores. O problema é que tudo cai por terra a partir do momento em que se cometem erros infantis. E a selecção portuguesa foi vítima disso mesmo: erros infantis.

Uma equipa que está nos oitavos de final de um campeonato do mundo não pode sofrer golos daqueles. O primeiro de tabelinha longa, em que dois jogadores do Uruguai utilizam toda a largura para combinarem entre si, sem que nenhum jogador português toque na bola. Já não se usa. Mas o segundo golo também não. Lançamento longo do guarda-redes, disputa aérea e imediata situação de três contra três. Rui Patrício inexplicavelmente colado ao poste quando a finalização não era assim tão difícil de bloquear. Depois Portugal teve mais bola, conseguiu jogar mais no meio-campo adversário, bloqueou as transições do adversário. Jogou melhor? Eu discordo.

Discordo porque a análise deve ter em linha de conta todos os parâmetros do jogo. Uma espécie de avaliação contínua. Do aluno. Do aluno que teve duas grotescas negativas num cenário global de “bons”. Eu se calhar preferiria um contexto de razoáveis sem negativas. Analogias à parte, a selecção portuguesa teve, de facto, mais bola e controlo do jogo frente ao Uruguai. A selecção sul-americana aposta muito na profundidade e na sua dupla de ataque e, para evitar esse cenário, Portugal apostou num meio-campo mais contido, com aposta num incremento da velocidade pelos corredores: Ricardo é rápido e, para além disso, sabe entrar no espaço entre o lateral e o central. Já o Uruguai não fez nada de muito diferente daquilo que está acostumado a fazer: a tal aposta constante na profundidade. Ataque muito incisivo e com enfoque na mudança brusca de velocidade quando a bola está em Suárez ou em Cavani.

Não estava nos planos portugueses sofrer um golo tão cedo. Aí, penso que Fernando Santos foi algo lento a reagir. Portugal demonstrava uma estranha obsessão pelo jogo a toda a largura. A certa altura da primeira parte, parecia que se jogava uma espécie de partida de andebol em ponto grande. Impunha-se outra forma de pensar. Mais jogo interior, mais circulação em zonas aproximadas da área. Só na segunda parte Fernando Santos fez algo que deveria ter feito após ter sofrido o golo: Bernardo Silva assumidamente pelo meio. Trata-se de um jogador de qualidade técnica assinalável e com especial propensão para jogar em espaço reduzido. Ora, se o campo está largo, precisamos de o estreitar, e não podemos ter o nosso jogador mais habilitado a fazer esse trabalho em diagonal desde a faixa.

É certo que o segundo golo do Uruguai veio na pior altura possível. Aliás, estou convencido que se o mesmo não tivesse surgido, Portugal teria mais hipóteses de vencer a partida. Mas mérito para a defesa uruguaia: perfeitamente concentrada, com noção de espaço e do facto de que Portugal até poderia cruzar a rodos se não tivesse muitos homens na área. Porque Portugal não tem um Harry Kane. Portugal desequilibra se tiver espaço, linha de tiro, mas a história recente até mostra que a equipa portuguesa gosta mais de beneficiar do desequilíbrio do adversário.

Por isso, e feitas as contas, até entendo que a melhor partida portuguesa no mundial foi frente ao Irão. Sem brilhantismo, houve bola e controlo defensivo grande parte do jogo. Uma resposta razoável à brilhante estratégia montada por Carlos Queiróz. E, feitas as contas, o mundial de Portugal não é razoável. É quase razoável.

Foram dois jogos iniciais em que os resultados foram bem melhores que as exibições. Um apuramento injusto da fase de grupos em detrimento de uma das surpresas da prova – Marrocos. Um jogo de oitavos de final pautado por dois erros infantis. São demasiadas pedras no caminho e, desta vez, não dá para se construírem castelos. São pequenos erros a mais. Demasiados.

Um bom exemplo para a equipa portuguesa, e para quem aprecia futebol, é a selecção japonesa. Os nipónicos são provavelmente a equipa deste campeonato do mundo com o melhor colectivo. Uma equipa totalmente equilibrada, que sabe jogar em posse, sabe jogar a toda a largura, reposicionar-se em campo quando perde a bola; desequilibrar através de Kagawa mas sempre com resguardo na retaguarda, caso o “artista” fique sem a bola. De facto, a Bélgica foi “mazinha” e puxou para si o factor físico do jogo. Teve de jogar feio para conseguir recuperar da desvantagem. Porque é muito melhor física e individualmente. É certo que não há prémios de consolação mas fica o reconhecimento em relação a uma equipa japonesa que caiu de cabeça erguida. Eles, sim, caíram porque não tinham mais munições. Sem erros. De cabeça erguida. Parabéns Japão!

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