2020-11-13 12:26:35


Mister: Um termo sem género

Tema: Futebol Feminino

Autor: Catarina Bajanca, Mestre em Treino Desportivo pela Faculdade de Motricidade Humana e Fisiologista na equipa de Sub-23 do Estoril Praia SAD


O crescimento do futebol feminino em Portugal tem sido notório nos últimos anos. A quantidade de profissionais envolvidos no futebol feminino tem aumentado com a criação de competições e surgimento de novas equipas. Estamos ainda na fase inicial, mas as oportunidades para profissionais são cada vez mais claras e frequentes.

 

 

 

A atualidade do futebol feminino

No mês de março de 2016, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) convidou os 18 clubes que constituíam a Liga NOS na época 2015/2016, para criarem equipas de futebol feminino para a época 2016/2017. Depois do processo de seriação, SC Braga, Sporting CP, CF “Os Belenenses” e Estoril Praia foram os clubes que aceitaram este convite. Para entrar na Liga Allianz, nome que foi dado ao Campeonato Nacional de Futebol Feminino para a época 2016/2017, os clubes tinham apenas de cumprir duas condições exigidas pela FPF: manutenção da equipa em atividade durante um mínimo de três épocas desportivas e a criação, até um período de três anos, de uma equipa feminina de sub-19. Infelizmente nem todos os clubes cumpriram estas condições.

A aposta da FPF deu um grande incentivo ao desenvolvimento da modalidade, testemunhado pelo aumento do número de jogadoras federadas e pela crescente visibilidade da mesma. Em relação ao número de jogadoras federadas (gráfico 1), de acordo com os dados da FPF, desde a entrada destes clubes nas competições femininas (2016/2017) que o número de praticantes (juniores e seniores) aumentou 81% (entre as épocas 2015/2016 até 2018/2019). É relevante referir que o maior aumento percentual se deu na transição da época 2015/2016 para 2016/2017, depois da comunicação da entrada de quatro clubes grandes na nova liga de futebol feminino. Para além deste aumento no número de jogadoras, que seria, certamente, bastante mais acentuado se fossem acrescentados dados relativos às camadas jovens dos escalões de juvenis, iniciados e infantis, é possível observar um aumento na visibilidade da modalidade.

Gráfico 1. Evolução do Nº de Jogadoras Federadas (Juniores e Seniores)


Em 2015/2016, antes da entrada destes clubes no panorama do futebol feminino, a final da Taça de Portugal, disputada entre o Futebol Benfica e o Valadares, que terminou com uma vitória do primeiro, contou com 2500 pessoas nas bancadas. Esse número aumentou 389% (12213 pessoas) na época a seguir, num jogo que colocou lado a lado o Sporting CP e o SC Braga, com uma vitória em prolongamento do primeiro sobre o segundo. Na época passada, com a presença do SL Benfica na final, o aumento em relação à época anterior à entrada destes clubes, foi ainda mais expressiva, chegando aos 405%. Através deste número, não restarão dúvidas que o futebol feminino em Portugal está a crescer e de forma significativa.

A partir deste número, não há dúvida que o futebol feminino em Portugal está a crescer significativamente.

O panorama dos treinadores de futebol feminino

Através de uma análise aos treinadores principais, com recurso às fichas de jogo disponibilizadas no site da FPF, constata-se que na época de 2017/2018 a Liga BPI (designação do Campeonato de Futebol Feminino da I Divisão) contava com 1 treinadora e 11 treinadores (percentagem de treinadoras – 8%). Na época seguinte, 2018/2019, a percentagem de treinadoras aumentou para 25%, isto é, três treinadoras. Em relação à época transata (2018/2019), o Campeonato Nacional da II Divisão teve uma percentagem de treinadoras de 17%, sendo que no Campeonato Nacional Sub-19 essa percentagem foi ainda mais baixa – 12%.

Através destes dados é possível verificar uma diferença significativa entre o número de treinadores do género feminino e masculino nas competições de futebol feminino analisadas.


Gráfico 2 - Evolução dos treinadores da Liga BPI nas últimas duas épocas desportivas



Em termos internacionais, fazendo uma análise ao Campeonato do Mundo de 2019 realizado em França, apesar dos valores não serem tão díspares, continua a haver um domínio de treinadores do género masculino em competições de futebol feminino. O Campeonato do Mundo de 2019 contou com 9 treinadoras e 15 treinadores, ou seja, uma percentagem de 38% de treinadoras no conjunto das 24 seleções participantes. Estes valores podem ser parcialmente justificados pelo número de mulheres que possui cédula de treinador e as exigências colocadas nos regulamentos das competições.


