2021-01-06 15:56:08


Importância, Monitorização e Higiene do Sono em Jogadores de Futebol

O sono é considerado vital para a saúde e o bem-estar humano, sendo fundamental para a fisiologia e o funcionamento cognitivo. Considerando que o número de competições internacionais, de ligas desportivas profissionais e recreativas para atletas de futebol, de diferentes faixas etárias e sexo, tem aumentado de forma significativa, isto proporcionou novas oportunidades para treinar e competir.

Tema: Fisiologia

Autor: Júlio Costa, Estudante de Doutoramento em Ciências do Desporto e Investigador no Centro de Investigação, Educação, Inovação e Intervenção no Desporto (CIFI2D) e na Escola de Futebol de Portugal (FPF).

Resumo
O sono é considerado vital para a saúde e o bem-estar humano, sendo fundamental para a fisiologia e o funcionamento cognitivo. Considerando que o número de competições internacionais, de ligas desportivas profissionais e recreativas para atletas de futebol, de diferentes faixas etárias e sexo, tem aumentado de forma significativa, isto proporcionou novas oportunidades para treinar e competir. Consequentemente, atletas suportam elevadas exigências (ex. cargas) de treino e/ou competição, estando frequentemente expostos a vários fatores e ambientes que podem causar perturbações no sono. Este assunto, torna-se ainda mais relevante, dado que em alguns países atletas (profissionais e não-profissionais) usualmente iniciam os treinos muito tarde, perto da hora de dormir, devido aos seus compromissos diários (ex. escola/universidade) que têm que ser conciliados com os horários de treino e de jogo. Assim, é necessário investigar métodos que sejam sensíveis e não invasivos para monitorizar os padrões de sono em atletas, a fim de promover uma melhor higiene do sono e, consequentemente, uma melhor recuperação.


Corpo do Artigo
Um dos aspetos fundamentais para a recuperação, bem-estar e rendimento de um atleta, é obter uma suficiente quantidade e qualidade de sono, particularmente durante o período competitivo. De facto, atletas e treinadores de várias modalidades desportivas, selecionaram o sono como a estratégia mais importante da recuperação de um atleta. Um mínimo de 7-9 horas do tempo total de sono e eficiência do sono (ou seja, percentagem do tempo total do sono) ≥85% por noite, é geralmente recomendado para promover uma melhor saúde e função cognitiva em adultos com idades ente os 18 a 60 anos. Embora, ainda não exista um consenso relativamente à quantidade do sono que um atleta deva obter para manter um ótimo rendimento, os atletas que dormem menos de 7 horas por noite podem ter uma maior probabilidade em obter lesão.

Estudos anteriores analisaram a relação entre o exercício e o sono, sugerindo que alguns fatores podem afetar o sono e a recuperação tais como o cronótipo (ritmo circadiano de um indivíduo) do atleta, ou a carga e/ou a hora do dia da prática do exercício físico. Em alguns dos nossos estudos, embora jogadoras da primeira divisão do futebol feminino em Portugal, tenham acumulado sono adequado (≥7h), foi possível observar uma diminuição na duração do sono após sessões de treino realizados à noite (21h00). De facto, foi observado uma redução consistente no tempo total de sono e um atraso no tempo de latência do sono (ou seja, tempo que demorou a adormecer) após sessões de treino realizados à noite em comparação com os dias de repouso. Estes resultados estão de acordo com outros estudos, onde se observou que os jogadores em dias de jogos concluídos antes das 18h00, apresentaram um sono adequado, ao contrário dos dias de jogo e sessões de treino realizados após às 18h00, em que o tempo total de sono se reduziu significativamente.

Vitale et al (2018) observou que a quantidade e a qualidade do sono foram menores durante a noite imediatamente após o jogo realizado à noite, em comparação com as noites anteriores ou posteriores, tanto em atletas do sexo feminino como do sexo masculino. Por exemplo, no nosso estudo com a Seleção Nacional Portuguesa feminina, durante os nove dias do torneio internacional (Algarve Cup 2018), verificou-se uma redução significativa do tempo total do sono e da eficiência do sono após o jogo realizado à noite (19h00) em comparação com os restantes jogos realizados durante o dia (15h00). Desta forma, os nossos resultados sugerem que o exercício realizado perto da hora de deitar, podem colocar dificuldades no tempo para adormecer. Uma explicação para os resultados observados, poderá ser a extensão da hora de deitar provocada pelo horário/programação das sessões de treino e/ou jogos.

