2018-11-29 11:57:56

Por isso esta noite fiz esta canção para resolver o meu problema de expressão

Por isso esta noite fiz esta canção para resolver o meu problema de expressão

Saída de Rui Vitória é o cenário mais previsível. Mensagem débil é a principal causa

É um problema de expressão. Sobretudo. Rui Vitória está longe de ser incompetente. Até porque ninguém ganha dois campeonatos por acaso por muito incompetente que seja. Agora, verdade seja dita, também ninguém recupera emocionalmente seja quem for a fazer o discurso do “pai honrado” e do “bom chefe de família”.

Rui Vitória fez essa canção para resolver o seu problema de expressão. O Benfica tem capacidade para reagir porque tem uma equipa com valor, e tem inclusivamente jovens devidamente exponenciados pelo treinador do Benfica. O problema é a espiral recessiva. Pior a emenda do que o soneto. Do “pai honrado” ao “é nestes momentos que se vêem os campeões” da mesma forma monocórdica. Como um robot de cozinha. Sensato mas enciclopédico. E assim a permanência do treinador torna-se complicada. É a simples questão dos jogadores do Benfica perceberem que não são assim tão maus mas terem alguém que lhes diga isso através de uma mensagem suficientemente firme para os acordar.

Por isso, na minha opinião, o cenário mais provável é o da saída de Rui Vitória. Que, a acontecer, deixará dois campeonatos ganhos e muitos milhões amealhados para o clube na sequência da potenciação de jogadores como Gonçalo Guedes, Renato Sanches, Lindelof ou Nélson Semedo. Entre outros. Feitas as contas, será sempre lembrado como um treinador vencedor e que deixou o Benfica com muitas coisas positivas. E também com a incapacidade de transformar a espiral recessiva em progressiva. Ao fim ao cabo, qualquer espiral leva energia. Basta é pô-la na direcção correcta.

Agora a questão táctica. Frente ao Bayern, a estratégia até que nem estava mal pensada: agressividade e contenção defensiva e exploração da velocidade na dianteira. Ou seja, a humilde e lógica constatação de que o adversário é superior mas sem subserviência. O problema é que o Benfica está habituado, no campeonato português, a pensar de forma quase contrária. Levar o jogo para zonas adiantadas para originar o erro do adversário e, depois, pressionar até encontrar pontos de fragilidade. É assim na génese, é um facto, se bem que as últimas partidas tenham mostrado um Benfica a recuar e a recuar após fechamento do adversário, sem grandes soluções de penetração na defesa adversária.

Contra os bávaros tudo é naturalmente diferente. Com a equipa do Benfica partida entre o “deve” de fazer o pressing e o “haver” de não se desorganizar defensivamente, gerou-se um hiato definido numa circulação de bola atabalhoada e sem critério. Com isso o Bayern teve espaço, pedras soltas e capacidade para gerir os timings de jogo, sobretudo na dianteira onde os desequilíbrios se multiplicavam minuto após minuto. Vitória fácil e atenuada por um guarda-redes de grande nível – Odysseas – que, numa época difícil, tem sido o principal aspecto positivo da equipa.

Tudo fácil para os alemães. Até nas bolas paradas, onde o Benfica tem estado sofrível quer a defender mas sobretudo a atacar. Refira-se que o Benfica é a única equipa da liga portuguesa que ainda não marcou qualquer golo de bola parada! É lógico que este factor pode ser contra-argumentado através do número de golos de bola corrida. Mas é uma contra-argumentação insuficiente pois um grotesco zero é manifestamente sinónimo de que algo vai mal.

Se Rui Vitória sair, a solução poderá passar por um dos mais notáveis treinadores de formação dos últimos anos: Bruno Lage. Um treinador que potenciou talentos como João Cancelo ou Bernardo Silva e que foi um dos responsáveis pela nova imagem da formação encarnada, com títulos e jogadores na calha ano após ano. Poderá ser uma solução interna com âncora para ser uma solução definitiva. Porque o conhecimento está lá.

E a capacidade do plantel do Benfica também. Falta uma maior capitalização da linha ofensiva, uma maior dinâmica de desequilíbrio assente em jogadores de talento como Jonas (à cabeça de todos), Rafa ou Sálvio. Ou João Félix, um verdadeiro craque que surpreende pela forma anormalmente madura como finaliza ou decide o último passe.

O Benfica não está em posição de catástrofe e, feitas as contas, está em todas as frentes nacionais e europeias. No entanto, e olhando para o momento, a saída de Rui Vitória parece-me o melhor cenário. Um pouco à imagem do que aconteceu com Paulo Fonseca no F.C.Porto: uma canção que já não resolve um problema de expressão. 

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