Nos regulamentos das competições disponibilizados pela Federação Portuguesa de Futebol é possível observar que o treinador principal de uma equipa que se encontre a participar no Campeonato Nacional da I Divisão necessita da cédula de treinador de grau II. Contudo, o treinador principal de uma equipa que participa no Campeonato Nacional da II Divisão ou no Campeonato Nacional de Juniores, necessita apenas de possuir a cédula de treinador de grau I, a habilitação mínima para um treinador. O gráfico 3 demostra o número de treinadoras (futebol e futsal) com grau I e II em Portugal no ano de 2019 (IPDJ/Departamento de Formação e Qualificação, janeiro 2019), prevendo a possibilidade de uma presença maior de mulheres envolvidas nos campeonatos de futebol feminino.

Gráfico 3 - Treinadoras em Portugal com UEFA C (grau I) e B (grau II) em 2019
(IPDJ/Departamento de Formação e Qualificação, janeiro 2019)


A integração de treinadoras em equipas técnicas pode ser justificada pelas diferenças existentes entre treinar equipas de futebol feminino e masculino, a nível físico e psicológico, pois em termos técnicos e táticos, tanto os rapazes/homens como raparigas/mulheres têm possibilidade de ter capacidades motoras e decisionais semelhantes. A justificação para que tal ainda não seja muito visível prende-se essencialmente com a diferença de idade com que começam a sua formação no futebol.


Aplicações práticas

Até que ponto é que a jogadora quando acaba carreira pensa em ser treinadora? Será que tal não acontece porque as mulheres ainda não vêm como rentável a aposta numa carreira de treinadora pelo grande amadorismo (ainda existente) do futebol feminino?

A aposta forte da FPF no futebol feminino referida anteriormente, tal como a criação de mais competições de futebol feminino, nomeadamente a Taça Nacional Feminina de sub-13, Taça Nacional sub-14 mista e Taça Nacional de sub-15 permite um aumento, tanto do número de jogadoras federadas, como também o número de equipas. A criação de novas equipas leva a que sejam necessários profissionais habilitados para exercerem determinadas funções, como por exemplo, as de treinador principal e adjunto. Esses cargos, havendo oferta com qualidade (demonstrada pelo gráfico 3), podem ser ocupados por profissionais de género feminino. A qualidade deve sobrepor-se ao género pelo que seria até interessante perceber se cada vez mais mulheres conseguem demonstrar níveis de conhecimento e operacionalização para liderar equipas femininas e/ou masculinas como já acontece.

O recente processo de certificação de Entidades Formadoras na FPF, que até agora era apenas destinado ao futebol e futsal masculino, vai ser, na presente época (2019/2020) alargado aos clubes com futebol e futsal feminino. Dentro do panorama do crescimento do futebol feminino, a FPF revelou que a partir da época 2020/2021, um clube que pretenda ter 5 estrelas deve ter uma equipa feminina ou, pelo menos, 20 jogadoras inscritas. Num futuro próximo, é questionável a aposta de clubes como o Clube Desportivo Nacional, Clube Desportivo das Aves e Futebol Clube do Porto, que obtiveram 5 estrelas no processo de certificação na época transata e que ainda não têm equipas de futebol feminino. A necessidade destes clubes para manterem a classificação de excelência poderá passar pela criação de equipas de futebol feminino, aumentando as oportunidades de trabalho para os profissionais em áreas de treino (treinadores principais e adjuntos), de ciências do desporto (fisiologistas e preparadores físicos) e de análise e observação (analistas e prospetores).



Referências bibliográficas
[1] – indicadores.fpf.pt/

[2] – www.zerozero.pt/news.php?id=175568/

[3] -  femalecoachingnetwork.com/2019/06/07/fifa-world-cup-2019-meet-the-female-head-coaches/

[4] - apaf.pt/images/documentacao/documentos/51/CO%20572-REGULAMENTOS%20COMPETICOES%20ORGANIZADAS%20PELA%20FPF%202019_2020.pdf

[5]  - fpf.pt/News/Todas-as-not%C3%ADcias/Not%C3%ADcia/news/24088



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