2021-01-04 13:55:49

Lesões no Futebol

         As incidências de lesões no desporto têm vindo em sentido crescente com o passar dos anos devido às grandes exigências físicas e psíquicas que são cada vez mais solicitadas, devendo a prevenção de lesões ser a palavra-chave no panorama atual, no qual o trabalho inter e multidisciplinar deverá estar presente, (Horta 2010).

 

Prevalência de lesões no futebol

        Um fator, por vezes negligenciado no meio futebolístico, é a existência de inúmeras lesões por ocorrência de contacto físico, como é exemplo as contusões, (Weightman & Browne, 1975; Gaspar 2017) mas a maioria das lesões sucedem sem contacto, em momentos como o rematar, mudanças de direção, saltos, entre outras, (Norris 2004; Wong & Hong 2005; Caine, DiFiori & Maffuli, 2006). Segundo, Ekstrand et al., (2011), a maior incidência de lesão advém do jogo, quando comparado com o treino. Já a reincidência de lesões causa o maior afastamento da prática desportiva, correspondendo a 12% de todas as lesões. Em média, por época, cada jogador contrai 2 lesões e cerca de 37% dos atletas falham treinos ou jogos devido a lesões musculares. O mesmo autor anuncia e demonstra no seu estudo que a maioria das lesões são musculares, em segundo lugar as ligamentares e por fim os hematomas/contusões, sendo estes dados corroborados com os achados da análise de Brito et al., (2012), tendo efetuado um estudo epidemiológico com jovens futebolistas. Ambos os autores, concluíram que a coxa é a mais sensível a lesões, seguido do joelho e pelo tornozelo.

        Comparando o futebol profissional com o amador, identificamos que as lesões musculares no primeiro grupo são de 30% (Waldén, Hagglund & Ekstrand 2005; Ekstrand, Hagglund & Waldén 2011) e no segundo são de 20% (Inklaar 1994).

         No que diz respeito aos grupos musculares, é nos membros inferiores que a prevalência é superior (Rahnma et al., 2002), com os isquiotibiais a liderarem com 37%, logo de seguida os adutores com 23%, o quadríceps com 19% e no tornozelo com 13% de incidência, (Ekstrand, Hagglund e Walden, 2011). Este último autor referenciado, afirma ainda que, as por sobrecarga, foram na anca e virilha com 42%, nos isquiotibiais com 30%, quadríceps com 26% e finalmente nos gémeos com 28%. A cadeia muscular mais suscetível a lesão no futebol são os isquiotibiais (Crosier 2004; Orchard et al., 1998; Seward et al., 1993; Woods et al., 2004). Brockett, Morgan e Proske (2004). A contração excêntrica durante o sprint influencia de modo negativo esta problemática. Porém, a razão para este acontecimento é multifatorial, onde a literatura refere fatores como a falta de flexibilidade nos isquiotibiais (Crosier 2004; Burkett 1970; Engebretsen et al., 2010; Prior, Guerin & Grimmer 2009), má postura lombar (Hennessv & Watson 1993), por um aquecimento inadequado (Worrel 1994; Woods 2007, Safra net al., 1988), pela relação de forças inadequada entre os quadríceps e os isquiotibiais (Crosier 2004; Coombs & Garbutt 2002; Orchard et al., 1997; Gabbe et al., 2006; Engebretsen et al., 2010) e pela fadiga instaurada (Worrel 1994; Crosier 2004; Woods et al., 2004; Hagglund et al., 2012), os responsáveis pelo incremento da probabilidade de lesão.

 

Avaliações físicas

         O futebol como modalidade coletiva, integra atletas com variadas capacidades físicas, tendo necessidades diferentes. Neste âmbito, deverá ocorrer avaliações físicas no sentido de conhecer e compreender quais os pontos fortes e limitações de cada um, para que no futuro os treinadores contenham dados comparativos, permitindo avaliar a evolução (Mil-Homens, Correia e Mendoça 2015; Cruz 2017).

         Tendo como base a prevalência de lesões, o planeamento dos programas de treino será mais assertivo, sendo crucial aplicação de uma bateria de testes aos atletas de modo a compreender as particularidades físicas de modo individual. Tal como Ruivo, (2015) menciona, prescrever sem avaliar é estar a adivinhar.

           Os testes podem passar pela avaliação postural dinâmica com exercícios que analisam a estabilidade articular, com vista a entendermos as estruturas urgentes a serem manipuladas ao longo dos programas de treino. Neste âmbito temos baterias de teste como o Overhead Squat, o teste FMS, Single Leg Squat, entre outros.

            Testes relacionados com a capacidade de produção de força, podem e devem fazer parte da bateria de testes a realizar na pré-época e ao longo da mesma. O exemplo da avaliação isocinética, nos músculos do quadríceps e isquiotibiais, auxilia a entender os rácios de força entre estes 2 grupos musculares, mas falaremos disto mais a frente.

