2020-12-20 17:42:55

Uma reflexão sobre a qualidade do jogo praticado em Portugal

É comum entre amigos, treinadores, jogadores ou simplesmente meros amantes do jogo, afirmarmos que em Portugal se valoriza muito o resultado e que não se joga um Futebol particularmente entusiasmante, salvo raras exceções. Então afinal o que é isso de jogar um bom Futebol ou um Futebol com "nota artística"??

Não tenho qualquer dúvida sobre a subjetividade destes conceitos, mas, perante uma equipa que jogue, ora de forma entusiasmante ora com “nota artística”, a grande maioria das pessoas, entendidas ou não, com facilidade descortina tal faceta.

Contudo, quem gosta e acompanha o Futebol em Portugal, independentemente da Divisão, sabe da importância dos resultados para os Clubes, e como a grande maioria dos adeptos avalia a prestação da sua equipa por vitórias, o jogo jogado propiamente dito fica para outras “núpcias”.

Aliado à faceta adepta, está uma tremenda suspeição dos intervenientes do jogo - árbitros, jogadores, dirigentes, etc. - alimentada e muito por programas e programas que falam de tudo menos do que se passa dentro do campo.

Se a tudo isto juntarmos uma grande pitada de projetos desportivos mal desenvolvidos temos o gatilho da reflexão: QUAL A QUALIDADE DO JOGO PRATICADO EM PORTUGAL?

O contexto que se vive no Futebol em Portugal é altamente pressionante para o resultado, o que faz com que a qualidade dos jogos enquanto espetáculo desportivo e do campeonato acabem por sofrer com isso.

Os treinadores sabem disso, como tal protegem-se. Mesmo que - aquando das suas chegadas aos Clubes tentem apresentar ideias de jogo ambiciosas, mais ofensivas e atraentes - perante a pressão dos resultados por parte das administrações/direções, sócios/adeptos ou da Comunicação Social, muitos deles acabam por sucumbir nas suas crenças e passam a optar por processos de jogo mais básicos e menos ambiciosos, já testados e que não são criticáveis pela opinião pública generalizada.

Este retrocesso na ambição de jogo por parte das equipas em que os resultados não estão a acontecer, faz com que muitas vezes treinadores com enorme talento, potencial, conhecimento e experiência optem por estratégias demasiado cautelosas e que contribuem muito pouco para o espetáculo.

É demasiado frequente em Portugal vermos uma equipa a atacar com 10 jogadores no meio campo contrário, uma outra que defende com todos os seus jogadores, mas que raramente se aproxima da baliza adversária (quando isso acontece de forma organizada e criteriosa a estratégia ganha muito mais valor e o jogo também).

Mas felizmente que não existem só os jogos “amarrados” taticamente, ulta-aborrecidos. Temos por vezes treinadores ambiciosos que acreditam totalmente nas suas ideias de jogo ofensivas, ambiciosas e inovadoras, e que conseguem que os jogadores acreditem com igual confiança e as coloquem em prática. Estas equipas, apenas com pequenas nuances estratégicas, jogam o seu jogo, em qualquer campo e frente a qualquer adversário.

Os exemplos são vários e foram acontecendo ao longo das épocas - o Paços de Ferreira de Paulo Fonseca, o Estoril Praia de Marco Silva, o Rio Ave de Miguel Cardoso ou o de Carlos Carvalhal, o Famalicão de João Pedro Sousa, o Vitória de Guimarães de Ivo Vieira, entre outros bons exemplos.

Perante esta dualidade que se verifica na abordagem ao jogo não podemos afirmar a riqueza ou falência da qualidade do futebol em Portugal sem primeiro responder a diversas questões:

  • Será que em Portugal se elaboram de facto projetos desportivos?
  • Os projetos desportivos são apenas a cara do Treinador principal?
  • Será que se tem os melhores profissionais para a elaboração destes projetos tão decisivos para o sucesso do Clube?
  • Cumprem-se todas as etapas para o sucesso do projeto?
  • Os jogadores estão de acordo com a ideia de jogo do Treinador e a sua exigência?
  • Quando os resultados não aparecem, tenta-se realmente perceber porque não aparecem?
  • Os diretores desportivos, os administradores e Presidentes fazem também a sua autoavaliação?
  • Será que a nossa arbitragem favorece um jogo contínuo, intenso e que permite a criação de bons espetáculos desportivos?
  • São estas questões que nos levam a refletir que qualidade queremos nós para as nossas equipas.

 Um futebol ofensivo, uma Ideia de Jogo de um Treinador consolidada no seu Modelo de Jogo, focada na melhoria contínua dos momentos de jogo da equipa, como defender e atacar, como reagir à perda e ao ganho da bola, os diferentes tipos de bolas paradas, as estratégias, os posicionamentos que se define, os princípios que se trabalha,  assumir os jogos e “agredir” de facto as organizações adversárias, com o Treinador a colocar em jogo todo o talento e criatividade que tem ao dispor em favor desta causa, ou o resultado como forma imperial  de performance?

Continuo a perseguir a ideia de que se jogarmos o jogo por inteiro, sem nos limitarmos apenas a defender, a esperarmos por uma jogada individual, um deslize da equipa adversária ou por uma bola parada bem-sucedida, estamos mais perto de conseguir os resultados e objetivos que pretendemos. Os jogadores, o treinador e o Clube saem mais valorizados, assim como o espetáculo para quem está no Estádio ou a ver pela televisão é muito mais atrativo.

Joel Roque | Treinador de Futebol UEFA B | Licenciado em Gestão do Desporto

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Sobre Joel Roque

Joel Roque

Sou um Treinador de Futebol UEFA B, licenciado em Gestão do Desporto, com 39 anos. Estou à procura de uma colocação profissional no Futebol como: Treinador Principal numa equipa Sénior distrital ou de Formação (campeonato nacional), Coordenador Técnico na Formação, Treinador Adjunto, Observador, ou Analista numa equipa profissional. Como Treinador eu tenho uma grande satisfação de...

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