2018-08-16 11:46:41

Uma aventura turca

Uma aventura turca

Fenerbahce representa "melting pot" de sensações

Assistir a um jogo do Fenerbahçe, na Turquia, é passar para uma outra realidade. Uma realidade em que, por momentos, deixamos de perceber a diferença entre devoção e fanatismo. Ou se a primeira é o apeadeiro da segunda. Foi uma viagem à Turquia. Uma viagem ao estádio Sukru Saragoclu. A casa do Fenerbahçe.

Na passada terça-feira estive em Istanbul a assistir à 2ª mão da 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. O estádio do Fenerbahçe, que fica na parte asiática de Istanbul, fica à face da estrada e não é propriamente sinónimo de imponência. A infra-estrutura não intimida. Não afugenta. Mas os adeptos sim. Mal saímos do autocarro, a escolta policial não impede um ensurdecedor coro de assobios. Que vêm de cima, do topo do estádio, e de baixo, junto do portão. Adeptos agarrados às grades. Que silenciam cada olhar curioso, cada olhar ingénuo, cada olhar atónito. Mas até aqui ainda estamos dentro dos limites da normalidade, ou daquilo que os mais tolerantes chamam de extremamente sadio.

A partir do momento em que entramos no estádio, a barreira da normalidade é transposta. Quando vemos adeptos turcos com cachecóis do F.C.Porto. Que são exibidos com orgulho quando a equipa do Benfica entra para o aquecimento. No nosso cantinho, somos brindados com cânticos e impropérios a toda a hora. Já passamos da normalidade. Nestas altura sabe bem um chocolate. Dirijo-me ao bar para comprar um. Saio da bancada. Sou de repente cercado por dois polícias que me escoltam. De um lado e do outro, um pequeno grupo entoa-me um cântico. Que me acompanha quando faço o pedido, quando peço o troco e quando regresso ao meu lugar. Com a sensação, com a certeza, de que o meu simples gesto foi de uma imprudência total. Tal como imprudente foi um adepto benfiquista que, duas filas à frente, festejou o golo de Gédson e foi logo brincado com uma agressão. Uma agressão incógnita e silenciada. Fanatismo. É o reino do desnorte.

Tal qual o desnorte, tal qual a imprudência táctica da equipa do Fenerbahçe. Uma verdadeira anarquia, onde se tem uma dificuldade imensa em se perceber o que Cocu pretende. As tentativas de se começar o jogo pelo miolo são de tal forma débeis que o Benfica as neutraliza com facilidade. Por exemplo, há uma intenção declarada de se apostar nas incursões rápidas do lateral Isla mas o problema é que as mesmas são declaradas demais: os centrais ficam sem linha de passe no corredor direito. Bola na frente. Bola sem critério. E a equipa do Fenerbahce ganha apenas algum colorido quando a bola chega aos pés de Valbuena que, mesmo sem ter feito um grande jogo, oferece cérebro ao fragmento. Ao conjunto de fragmentos que não tem força suficiente para combater o Benfica.

Um Benfica que passou com naturalidade porque é muito melhor que o Fenerbahce. Que ultrapassou esta 3ª pré-eliminatória não porque foi competente. Ultrapassou-a porque, por muito mal que as coisas possam correr, o Benfica tem uma identidade defensiva. Uma identidade de construção. Sabe o que fazer quando perde a bola. Sabe jogar dentro dos seus pontos, escondendo os fracos e explorando os fortes. Agora, não deixa de ser preocupante as más decisões dos encarnados em transição ofensiva, sobretudo quando se estava em situação de superioridade numérica. Ou seja, sabe-se encontrar o espaço necessário para o desequilíbrio mas o mesmo não surge à posteriori por precipitação ou por falta de qualidade individual dos jogadores que têm a responsabilidade de decidir. Jonas faz mesmo muita falta! No jogo da Turquia, houve dois jogadores que estiveram acima dos restantes: Pizzi, no domínio dos tempos de jogo e critério na saída; e Gédson, na aceleração e criação de desequilíbrio, o tal que, de um momento para o outro, passou de desconhecido a melhor jogador da equipa.

É claro que nenhuma equipa se exponencia sem a presença do guarda-redes. Odisseas tem sido uma boa surpresa: se o seu desempenho dentro dos postes impressiona pela frieza e regularidade, o guarda-redes alemão destaca-se pelo bom jogo de pés. No início do jogo, tal característica foi de extrema importância no descongestionamento da pressão do adversário, muito embora a mesma nunca tenha sido avassaladora. Na segunda parte, aliás, o Fenerbahçe ficou praticamente arrumado após a entrada de Alfa Semedo: com mais um elemento no miolo, os turcos foram obrigados a bater em profundidade e sem grande critério, tornando-se ainda mais inofensivos.

No final do jogo, os adeptos não debandaram. Mantiveram-se os cânticos e os incentivos à equipa. Diz-se que é tradição do Fenerbahce que o incentivo se mantenha até que a equipa suba novamente até ao relvado para, de banho tomado, se despedir dos seus adeptos. Assim aconteceu. Tal como no aquecimento, quando os jogadores têm de se à zona das claques para as saudarem quando os seus nomes são pronunciados. Trata-se de outra realidade. Outro território. Um território de rituais onde a esfera do jogo não se cinge à bola e ao golo. Há muito mais para além disso. Há cultura, há sociedade, Há paixão, há fé. Há problemas, há fanatismo. Tudo isso. Tudo isso é o Fenerbahce!

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