            Avaliar a capacidade aeróbia dos atletas, seja de modo direto ou indireto, ajuda a estratificar o risco de lesão. Um estudo de Malone et al., (2016), que utilizou o teste Yo-Yo intermittent recovery test level 1, que avalia a capacidade aeróbia em esforço intermitente, de modo indireto, concluiu que os atletas com nível elevado foram os que apresentaram menor risco de lesão. O mesmo autor, afirma no estudo que estes atletas apresentaram maior proteção contra incrementos repentinos nas cargas de treino (isto é, “picos” de carga, que iremos ver mais a frente, que exponenciam a tendência de lesão).

 

Treino de força

         Tal como falado em textos anteriores, o treino de força ajuda a aumentar a estabilidade articular (Sherphard & Shephard, 2010) e evitar atrofias muscular, tendo assim um papel ativo na mitigação de algumas lesões, (Horta, 2010).

         Para a otimização da produção de força muscular e a sua longevidade, as relações de forças entre os músculos agonistas e antagonistas são um fator determinante. No caso dos grupos musculares quadríceps e posteriores da coxa, esta deverá ser de 100-60/70% (força concêntrica). A sua alteração poderá aumentar a probabilidade de lesão nos posteriores da coxa e no ligamento cruzado anterior do joelho (Croisier, ganteaume, binet, genty, & ferret, 2008).

        O treino de força, reduz a probabilidade de contrair lesões, sendo a sua atuação no equilíbrio de rácios de força não apenas dos agonistas e antagonistas, mas também das diferenças bilaterais. Na mesma ótica, o aumento da massa muscular, da força e coordenação muscular são igualmente importantes, (Murphy 2003). Jogadores com níveis de força mais elevados tendem a melhorar a qualidade do gesto técnico, prevenindo lesões por uma melhor estabilidade articular. O desenvolvimento das qualidades físicas é mencionado na literatura como um fator na redução de lesões em equipas de elite, (Gabbett et al., 2007; Gastin et al., 2013).

 

Treino de equilíbrio

         Desafiar o controlo neuromuscular, pelo treino de equilíbrio alberga benefícios na prevenção de lesões da tibiotársica. Num estudo realizado por Mchugh (2007), no qual analisou o sucesso de um protocolo de treino de equilíbrio ao longo de 3 anos em 175 atletas de futebol, na ocorrência de lesões da estrutura da tibiotársica, conluio que a prevalência de lesões tendeu a diminuir.

 

Treino do core

            O core tem vindo a ganhar popularidade nos últimos anos, fruto da noção de que o seu treino traz enormes benefícios, nomeadamente a nível estético, mas mais relevante atua com importância na reabilitação e prevenção de dores lombares e melhora a performance desportiva. A massificação deste conceito é tão acentuada que o seu significado essencial tem sido perdido e adulterado. Podemos definir o core como a estrutura lombo-pélvica que engloba a coluna lombar, cintura pélvica e abdominal. É a partir desta zona que todos os movimentos se iniciam, facultando estabilidade.

            Segundo Kiebler et, al., (2006), o treino do core, para além de maximizar a produção de força, minimiza as cargas articulares de atividades como corrida e lançamentos, com a capacidade de controlar a posição e movimentos do tronco.

 

Gestão de cargas

         Dentro dos fatores que aumentam o risco de lesão, os picos de carga de treino aparecem com elevada preponderância (Windt et al., 2017).  Quer isto dizer que, alternâncias drásticas na carga de treino pode colocar o atleta muito perto de se lesionar. No caso do futebol, a primeira semana da pré-época e a primeira semana após a interrupção do Natal são os momentos mais problemáticos, visto que o atleta vem de um período de carga reduzida e são expostos a incrementos de intensidade elevadas. Nestas alturas o microciclo de readaptação ao esforço fará todo o sentido.

          Num estudo realizado por Malone et al. (2017) que analisou a relação entre a perceção de esforço dos jogadores à carga de treino, com o risco de lesão ao longo de uma época, constatou que foram os atletas expostos a cargas de treino crónicas mais elevadas que apresentaram maior resistência à lesão, face a cargas mais reduzidas, todavia, os jogadores sujeitos a “picos” de carga aguda tinham mais prevalência para a lesão.

 

Conclusões

            Em suma, a maioria das lesões sucedem sem contacto físico e no momento competitivo. Naturalmente no futebol o maior número de lesões ocorre nos membros inferiores com o grupo muscular isquiotibial a lidera a prevalência.

           No sentido de diminuir os casos de lesão, é necessário atuar em diferentes fatores, como no treino de força, de estabilidade e do core, passando pela gestão de “picos” de carga de treino, tendo sempre como base os resultados obtidos de uma prévia avaliação física. Apesar de não ser objetivo de conversa neste espaço, a nutrição, o descanso e fatores psicológicos são também pontos cruciais a ter em conta na prevenção de lesões.

         Assim sendo é crucial a compreensão holística das estruturas mais afetadas e como podemos atenuar o seu aparecimento, permite aos treinadores e quadro clínico, adotar medidas preventivas. 

Inscreva-se na nossa Newsletter

Inscreva-se na nossa Newsletter para receber as notícias actualizadas na sua caixa de correio.
Partilhar:

Sobre Diogo cabral

Diogo cabral

a...

  • E-mail

Comentários

Filtrar Artigos

O que se passa hoje?