2018-09-20 15:37:47

Alex Telles e a recordação de Ouattara

Alex Telles e a recordação de Ouattara

Jogo frente ao Schalke 04 mostrou que o valor da equipa do F.C.Porto se mantém mais ou menos como o da temporada passada

Decorria o ano de 1995 quando o Sporting contratou o avançado Ahmed Ouattara ao Sion. Avançado rápido, possante, com técnica, impressionava quando tinha espaço à sua frente. Na sua primeira aparição com a camisola leonina, marcou um golo ao F.C.Porto no antigo Estádio das Antas. Ouattara gerou expectativas. Mas tinha um problema: não ganhava uma bola de cabeça. Não ganhava uma! O que num avançado não é admissível. E tal foi-lhe fatal: duvido que poucos sportinguistas digam que o costa-marfinense foi o melhor avançado que já viram de leão ao peito.

Alex Telles tem técnica apurada para lateral. É um jogador rápido, que sabe explorar o corredor e as zonas de cruzamento. Aí mesmo. No cruzamento, sobretudo o largo, é muito preciso e não é, por isso, de estranhar que seja também um bom rematador. Já marcou alguns golos de livre. Faz muitas assistências. Mas tem um problema: não explora zonas interiores. Não sabe criar desequilíbrios pelo meio. E, para um lateral moderno, tal é muito complicado de gerir. E a equipa ressente-se disso mesmo. Também disso mesmo. Ou seja, no rol de problemas que afectam os dragões, está lá um problema lateral.

Faz falta Ricardo. Que falta faz! O português era peça fundamental na manobra ofensiva da equipa, sobretudo pela forma como tudo acrescentava pela exploração de zonas interiores. É certo que Alex Telles tem vários atributos e que Maxi se tornou especialista (muito por mérito de Jorge Jesus) na conquista da grande área. Mas falta mais. Falta atacar-se o meio na primeira fase de construção e, com isso, resolver alguns dos problemas que assolam um Porto que foi insipido neste primeiro jogo de Liga dos Campeões.

O F.C.Porto que jogou na Alemanha foi uma equipa que procurou constantemente não se partir. Tal resultou em indefinição na fase de construção. Foi recorrente: Brahimi baixava para junto de Telles para levar o jogo para zonas mais adiantadas. Na falta de apoio por parte de Aboubakar, o argelino procurava o jogo curto com Otávio ou então a profundidade servindo Marega. Feitas as contas, andava por ali Herrera que, feita a análise, comete a proeza de ser um dos melhores jogadores da equipa e, ao mesmo tempo, um seu corpo estranho. Por isso, era melhor recorrer às bolas paradas. Ao físico. Ao laboratório. Tal como na época passada. A questão é que nesta temporada houve tempo para se planear melhor. Para se pensar em alternativas. É lógico que tudo pode ser contrariável se Bazoer se impuser no meio-campo. Ou Jorge for mais do que uma simples alternativa a Telles. Agora, que já se corre atrás do prejuízo, isso ninguém pode impedir. Ninguém pode parar.

É claro que há aspectos positivos: o regresso de Danilo Pereira, um jogador que não tem a capacidade de construção de William Carvalho mas que é infalível em termos de transição defensiva. E positiva, também, é a contratação de Éder Militão. O brasileiro é rápido e, sobretudo, perspicaz a jogar na antecipação, característica que permite algum conforto ao nível do adiantamento da linha defensiva. Mas é pouco. E é pouco porque se volta ao mesmo: feitas as contas, o valor da equipa do F.C.Porto não é muito diferente do valor da equipa na temporada passada.

Já o Benfica está melhor. O investimento foi feito de forma atempada e, de facto, há um esqueleto montado. Uma identidade ou um princípio de identidade. Agora, toda essa melhoria ainda não é compaginável com a capacidade de enfrentar uma das melhores equipas da Europa, como é o caso do Bayern de Munique. Se em termos de desequilíbrio no único terço as águias apresentam problemas, o mesmo não se pode dizer dos bávaros. A mobilidade ofensiva do campeão alemão é imensa, bem como a influência de Lewandowski na sua eficiência. Incrível como apenas um jogador, atacando o espaço ou recuando e dando em apoio, pode acrescentar tanto a uma equipa que se vai adaptando a Renato Sanches. O português é um jogador muito válido na forma como une sectores à custa da sua velocidade e poder de arranque. Frente a equipas que tenham alguma propensão para se partirem em jogos desta envergadura, Renato Sanches é um jogador essencial. E é um jogador essencial que dá agressividade, cria desequilíbrios, deixa adversários para trás, alimenta o jogo ofensivo. Um jogador de top que foi um dos esteios do campeonato europeu de 2016.

Um bom produto de Rui Vitória assente na sua própria filosofia: referências da equipa, jogadores propensos ao equilíbrio e espaço para os jovens. Tudo pode ser criticável tacticamente. Nesta ou naquela partida. Nesta ou naquela partida. O que é certo é que Rui Vitória tem sido sinónimo de rentabilidade. E uma equipa de topo é pensada em termos de desenvolvimento sustentável: agora e a pensar nas gerações vindouras.

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