2018-09-07 17:47:55

Mas Cristiano Ronaldo estava à espera de quê?

Mas Cristiano Ronaldo estava à espera de quê?

A eleição de Modric como melhor jogador da Liga dos Campeões não foi assim tão surpreendente

O prémio de melhor jogador do Mundo significa sempre uma discussão não consensual. Porque se entra no campo emocional. Se uns valorizam determinados parâmetros, outros valorizam parâmetros diferentes. Numa perspectiva racional, e separando toda a corrente, se calhar verifica-se que o melhor do Mundo é apenas uma parte de um conjunto que representa aqueles que são os melhores. É difícil definir-se quem é o rei. Ou se há rei.

De entre os melhores constam Cristiano Ronaldo e Modric. Modric e também Messi. Cristiano Ronaldo viveu, durante muitos anos, numa espécie de subpatamar onde apenas tinha a companhia do argentino. Como se fossem fugitivos de um pelotão de ciclismo. Acontece que, nos últimos tempos, o pelotão foi-se aproximando dos fugitivos e o cenário tornou-se mais complicado. Ou seja, em vez de apenas um rival, Cristiano Ronaldo (e também Messi) passaram a ter vários. E foi esse o erro do português.

Porque Cristiano passou a última temporada a olhar para Messi. A comparar-se com Messi. A tentar ser melhor que Messi. Acontece que, já no Mundial de Clubes, Modric foi eleito o melhor jogador da competição e Cristiano Ronaldo ficou em segundo. Depois é só desenrolar o novelo: Modric e Ronaldo conquistaram a Liga dos Campeões ao serviço do Real Madrid; a Supertaça Europeia. Depois, Modric destacou-se: foi o melhor jogador do Mundial e um dos principais responsáveis pelo facto de a Croácia ter sido Vice-Campeã do Mundo. Desde já a difícil escolha. Entre ambos. Entre ambos e Messi. Entre ambos e Salah. Sobre Cristiano, é lógico que pontapés de bicicleta e quinze golos na Liga dos Campeões à parte, a distinção do melhor do Mundo entra num dilema: individual ou colectivo? E também numa discussão temporal: estamos a distinguir o melhor do Mundo num determinado ano ou estamos a distinguir o melhor do Mundo em si? - neste caso estaríamos a entrar na tal discussão não consensual.

A resposta daqueles que elegem o melhor do Mundo – um processo democrático – tem sido clara: o factor colectivo pesa mais que o individual. O somatório de títulos, o peso que um determinado jogador tem no desempenho da sua equipa. Portanto, e feitas as contas, o favoritismo de Modric era algo de expectável. A acontecer, será o triunfo do trabalho e do futebol colectivo. Será a supremacia de um jogador decisivo na organização ofensiva, na definição, na construção e na percepção inata dos timings do jogo. Será, eventualmente, o triunfo de um jogador que vive na sombra das estrelas e o peso do factor selecção, aquele que também pesou na eleição de Cristiano como melhor do Mundo noutras alturas (2016).

Pegando em Modric, faço um paralelo com aquilo que acontece na selecção do Brasil. A selecção do Brasil vive, quanto a mim, na ilusão de que Neymar é o seu grande craque. E, de facto, Neymar desequilibra muito em termos individuais. O problema é que ninguém pode ser craque quando perde uma trintena de vezes a bola contra a Costa Rica. Que passa tanto tempo no chão. Que não tem o timing de aproximar a equipa do golo, de devidamente a capitalizar como equipa. Neymar ou Modric? Eu prefiro Modric. Mas de longe. Porque prefiro um jogador que faz mais que um passe certo por minuto do que outro que perde a bola de três em três minutos. Porque valorizar a segunda hipótese seria definir-se o futebol como uma espécie de espectáculo de focas do que definir-se o futebol como algo de colectivo. Um jogo colectivo que permite que, por exemplo, um guarda-redes tenha as mesmas hipóteses de ser considerado melhor do Mundo que as de um defesa ou de um avançado. Porque é disso que se trata.

E Cristiano Ronaldo não vai estar presente no jogo de abertura da Liga das Nações. Trata-se da nova competição da UEFA que, quanto a mim, tem um triplo objectivo: reduzir ao mínimo o número de jogos particulares; aumentar o número de jogos oficiais entre selecções; e, acima de tudo, proporcionar às selecções mais fracas uma oportunidade democrática de acesso ao Campeonato da Europa. Nada de mais justo.

É justo porque não o fazer representaria uma espécie de fechamento a países que, malgrado serem dedicados à causa do futebol, dificilmente têm acesso à elite por outros factores extradesportivos. Como o factor económico e financeiro do próprio país em questão. É evidente que, num cenário utópico, a liga alemã, por muito desleixada que seja, terá sempre um impacto maior que a liga montenegrina ou macedónia. Como tal, também as condições são mais débeis e as hipóteses de formação de jogadores reduzem-se. A criação da Liga das Nações não vem resolver nada mas vem atenuar as diferenças. Atenuar as diferenças e permitir que o futebol, a longo-prazo, se faça numa perspectiva mais alargada. Num cenário macro. Que o mercado se alargue mais. É claro que no caso português tem de haver um enquadramento. Porque formamos os melhores técnicos do mundo. Mas, lá está, em Portugal trata-se de uma questão de falta de ligação entre todo o sistema, entre todos os clubes. Do mais forte ao médio, do médio ao mais fraco. Porque o alargamento do futebol ao mundo é óptimo mas temos de estar preparados. As nossas armas estão em campo mas também estão no banco de suplentes. Um filão que tem de ser rentabilizado. A bem de todos. 
 

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