2018-12-20 10:32:23

Mourinholândia

Mourinholândia

José Mourinho explora como ninguém a componente emocional do jogo. Mas não há fórmulas mágicas

Quando, no mês passado, o Manchester United deu a volta ao jogo e venceu a Juventus em Itália, poucos adivinhariam que pouco tempo depois estaríamos a assistir ao despedimento de José Mourinho. Lembro-me que, nesse preciso jogo, José Mourinho mandou calar os adeptos da casa no final do jogo. É claro que, com o apuramento garantido e um colectivo do melhor que há, à Juventus tanto lhe fez. Mas a atitude de José Mourinho tinha outro destinatário: os jogadores do Manchester United. Passar a mensagem do “sozinhos, isolados, contra um mundo que compulsivamente está contra nós”. O problema é quando o grupo percebe que o mundo afinal não está contra e simplesmente gira na direcção certa à velocidade certa.

Na minha opinião, José Mourinho é um treinador cujos atributos ultrapassam largamente a vertente táctica. Trata-se de um individuo tremendamente emocional, que joga com os estados de espírito e com os contextos em seu benefício. O êxito de Mourinho, a criação da imagem do “Special One”, teve muito pouco do 4x4x2 losango com que os dragões conquistaram a Europa. O êxito de Mourinho esteve antes de mais relacionado com a capacidade que teve em colocar todo um grupo, todos os grupos, a remar para um mesmo lado, cerrando os dentes a cada partida como se de uma final se tratasse. Porque estamos sozinhos, isolados, contra o mundo.

Numa modalidade como o futebol que é altamente emocional e mediatizada, é muito importante saber-se lidar com o contexto que extravasa as quatro linhas. Com frieza, pois é claro que é bem mais importante o que se passa dentro do terreno de jogo. Sem dúvida. Mas sem uma blindagem ao exterior, tudo se pode tornar mais complicado e o melhor exemplo disso mesmo é o que aconteceu ao Sporting nos últimos anos. O mérito de José Mourinho é o de conseguir ultrapassar tudo isso. De criar uma sintonia, uma espécie de ponte invisível, que liga o campo ao exterior através de uma energia imparável. Porque ninguém duvidava que o Inter ia ganhar ao Bayen na final da Liga dos Campeões.  Esse é José Mourinho. Que também tem pontos fracos.

Porque colocar toda a gente a remar para o mesmo lado implica saber-se lidar com pessoas, com diferentes egos e ambições e, sobretudo, passar as mensagens certas e destacar a união de grupo como factor determinante para o êxito. Foi por isso que Sérgio Conceição castigou Bazoer no F.C.Porto: se há um jogador a remar em sentido diferente, o barco deixa de estar equilibrado. Mas José Mourinho tem outra arma. Uma espécie de “jogar à Porto” em versão engarrafada, servida nas doses certas aos jogadores. A mensagem que mais une é aquela que nos diz que o mundo inteiro nos quer tramar. E que temos de vencer para calar este mundo e o outro. Porque vencer uns é bom, vencer outros também, mas vencer todos é a voz do verdadeiro triunfo. Isso sim é vencer. Em toda a linha.

E o problema não existe quando não remam todos para o mesmo lado. Ricardo Carvalho não remou e foi recuperado por José Mourinho. A Vítor Baía aconteceu o mesmo. O problema acontece, e isso tem sido o verdadeiro handicap de Mourinho, quando o feitiço se vira contra o feiticeiro e todos começam a remar em sentido contrário. Porque, ao fim ao cabo, Mourinho sabe gerar a energia mas às vezes a energia não vai na direcção certa. Aconteceu no Chelsea, aconteceu em Manchester. Ser ou não ser eis a questão. A questão da Mourinholândia.

É claro que a vertente táctica é importante, e José Mourinho tem tido a astúcia de se rodear de um bom staff, para além do conhecimento que se lhe reconhece. Mas é tudo uma questão de inteligência emocional. Se nunca contrataria Jorge Jesus por achá-lo demasiado laboratorial e também tenho criticado Rui Vitória pelo discurso do “pai honrado”, destaco Sérgio Conceição pela transformação que teve ao nível do discurso, da mensagem e da construção de grupo. Longe vão os tempos em que, jogador exaltado, vinha de encontro aos microfones a revelar que estava zangado com o mundo. Hoje dá tiros certeiros. Sabe canalizar as suas emoções no sentido certo, no sentido do triunfo. Mesmo quando se exalta e percebe que a reacção que teve no Bessa foi despropositada. Porque soube colocar o público a pensar: será que não reagimos da mesma forma quando o Éder marcou o golo da vitória no euro? Ao fim ao cabo, de Sérgio Conceição todos temos um pouco.

E de Mourinho também. Que tem toda a razão quando diz que o Manchester United tem futuro sem ele e que ele também tem futuro sem o Manchester United. José Mourinho não é um perdedor e, sobretudo, é um homem que sabe estudar o meio e colocá-lo a seu favor. Sabe, também, que o trunfo emocional de que dispôs tem hoje em dia uma margem mais reduzida. Os grandes treinadores são estudados ao pormenor, e as chaves do êxito investigadas e escalpelizadas. Há mais de mecânico do que de mágico em todo o sistema. E saem vencedores aqueles que caem e se levantam mais rápido. Na Natureza tudo se transforma. No futebol também. Mourinho sairá por cima. Novamente.

Partilhar:

Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

...

  • LinkedIn
  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

O que se passa hoje?