2021-02-23 07:27:00

Controlo de fadiga nos atletas sem recurso a GPS

 

A fadiga, que pode ser expressa como a diminuição na capacidade de produzir força face a um estímulo, sendo evitada a todo o custo para o dia de jogo. Por tal, é indispensável a sua monitorização ao longo da semana de modo a encontrar estratégias para controlar esta redução de performance. Níveis mais altos de fadiga comprometem a execução do gesto técnico bem como níveis de força, expondo o atleta a situações de maior risco de lesão.

O estado de fadiga é um fenómeno com origem multifatorial, sendo uma das causas a carga de treino/competição. É possível separar carga de treino, por carga externa (distância percorrida, tempo de treino, mudanças de direção, entre outras) e por carga interna (frequência cardíaca, lactatemia, saturação de O2, entre outras). Na literatura, encontramos a referência da importância na conjugação de medidas de carga externa e interna, visto que uma irá complementar a outra. Porém, quando ligamos a ciência à prática encontramos constrangimentos inerentes ao contexto que dificultam o controlo das variáveis. Por outras palavras, para o controlo de carga e consequentemente monitorização da fadiga, é necessária a utilização de GPS, para medidas de distância total percorrida, distância a diferentes velocidades, entre outras. Para controlar a variabilidade da frequência cardíaca e frequência cardíaca média e máxima da atividade, é necessário o cardiofrequencímetro.

Em contextos onde estes dispositivos não são de fácil acesso, é fundamental encontrar métodos que auxiliem o controlo das cargas de treino, com custo reduzidos.

 

Acute: Chronic Workload Ratio

Uma ferramenta validada pela literatura é acute: chronic workload ratio (ACWR), que consiste na comparação entre carga aguda e crónica, tendo em vista o controle da fadiga dos atletas e equipa bem como estratificação do risco de lesão. Tipicamente carga aguda corresponde a 7 dias (1 semana de treinos e competição). Já a carga crónica são 28 dias (4 semanas), porém também se pode utilizar 21 dias (3 semanas) apesar de não ser tão comum.

Para calcular o ACWR, é necessário descobrir em primeiro lugar a carga de 1 unidade de treino ao multiplicar a perceção de esforço na escala de Borg (escala que vai de 0 a 10) sentida pelo atleta no treino, competição ou exercício por uma métrica de carga externa, sendo as mais comuns a distância total percorrida e o pelo tempo de treino. No contexto do futebol sem o recurso a GPS o tempo de treino é o mais viável, ficando a distância para atividades como corrida, ciclismo e natação. Exemplificando, se o atleta teve uma perceção subjetiva de esforço (PSE) de 6 e treinou 90 minutos, multiplicamos estes valores dando, 540 UA (unidades arbitrárias). Para os restantes treinos/competição o procedimento é o mesmo. No final da semana basta somar todos os valores ficando com a carga semanal. Exemplo:

4 treinos de 90 minutos em que o atleta teve PSE de 6 em todos. Fez ainda 1 jogo de 90 minutos com PSE de 8, então:

1 Treino - 90X6=540 UA (unidades arbitrárias)        Os 4 Treinos - 540X4=2160 UA

Competição - 90X8 = 720 UA                                   

Carga semanal – 720+2160 = 2880 UA

           

É importante agora descobrir a carga crónica nos atletas ao realizar o mesmo procedimento nas seguintes semanas (3 ou 4 semanas de treino). Sendo este post dedicado ao futebol vamos utilizar o exemplo de 4 semanas, dado ser o mais comum nesta modalidade. Soma-se todas as cargas e dividimos por 4. Exemplo:

1 semana – 2880 UA

2 semana – 2500 UA

3 semana – 2880 UA

4 semana – 2500 UA

Carga Crónica – (2880+2500+2880+2500)/4 = 2690 UA

Nesta altura já se encontra com todos os dados necessários para calcular o ACWR, sendo preciso dividir a carga aguda sentida na própria semana de treino pela carga crónica das 4 semanas antes. Se a carga aguda da presente semana for por exemplo de 2750 UA, fazemos:

ACWR = 2750/2690

ACWR = 1.02

 

O que Fazer com os dados obtidos

Tal como descrito em cima, o ACWR compara a carga aguda (semana) da carga crónica (28 dias), possibilitando verificar se as cargas estão ajustadas ao esperado. Mas qual é o valor esperado? Claro que cada modalidade tem os seus valores ideais, como estamos no mundo do futebol irei apresentar abaixo os valores para esta modalidade.

  •  0.80 e 1.30 (Carga ideal);
  • >1.50 (Carga muito elevada, risco de lesão aumentado).

 

Uma das problemáticas no risco de lesão são os picos de carga, isto é, incrementos muito altos e desajustados de intensidades e/ou volumes. A literatura refere que mudança superior a 10% na carga aguda de treino está associada ao aumento do risco de lesão. Com este instrumento é possível analisar se existem picos de cargas, através da comparação das cargas agudas ao longo do tempo.

A possibilidade de elevar as cargas de treino de modo progressivo evitando expor o atleta a picos de cargas irá aumentar a performance que por consequência irá ter um papel protetor nas lesões. Atletas com níveis mais elevados de condição física demonstram maior resiliência para as lesões.

 

Conclusão

Em suma, a fadiga não é inimiga dos atletas, é sim indispensável para que ocorra adaptações positivas, devendo a carga de treino estar entre os 0.8 e os 1.30. O ACWR é um instrumento validado pela literatura passível de utilização em praticamente todos os contextos desportivos, visto não ter gastos financeiros na aquisição de dispositivos, sendo apenas necessário a perceção subjetiva de esforço e tempo de treino total.

 

Bibliografia

Gandevia, S. C. (2001). Spinal and Supraspinal Factors in Human Muscle Fatigue. Physiological Reviews, 81(4), 1725-1789.

Halson, S. (2014). Monitoring Training Load to Understand Fatigue in Athletes. Sports Medicine, 44(2), 139-147.

Mujika, I. (2017). Quantification of Training and Competition Loads in Endurance Sports: Methods and Applications. International Journal of Sports Physiology and Performance, 12(2), 9-17.

Thorpe, R., Atkinson, G., Drust, B., & Gregson, W. (2017). Monitoring Fatigue Status in Elite Team-Sport Athletes: Implications for Practice. International Journal of Sports Physiology and Performance, 12(2), 27-34.

Malone, S., Roe, M., Doran, D., Gabbett, T., & Collins, K. (2017b). Protection Against Spikes in Workload With Aerobic Fitness and Playing Experience: The Role of the Acute:Chronic Workload Ratio on Injury Risk in Elite Gaelic Football. Int J Sports Physiol Perform, 12(3), 393-401.

Gabbett, T. (2016). The training-injury prevention paradox: should athletes be training smarter and harder?. Br J Sports Med, 50(5), 273-280.

 

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