2018-08-01 16:54:14

Quando os loucos estão certos

Quando os loucos estão certos

Condecoração aos sub-19 é má opção. Desporto deve ser olhado como um todo

Nota introdutória: o Presidente da República vai condecorar os sub-19. Por mim tudo bem. Desde que condecore todos os jovens campeões europeus de todas as modalidades. Desde que condecore todos os jovens que ganham, na Europa e no Mundo, na área da cultura, na área científica. Na área do estudo. Que condecore aqueles que ganham nas olimpíadas internacionais de matemática, de filosofia, etc. Caso contrário está a ser incoerente. No caso do desporto, no caso do futebol, ainda pior. A entrar no caminho errado: um dos principais problemas do desporto português é o excesso de praticantes de futebol e a escassez de praticantes noutras modalidades. É um problema nacional. Porque depois não se podem condecorar campeões olímpicos. Porque não os vai haver. E o Presidente da República, mais do que ninguém, devia perceber todo o contexto. 

E falo de um Presidente da República que, recentemente, conseguiu estragar um raro momento de bom senso do Presidente Donald Trump. Que educadamente o recebeu na Casa Branca e tentou fazer uma conversa simpática. Cordial. Com graça, perguntando se Cristiano Ronaldo podia ser Presidente da República de Portugal. Ora, como ser “anti-Trump” é bem mais proveitoso do que se analisar o contexto, o Presidente da República fez logo bruscamente saber que “Portugal não é como os Estados Unidos”. Sem tirar o pé. E há duas razões para esta nota introdutória: primeiro, porque considero (a menos que o universalize) que Marcelo Rebelo de Sousa deu, com a condecoração aos sub-19, mais um passo para o desequilíbrio do desporto português; depois, porque não posso pactuar com alguém que vive num estado de campanha eleitoral permanente.

Nota introdutória à parte, a selecção nacional de sub-19 foi uma justa vencedora do campeonato da Europa. Pela primeira vez, uma selecção consegue juntar o título europeu de sub-17 ao de sub-19. Mais do que a componente táctica, a razão principal para a vitória portuguesa foi a emocional. Ou o controlo emocional. Nas camadas jovens, a organização tende a perder-se em prol do “ataque/contra-ataque”, uma espécie de anarquia que conduz ao aleatório do jogo. Ou seja, e por muito paradoxal que isto possa parecer, certo é que, muitas vezes, a própria equipa que sofre o golo fica numa posição de vantagem invisível. Ainda mais numa final. Numa final, tal factor é exponenciado. Um pouco o espelho do Portugal-Itália. A euforia portuguesa após a obtenção do golo desaguava em falhas infantis de marcação, de ocupação de espaço. E a Itália galvanizava-se. Com dois golos de vantagem, aquela sensação de que o jogo está ganho sem se ter o discernimento de que estávamos a defrontar uma potência. Aquela sensação, aquela amálgama de sensações. Que maquilhava uma selecção portuguesa com capacidade de construir a partir de trás, com capacidade para explorar o desequilíbrio individual sem perder a noção de equilíbrio global. Uma selecção inteligente na cobertura, no bloqueio dos jogadores mais talentosos. A melhor selecção do torneio. A selecção com o melhor treinador: Hélio Sousa.

Ora, já que tanto se fala em condecorações, convém bater novamente na tecla. Convém relembrar que, de 2003 a 2011, Portugal não esteve presente em fases finais de competições jovens. Convém bater novamente na tecla e lembrar que foi Carlos Queiroz a reverter todo o cenário. A olhar para as selecções como uma pirâmide. A convidar Hélio Sousa para a estrutura da Federação Portuguesa de Futebol. A ele e a muitos outros. E veja-se o que foi Portugal de 2011 até aos dias de hoje. Só de relance: campeão da Europa de sub-17, campeão da Europa de sub-19, vice-campeão do mundo de sub-20, campeão da Europa de futebol no escalão principal

Entretanto, e no Irão, há um senhor que atira o casaco para o chão quando é assinalada grande penalidade contra a equipa que dirige. Que entra em diálogo aceso, e até mesquinho, com vários jogadores portugueses. Que dispara minudências para os jornais. Que tenta chamar a atenção por todo o lado. Como pode. Como um louco. Mas Carlos Queiróz não é nem está louco. Mas que veste a pele de louco, lá isso veste. E o problema é quando os loucos estão certos e os lúcidos errados. Ou pior: se Queiróz foi lúcido e ignorado, talvez agora como louco tenha algum reconhecimento por parte da opinião pública portuguesa.

É mais do que uma questão de esquerda ou de direita. Ou até mais do que uma questão política. Impõe-se uma análise do contexto, uma percepção global dos problemas e uma apresentação de soluções. Não se pode olhar para o futebol de forma desligada das outras modalidades, do olimpismo. Da cultura, da sociedade em si. Só o trabalho em rede pode proporcionar melhores resultados e um desenvolvimento do desporto no seu global. Do desporto de competição, do desporto de lazer. Do individuo que joga futebol no ringue ao sábado de manhã. Dos adeptos, dos “carolas” que abdicam da sua vida pessoal em prol de jovens desportistas. Condecorar, distinguir, é preciso. Mas é preciso olhar para aqueles que não são condecorados. E medir bem. Sem holofotes, sem mediatismos. Apenas analisar o contexto e tomar as decisões certas. É esse o caminho. Porque não há condecorados a sério quando há “descondecorados”. 

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