2018-11-08 11:52:44

Em caso de dúvida bate-se no Peseiro

Em caso de dúvida bate-se no Peseiro

Ao que tudo indica Sporting tomou decisão errada

Quando se muda, muda-se para melhor. Ou, na incerteza de que se poderá mudar para
melhor, pelo menos muda-se de acordo com um determinado caminho. Ou de acordo
com uma determinada mudança de rumo. Estratégica. Quando se muda sem se saber
para onde se vai, geralmente dá mau resultado. Se isto é confuso, que se faça como o
Sporting: em caso de dúvida bate-se em José Peseiro e o assunto fica resolvido. Está
errado.


Está errado e o errado do princípio não se situa na ineficiência ou na qualidade de José
Peseiro. Não. Situa-se no caminho que foi definido no início da temporada. Porque se
pensou de uma determinada forma, de acordo com a máxima de que não se contrata um
treinador mas sim uma ideia de jogo. Veja-se o que aconteceu há duas temporadas no
Sporting de Braga: Jorge Simão (um bom treinador) substituiu José Peseiro (um bom
treinador) mas, no final, quem saiu ferido foi o próprio Sporting de Braga. Porque
ambos podem estar certos e ver as coisas de forma contrária. E numa equipa de topo,
que é dinâmica mas ao mesmo tempo planeada, uma substituição a meio é sempre um
risco. Sobretudo quando o que vem aí representa um salto no desconhecido para a maior
parte da massa crítica.


Depois, há o próprio contexto que rodeou o despedimento de José Peseiro. O Sporting
protagonizara, uma semana antes, a melhor exibição da temporada frente ao Boavista.
Estava em crescendo. E estava em crescendo, e também em rotação, frente ao Estoril
para a Taça da Liga. O Estoril que tem um plantel e um treinador de liga principal e que,
logicamente, causou problemas a um Sporting sem algumas peças determinantes. Estar
à espera de um pretexto para se despedir, é grave; despedir-se porque o treinador tem
fama de perdedor, também é grave; mas o pior é mesmo despedir-se sem se ter bem a
noção do que vai acontecer a seguir. Isso daí pode ser suicida.
Já o Benfica não está em situação catastrófica. Desequilíbrio emocional é o termo mais
adequado. Porque não é racional que uma equipa encoste o Belenenses às cordas e, uma
semana depois, seja praticamente inofensiva frente ao Moreirense. O problema principal
não é táctico mas que há bruxas para esse lado lá isso há. Falo da organização defensiva
quando a equipa perde a bola; falo da necessidade de melhor resposta por parte do
lateral direito André Almeida e também de um Fejsa em forma deficitária; falo,
também, da precipitação da equipa a atacar, sobretudo quando Jonas não está em
campo. Não me canso de o dizer: o brasileiro é absolutamente decisivo na forma como
produz jogo e faz os companheiros subir de nível. Porque Seferovic, Ferreyra e Castillo
têm qualidades, é certo, mas nenhum deles consegue ter a preponderância colectiva de
Jonas na equipa.


Se Pizzi saiu do onze à custa de erros individuais (ou não só erros individuais mas
sobretudo pela forma como a equipa não consegue camuflar esses erros individuais), há
um jogador no Benfica que me espanta não ser presença mais assídua no onze: Rafa. É
incrível a forma como ganha vinte ou trinta metros ao adversário e é também incrível
que este mesmo processo se faça tão longe da linha ofensiva. É lógico que também não
há um padrão colectivo que permita a Rafa pisar zonas mais adiantadas, como acontece
na selecção. Não há um padrão colectivo que o faça explorar uma profundidade
desimpedida em vez de uma profundidade com trânsito. Agora, fazendo as contas,
percebe-se que o desequilíbrio emocional está a desaguar em problema táctico, emprobleminha atrás de probleminha e daí até uma série de unhas encravadas que
condicionam o próprio corpo da equipa.


O F.C.Porto está mais estável e, sobretudo, com uma maior qualidade ao nível do seu
jogo. Frente ao Lokomotiv, no entanto, diversas perdas de bola no meio-campo ofensivo
originaram preocupação. A equipa esteve menos equilibrada defensivamente. Seja como
for, ofensivamente os dragões vão deixando de parte o futebol físico e colocando em
campo um futebol criterioso. A presença de Óliver faz com que o jogo flua nas alas e no
interior com discernimento considerável. Porque o espanhol é vital na definição da fase
de construção, no acerto ao nível do passe longo, na exponenciação da equipa quer no
espaço quer na profundidade. Será que Óliver trazia assim tantos malefícios à equipa?
Também Otávio vai ganhando importância na equipa. Na forma como agita quando
entra, na forma como vai ganhando duelos individuais em velocidade. Na forma como
foi decisivo na Madeira, desbloqueando da ala para o miolo, algo que não estava a ser
plenamente conseguido. E depois há um furacão chamado Marega. O lance do primeiro
golo dos dragões frente ao Lokomotiv, em que assistiu Herrera, está ao alcance de
poucos jogadores a nível mundial. Não pela componente física mas sobretudo pela
componente da força e do arranque. Vale a pena ver e rever. Em câmara lenta. Aquele
lance representa tudo aquilo que Marega tem de valor acrescentado. E difícil de
encontrar. É um jogador diferente.

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