2019-02-07 15:55:15

A casa de Keizer é feita de palhinhas

A casa de Keizer é feita de palhinhas

Desempenho de Marcel Keizer faz questionar valia do holandês como técnico

Uma conjugação de resultados positivos e “gorduchos” logo a abrir – contra Vildemoinhos, Qarabag e Poltava – fez criar a ilusão geral em relação a um treinador extraordinário que afinal não é assim tão capaz. Marcel Keizer. Um holandês simpático com os jornalistas, de discurso redondinho mas com pouco sumo, cuja aura cai a pique. A casa de Keizer é feita de palhinhas e com derrapagem temporal e orçamental. E o pior é que o vizinho do lado, Bruno Lage, construiu uma casa de cimento e betão armado em meia-dúzia de dias. Porque Bruno Lage é muito melhor - e sublinhe-se muito melhor - treinador que Marcel Keizer. Disso não tenho a mínima dúvida.

Não basta colocar sete ou oito jogadores no processo ofensivo, asfixiar o adversário e depois fazer prevalecer a lei do mais forte. Em Portugal, e em face da qualidade dos técnicos, tal forma de pensar é suicida. E viu-se: sempre que o jogo pediu a inclusão do factor treinador, o Sporting perdeu. Foi assim em Guimarães (primeiro teste a sério), foi assim frente ao Tondela. Só não foi assim frente ao F.C.Porto porque não calhou – Sérgio Conceição ganhou claramente o confronto. E contra o Benfica, o Sporting foi dominado em toda a linha.

Mas tudo começa na forma mais elementar de se ver o jogo, e de como essa forma de pensar de Marcel Keizer está completamente fora do contexto daquilo que é o futebol português. Um técnico que venha para Portugal tem de saber que não vai estar rodeado dos melhores jogadores do mundo, mas terá de vir preparado para um nível altíssimo em termos de qualidade dos seus técnicos. A partir do momento em que se afirma que “se prefere vencer por 3-2 do que por 1-0”, tudo cai por terra. Keizer pode estar certo noutras paragens, mas em Portugal está errado.

Porque em Portugal os técnicos reduzem o aleatório do jogo ao seu resíduo, aferindo cada momento da partida como determinante. Como o momento em que se perde a bola. O Sporting perde a bola e está desorganizado, pouco disponível para a recuperar novamente. Mas há questões mais elementares: contra o Benfica, por exemplo, não se pode permitir Gabriel de frente para o jogo. O brasileiro é letal em passes de ruptura, que desequilibram toda a linha defensiva contrária. Foi assim que o Benfica venceu o jogo em Guimarães, por exemplo. E foi assim que o F.C.Porto contrariou o Benfica no jogo da Taça da Liga: os médios portistas a caírem logo em cima da zona de construção encarnada, colocando Gabriel fora das zonas de desequilíbrio.

É lógico que se pode argumentar que a linha defensiva do Sporting não é a mais apetrechada do mundo. E está certo. Mas há grosseiros erros colectivos que devem ser ressalvados: como a má articulação entre Coates e André Pinto, que permitiu espaço privilegiado a um dos melhores jogadores do campeonato português – João Félix; como o completo “off” do jogo de Bas Dost que, fora da solicitação em zona de finalização, é claramente um elemento a menos e tal é responsabilidade do treinador; ou a simples noção de que para se derrotar o Benfica basta apostar-se em bolas nas costas dos laterais e em transições ofensivas violentas. Não chega. O treinador tem de mostrar mais.

Ou esperar que Bruno Fernandes resolva. E tem resolvido, e disfarçado, e não pelo processo colectivo em si mas sim pelo facto de individualmente ser do melhor que há, até a nível europeu. Agora o Sporting de Keizer devia estar mais acima em termos de qualidade. Basta olhar para Keizer e Bruno Lage, medir os tempos de trabalho, e ver o resultado de um e de outro. Neste particular, os números não enganam e dão clara supremacia ao técnico do Benfica. Muito melhor.

Desde que é treinador do Benfica que é a primeira vez que Bruno Lage só depende de si para conquistar o campeonato. Porque o F.C.Porto escorregou. Perante uma equipa bem organizada em todos os momentos do jogo, os dragões apostaram no seu futebol vertical e muito propenso ao duelo físico e, tácticas à parte, não estiveram muito longe da vitória. Mas há detalhes que devem ser analisados.

É lógico que com Óliver em campo, os dragões tornam-se mais criativos e menos “brutos” na expressão positiva do termo. Mas parece que não chega. A comida está saborosa mas continua algo salgada. Frente ao Guimarães, o produto final careceu de largura, a meu ver de uma maior exploração dos corredores. Mais variações de flanco, um pouco mais de jogo interior. Falta dar-se o salto em frente quando o adversário solicita uma dose maior de desequilíbrio. Mas este tem sido o traço identitário de um dragão forte, que está longe de estar em crise. Agora sem Marega, o cenário fica mais débil. O maliano acrescenta capacidade de exploração de profundidade e uma incrível apetência para desgastar (para não se ler rebentar fisicamente) os seus opositores directos. Porque o futebol faz-se, sobretudo, sem a bola. A casa de Keizer é feita de palhinhas. E treme que nem varas verdes quando a bola passa para a casa do lado. 
 

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