2021-01-16 16:28:00

Avaliações físicas no futebol em contexto amador

 

O futebol sendo uma modalidade coletiva, contém atletas com os mais variados tipos de capacidades físicas. As avaliações físicas são importantes no sentido de conhecer e compreender quais as diferentes forças, fraquezas e limitações de cada um, para que no futuro os treinadores contenham dados comparativos, permitindo avaliar a evolução (Mil-Homens, Correia e Mendoça 2015; Cruz 2017). Avaliar os atletas no início da pré-época é fundamental e basilar para realizar um trabalho mais ajustado e adequado às necessidades de cada um.

No contexto do futebol português, muitos clubes tem poucos recursos materiais e financeiros para efetuar uma avaliação pormenorizada aos atletas, como acontece nas equipas com uma estrutura superior. Por norma, estes clubes não apresentam um ginásio ou quando apresentam o espaço é pequeno e com poucos materiais. As dificuldades que um fisiologista ou preparador físico encontra nestas realidades prendem-se com a logística de espaço e material para efetuar avaliações físicas e até mesmo o treino de força. É essencial a capacidade de adaptação destes profissionais para encontrar soluções com o que existe disponível, de modo a realizar o trabalho pretendido. Posto isto, quero hoje falar sobre alguns protocolos de avaliação que podem ser aplicados com maior facilidade, mas ainda assim com ótima validade científica, dando dados importantíssimos do estado físico dos atletas.

 

Avaliação Postural Dinâmica

Tal como já abordado no blog “Prevenção de Lesões no futebol”, avaliação postural dinâmica, poderá estar presente na bateria de testes, dado não necessitar de muitos e dispendiosos recursos materiais, ser de fácil aplicabilidade e fornecer inúmeras informações fundamentais do estado físico do atleta. Dentro desta temática temos o Overhead Squat, que proporciona uma visão do movimento dos segmentos anteriores e posteriores, sendo possível retirar conclusões relativamente ao joelho varo e vago, manutenção do tronco, elevação ou não do calcanhar, supinação ou pronação do mesmo, entre outras (Clark & Lucett, 2011).

Outro teste possível de aplicar é o Single-Leg Squat, permitindo avaliar a flexibilidade dinâmica, força do core, o equilíbrio e o controlo neuromuscular (Nasm, 2018). Nesta avaliação conseguimos recolher dados como o joelho vago, estando associado à falta de ativação dos músculos abdutores e rotadores externos, à hiper ativação da musculatura adutora e à falta de mobilidade articular na dorsiflexão.

Mais uma bateria de testes passível de aplicar é o Functional Movement Screening (FMS), sendo utilizada por muitos profissionais no momento de avaliação, visto dar informações de modo abrangente da qualidade dos padrões de movimento fundamentais para que se possa identificar limitações ou assimetria, entendendo a probabilidade de lesão (Valter et al., 2020). O FMS inclui os seguintes exercícios:

·         Overhead squat;

·         Transpor um obstáculo;

·         Afundo em linha reta;

·         Mobilidade do ombro;

·         Flexão coxofemoral de modo ativo em decúbito dorsal;

·         Flexões;

·         Estabilidade na rotação.

 

Potência Membros Inferiores

Segundo, Bosc, Nunes e Pereira (Citado por Silva 2001), a corrida e os saltos são os aspetos físicos mais recrutados pela performance dos atletas. Estas ações motoras necessitam do ciclo Alongamento-Encurtamento (CAE), que carateriza-se pela passagem da contração excêntrica para a contração concêntrica no mesmo gesto técnico (Badillo, 2001). Este ciclo funciona como uma banda elástica, ao esticarmos (fase excêntrica) irá acumular energia que será utilizada na fase concêntrica, produzindo assim níveis de força superiores.

Deste modo, modalidades que exigem saltos, sprints e mudanças de direção, como é o caso do futebol, devem ter o CAE otimizado. Por tal, avaliar e posteriormente prescrever o treino adequado é crucial quando a performance desportiva é o foco primordial.

Na avaliação da potência dos membros inferiores, testes como o Countermovement Jump (CMJ), Squat Jump (SJ), Abalakov e One Leg Counter Movement Jump são os mais utilizados. O ponto negativo é a necessidade de uma plataforma de força, que apesar nos dias de hoje serem fáceis de encontrar no mercado com preços relativamente acessíveis, a sua aquisição são uma barreira para muitos contextos. Deste modo, pode-se recorrer ao teste de impulsão vertical com toque numa parede. Neste teste o atleta coloca-se de lado com o braço esticado para cima junto a uma parede e retira-se altura do seu último dedo em relação ao chão. Após esta medição pede-se ao atleta que salte e toque o mais alto possível na parede (para saber o local exato pode estar uma fita métrica colada na parede ou o atleta ter giz no dedo de modo a marcar). O avaliador retira a diferença entre o primeiro e o segundo toque na parede. Este teste reporta informações a serem utilizadas como dado avaliativo ao longo do tempo, entendendo a evolução e fadiga do atleta. Outro teste é o de impulsão horizontal, no qual o atleta realiza um salto horizontal, partindo da posição estática. A medição deve ser realizada desde o local de salto até ao contacto mais recuado com o solo, após o salto. As informações retiradas são utilizadas como dado avaliativo ao longo do tempo, entendendo a evolução e fadiga do atleta.