Assim, é importante aplicar estratégias para promover um sono e uma recuperação adequada, especialmente após as competições que são realizadas à noite e educar os atletas sobre o assunto. Para detetar e controlar os distúrbios do sono, é importante monitorizar os hábitos de sono e as perceções sobre o sono, através de medidas subjetivas e/ou objetivas. No entanto, as necessidades do sono em atletas permanecem desconhecidas, dado que a monitorização neste tipo de população não é muito comum. O equipamento recomendado para monitorizar o sono é a polissonografia, que recorre ao uso de elétrodos superficiais para monitorizar os parâmetros fisiológicos como atividade cerebral, muscular, cardíaca e respiratória. A polissonografia, é particularmente útil para investigar patologias do sono, incluindo distúrbios respiratórios do sono e distúrbios do sono causados por concussões. A actigrafia, por outro lado, usa acelerómetros colocados em dispositivos portáteis para registar movimentos que, analisados através de algoritmos, estimam a qualidade e a quantidade do sono. A actigrafia é menos dispendiosa, não invasiva e pode ser utilizado nas rotinas de treino/jogos (geralmente duas semanas de monitorização). Assim, a actigrafia é o método mais acessível para monitorizar objetivamente o sono dos atletas durante a noite. Os “diários do sono” são também utilizados para registar a data/hora de início e término para todos os períodos de sono (ou seja, sono noturno e sestas diárias). Em suma, embora existam várias consequências associadas às perturbações do sono em atletas, identificar os problemas do sono (ex. monitorização através da actigrafia), e seguir com as recomendações para uma boa higiene do sono, podem permitir com que o rendimento do atleta seja atingido ao mais alto nível de forma mais segura e saudável. Mais se acrescenta, que de acordo com os nossos resultados da análise observacional dos padrões de sono e da carga de treino e de jogo, pode auxiliar treinadores e profissionais clínicos a identificar perturbações no sono após treinos e jogos em jogadores de futebol, o que pode constituir-se como informação relevante aquando da prescrição individual da carga de treino e gestão do tempo de jogo


Implicações práticas
Existe a necessidade em utilizar métodos sensíveis e não invasivos (tais como os acelerómetros) para monitorizar os padrões de sono, a fim de promover uma melhor higiene do sono e consequentemente uma eficiente recuperação, especialmente quando as sessões ou os jogos são realizados perto da hora de deitar. Um dos aspetos importantes dos nossos estudos e novidade na investigação no sono em atletas de futebol, é o uso dos acelerómetros durante o sono num “cenário real”. Cada atleta realizou as gravações de acelerometria de punho nas suas casas/hotel, para que os hábitos do sono não fossem limitados pelos procedimentos do estudo e assim conferir uma maior validade ecológica à investigação. Sugere-se assim, que atletas e treinadores organizem não apenas o cronograma dos treinos e de competição, mas também tenham em consideração as rotinas de sono para facilitar uma recuperação/desempenho mais eficiente.

Por fim, os atletas devem utilizar uma boa higiene do sono para maximizar o sono. Algumas das estratégias para uma boa higiene do sono em atletas são: o quarto deve estar entre os 18-20ºC, escuro e silencioso; evitar ver televisão, utilizar os tablets e telemóveis, pelo menos, 1 h antes de ir dormir; manter um horário regular para dormir e para acordar (ou seja, criar uma rotina de sono, procurando deitar e acordar sempre à mesma hora do dia); sestas apropriadas (~30 min e não no final de tarde); estar consciente da ingestão de alimentos e líquidos antes de ir dormir (ou seja, não ir para a cama depois de consumir muitos líquidos, pois pode levar com que o sono seja interrompido para idas à casa de banho) e evitar dormir muito tarde nos dias de “folga” (ou seja, nos dias sem treino e/ou competição).

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