2018-08-30 12:22:11

F.C.Porto: não se espreme uma laranja duas vezes

F.C.Porto: não se espreme uma laranja duas vezes

F.C.Porto está a seguir errado caminho que Benfica seguiu na época passada

Mais entrada, menos saída, o que é importante é fazer as contas. É lógico que os jogadores não se medem com tabelas excel mas o valor de uma equipa é relativamente calculável. E o valor do plantel do F.C.Porto deste ano não é muito diferente do plantel do ano passado. Ou seja, os jornais venderam-se, as conferências de imprensa fizeram-se mas o desiderato em si não foi propriamente ao encontro daquilo que se pretendia: o reforço qualitativo do plantel tendo em conta a definição de novos objectivos nacionais e europeus.

Se na defesa Marcano saiu para entrar Mbemba - e Maxi ficou - no miolo não houve nenhum reforço capaz de ombrear com o estatuto da dupla Sérgio Oliveira e Herrera. Ainda não se viu Éder Militão(defesa/médio) e, por isso, não vou tecer opinião. Nas alas, a coisa mantém-se. No ataque, o cenário lá se alterou novamente com o recurso ao regresso de emprestados com qualidade, casos indiscutíveis de André Pereira e Adrián Lopez. Mas indiscutível é também a mensurabilidade de um plantel e do somatório das suas parcelas: não se pode espremer uma laranja duas vezes.

Ora, o F.C.Porto ganhou o campeonato na época passada porque espremeu a sua laranja até ao limite do seu sumo. Uma laranja que se fez de intensidade máxima em jogos de natural supremacia: prevalência da lei do mais forte. Uma laranja que se fez da robustez física: poucas equipas em Portugal tiveram capacidade para neutralizar esse aspecto específico do jogo portista. A laranja também se fez no laboratório, com o aproveitamento maciço de lances de bola parada, estudados e executados ao pormenor. Uma laranja que se fez através da exploração de profundidade por parte de Marega, aspecto válido em Portugal mas contrariável nas competições internacionais (caso da vitória do Liverpool no Dragão). E a estratégia da laranja espremida venceu, também, por culpa da diminuição de qualidade da liga portuguesa. Ponto final.

Mas a laranja não se espreme duas vezes. Porque, feitas as contas, a equipa do F.C.Porto é mais forte que a do Vitória de Guimarães mas não é assim tão mais forte para os dragões se darem ao luxo de diminuir tanto a intensidade do seu jogo. Sem pressão, sem afronta, Tozé, André André e João Carlos Teixeira fizeram valer a sua qualidade individual para, em zonas adiantadas, mostrarem as debilidades dos dragões em termos de transição defensiva e salvaguarda das suas linhas de tiro. Acontece que o resultado é justo e acontece, também, que a vitória em Belém não foi justa. Os dragões precisam de mostrar mais serviço. Precisam de se redimir do facto de terem apostado na contratação de jogadores de valor questionável – Janko e Ewerthon – e agora andarem a correr atrás do prejuízo, como a tentativa de contratação de Ntcham ao Celtic. No fundo, os dragões estão a cometer um erro semelhante ao que o Benfica cometeu na temporada passada. E podem pagar da mesma forma.

Um Benfica que tem dificuldades na sua frente de ataque, sobretudo em termos de desequilíbrio individual. Os encarnados contrataram Ferreyra para, também, substituir Jonas em caso de ausência deste último. E Rui Vitória tem razão: Ferreyra tem uma qualidade imensa em tudo aquilo que apresenta: desmarca-se bem, acrescenta profundidade, sabe encontrar zonas de finalização. O problema é que Jonas é melhor. E o problema maior é que o desenho da equipa do Benfica dos últimos anos tem e teve como âncora um jogador com um rendimento altíssimo e difícil de igualar. É lógico que o vídeo e a observação dão jogadores semelhantes: mas, no caso do Benfica, é difícil substituir-se um original de tanto valor como Jonas.

Se o Benfica ultrapassou o PAOK porque é claramente melhor e a eliminatória teve desfecho natural (os gregos em termos defensivos não são melhores que a maior parte das equipas da liga portuguesa), o Benfica já não conseguiu ultrapassar o Sporting porque, de facto, não é melhor equipa. José Peseiro leu bem algumas dificuldades que o Benfica apresenta em termos de controlo de profundidade a partir das subidas dos seus laterais: os passes de ruptura encontraram Nani e Raphinha em diagonal, com Montero a apoiar no miolo com sobriedade. Os leões tentaram impedir as saídas em transição e obrigaram as águias a apostarem nas alas, dado que o seu jogo interior é bem mais débil. A receita, alicerçada numa dupla Battaglia-Acuña que promete ser das mais interessantes do campeonato e na excelente exibição de Salin, foi traída por um erro individual de Jefferson: como é que é possível o lateral estar tão dentro e dar tanto flanco a Rafa, um dos jogadores mais rápidos do campeonato? É claro que o factor João Félix também pesou: talento, capacidade individual, tomada de risco e desequilíbrio em espaço reduzido são condimentos para um jogador com um alcance muito alto e que se assume como certeza do nosso campeonato e, digo sem risco, da selecção portuguesa.

O Sporting, de facto, tem nos laterais o seu calcanhar de Aquiles. Porque no miolo Gudelj vai acrescentar capacidade física e tenacidade na recuperação defensiva. Trata-se de um jogador que vai acrescentar qualidade a uma equipa que, turbulências à parte, mantém a sua qualidade. De facto, olhar para o Sporting é apelar à sensatez e à estabilidade. Sem guerras, sem quezílias. Apenas estabilidade porque o resto está lá. A matéria-prima está lá. Colocar fora de campo o que deve estar fora de campo. E a partir daí deixar fluir porque, na minha opinião, o futuro está longe de ser negro para os lados de Alvalade!

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

O que se passa hoje?