 

Cardiorrespiratória

Devido ao tempo de prática, às intensidades elevadas de modo intermitente (Soares & Rebelo, 2013), as ações de alta intensidade de curta duração, revessando com períodos de maior duração e menor intensidade (Anastasiadis et al., 2004), o futebol reporta uma complexa determinação bioenergética, com ambas as vias, anaeróbias e aeróbias, a serem cruciais na manutenção do esforço e consequentemente na performance física (Gabrys, Ozimek & Szczwebowski, 2008; Soares & Rebelo, 2013).

Neste âmbito, por questões de logística o mais aconselhável será aplicar um teste consiga analisar a capacidade aeróbia de todos os atletas ao mesmo tempo. Testes validados cientificamente e de fácil aplicabilidade são o Yo-Yo Intermittent Recovery Test e o Legger-Boucher Test. Em ambos os testes, é possível recolher dados do VO2max e da VAM, isto é velocidade aeróbia máxima, sendo importante para a prescrição do treino aeróbio.

 

Agilidade

Relativamente à agilidade, existem 3 testes passíveis de serem utilizados com reduzido material e tempo de execução, T-Test, L-Test e o Illinois Agility Test (Getchell B., 1979; Semenick, D., 1990; Pauile K., et al., 2000). Qualquer um destes avalia a capacidade e velocidade com que o atleta altera a trajetória da sua corrida.

 

Velocidade linear

No teste de velocidade linear, bem como no tópico anterior (agilidade), monitorizar através de um cronómetro manual acarreta uma margem de erro, sendo o mais correto a utilização de fotocélulas. Porém, não sendo possível recorrer a este mecanismo elétrico, é crucial que o profissional controle o máximo de variáveis possíveis, definindo o momento que inicia a cronometrar e quando termina, sendo igual para todas as repetições.

É também importante estabelecer logo de início que distâncias avaliar. Se pensarmos que no futebol, cerca de 96% dos sprints são inferiores a 30 metros, no qual 49% não superiores a 10 metros, (Valquer, Barros & Sant’anna, 1998), avaliação cairá para distâncias inferior a 30 metros e com pelo menos 1 abaixo dos 10 metros e outra acima. Usualmente são avaliadas as distâncias de 5, 15 e 20 metros, todavia, deve ser entendido o que se pretende e quanto tempo disponível para esta avaliação.

 

Conclusão

Em suma, na preparação de uma equipa de futebol, existem inúmeros fatores a ter em conta, devendo a distribuição de tarefas estar presente, com a supervisão do treinador principal. Para a aplicação, análise e passagem dos dados para ações destes testes, é crucial um conhecimento adequado e especializado.

Para cada teste aplicado é fundamental a estandardização das condições climatéricas, pois é diferente fazer um teste com 10 graus celsius ou com 30 graus. O tipo de roupa, com caneleiras ou não, descalços ou calçados, que tipo de calçados, dado ter implicações diferentes na performance. O cumprimento do momento do teste e o seu aquecimento deverá ser monitorizado também, pois realizar um teste com fadiga instaurada poderá inviabilizar os dados.

 

Referências

Anastasiadis S, Anogeianaki A, Anogianakis G, Koutsonikolas D, Koutsonikola P. (2004). Real time estimation of physical activity and physiological performance reserves of players during a game of soccer. Studies Health Technology Information. Vol 98, pp 13?25.

Clark & Lucett, (2011). Nasm Essentials of corrective exeercise training. (Lippincott). Baltimore

Gabrys, U., Ozimek, M., & Szczwebowski, M. (2008). Aerobic and anaerobic efficiency of young football players in half year training period estimated by laboratory methods. Solialiniai Mokslai. Pp 37-42.

Getchell B. (1979). Physical Fitness: A Way of Life. (2 ed.). New York. John Wiley and Sons.

Michel A., Scoot C., Erin M., Ian M. and Brian S. (2018) Nasm essentials of personal fitness training. (6 ed.) Lippincott. Jones & Bartlett Learning.

Mil-Homens, P., Correia, P., Mendoça, G. (2015). Treino de Força: Princípios Biológicos e Métodos de Treino – Volume 1. (1ª Edição). Lisboa: FMH.

Pauole, K., Madole, K., Garhammer, J., Lacourse, M. and Rozenek, R., (200). Reliability and Validity of the T-Test as a Measure of Agility, Leg Power, and Leg Speed in College-Aged Men and Women. The Journal of Strength & Conditioning Research.

Semenick, D. (1990). The T-test. NSCA Journal. vol 12(1), pp 36-37.

Silva, P. (2001). Efeito do treinamento muscular realizado com pesos, variando a carga contínua e intermitente em jogadores de futebol. Acta Fisiátrica. Vol 8, nº 1, pp 18–23.

Soares, J., & Rebelo, A. (2013). Fisiologia do treinamento no alto desempenho do atleta de futebol. Revista USP. São Paulo. Vol. 11, pp. 91–106.

Valquer W., Barros TL. & Sant’anna M., (1998) High intensity motion pattern analyses of Brazilian elite soccer players. In Tavares, IV World Congress of Notational Analysis of Sport; 1998 Sep 23-27; Porto. Porto: FCDEF-UP.

Valter P., Fernando S. (2020). Futebol do treino à competição: planeamento e operacionalização. Lisboa. Prime Book.

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