2018-08-23 19:17:07

O fim da classe média do futebol português

O fim da classe média do futebol português

Futebol português só teria a ganhar com maior cooperação entre todos

As coisas estão mal. As coisas estão mal porque ainda estamos em Agosto e só nos restam três equipas nas competições europeias de clubes. Ainda por cima quando Sporting de Braga e Rio Ave foram eliminados, respectivamente, por Zorya (Ucrânia) e Jagiellonia (Polónia), que não são propriamente portentos do futebol europeu. Mas é uma situação que se vem arrastando. Que nos prejudica a todos.

É uma situação que se vem arrastando porque os ditos clubes de média dimensão (Sporting de Braga, Vitória de Guimarães, Boavista, etc) trabalham cada vez mais num mercado global de segunda linha em vez de trabalharem em proximidade com os ditos três grandes. E uma coisa é ser-se nacionalista e outra é não se respeitar a lógica da proximidade geográfica. Num contexto como o português, a fluidez só se garante se os mais poderosos tiverem uma ligação próxima com a “classe média” e daí até ao grosso da coluna, que são os clubes que lutam pela permanência. Ora, se as classes começam a alimentar-se de um mercado global (mais ou menos global) parte-se para a predominância da lei do mais forte, que não é propriamente o contexto ideal num país que não tem o poderio económico de outros parceiros europeus.

Veja-se o que acontecia em 2010/2011 com o Sporting de Braga. O plantel que chegou à final da Liga Europa e que eliminou, entre outros, Liverpool, Benfica e Dínamo de Kiev, tinha nos seus quadros Custódio, Miguel Garcia, Hugo Viana, Paulo César, Lima e Alan. Jogadores de qualidade, a maior parte deles com passado próximo nos três grandes. Não quer dizer que hoje em dia a situação esteja perdida. Não está. Mas certo é que o caminho preferencial já não é este. Deste modo gera-se um hiato. Gera-se um conflito no sistema. Uma perda de fluidez que faz com que sorriam Zorya e Jagiellonia, bem como a Rússia que nos ultrapassa no ranking europeu de clubes.

Na Rússia, o actual campeão é o Lokomotiv de Moscovo, um clube que se intrometeu na habitual dinâmica dos poderosos. Na Grécia, algo de semelhante aconteceu com o AEK de Atenas, que pôs um ponto final em sete campeonatos seguidos do Olympiakos. Em Portugal, o melhor jogador do Campeonato da Europa de sub-19, João Filipe, é um dos destaques do Benfica B. E batemos no cerne da questão: por que razão o melhor jogador sub-19 da Europa não tem lugar em nenhum dos dezoito plantéis da liga principal? E é só um exemplo de relance. Porque o argumento de que as equipas B servem de antecâmara às equipas principais é válido em muitos países do mundo. Agora, é muito pouco válido num país que tem os melhores treinadores e as melhores equipas técnicas do mundo. Que tem Pepa, Luís Castro, Daniel Ramos, Lito Vidigal.

É lógico que o craque Anderson se produziu no F.C.Porto B. Tal como Diogo Dalot. Ou André Silva. Ou Rúben Dias, no Benfica. Matheus Pereira no Sporting B. E tantos outros. Sim, eu posso concordar que um clima caseiro, de proximidade, pode beneficiar o desenvolvimento do atleta em si. Produz-se mais. Produz-se bem. Mas há que perceber o reverso da medalha: a perda de fluidez ao nível das cedências, ao nível da cooperação entre clubes. Da tal corda que liga o poderoso à classe média e por aí sucessivamente. Até se chegar à dimensão do país e se perguntar se há assim tanta necessidade de equipas “B”, “sub-23” e por aí adiante.

 


O caminho actual tem benefícios. Tem vantagens. Mas por ventura não é o mais harmonioso. Ao produzir-se bem e com qualidade sem blindagem à lei do mais forte, acabamos por desempenhar o simples papel de fornecedores. Esse papel convém aos “Wolverhamptons” deste mundo. Aos “Lilles”. Aos “Barcelona B”, e em Espanha sim justifica-se a existência de equipas B. Mas existe um caminho alternativo. Um caminho de cooperação que beneficie tudo e todos. É altamente benéfico ao F.C.Porto que o Benfica chegue à Liga dos Campeões, e que o Sporting tenha uma boa prestação na Liga Europa. E é altamente maléfico para todos que Braga e Rio Ave fiquem já pelo caminho. Porque, ao fim de contas, o país é o mesmo e a estratégia deve ser díspar no interior mas minimamente comum ao nível externo. Para salvaguardar o nosso jogador e apostar no nosso grande trunfo: os treinadores, as equipas técnicas. Seniores, de formação.

Em 2003, o Bayern de Munique emprestou ao quase falido Borussia de Dortmund dois milhões de euros sem garantias de retorno. Ao rival mais próximo. Fê-lo de uma forma não ingénua. Fê-lo porque percebeu que a queda do Borussia significaria um rombo significativo na força do futebol alemão. Para além da rivalidade, há que pensar a longo prazo. Há que pensar a nível de país. Sem nacionalismos, sem fanatismos. Mas com o mínimo sentido de responsabilidade. Para que os “Zoryas” deixem de vencer. 
 

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