2016-02-01 11:59:44

Selecção desfruta virtudes de novo paradigma

Analisar a selecção nacional é abrir a janela do futebol também ao contexto cultural

Analisar a selecção portuguesa é analisar um contexto muito particular. Um contexto muito político. Mas, felizmente, hoje é um bom contexto. E eu acredito que, dentro de muito pouco tempo, Portugal vai conquistar o seu primeiro grande título internacional. Porque está no caminho certo. Mas vamos por partes.

De 2003 a 2008 Luiz Felipe Scolari foi seleccionador nacional. Durante esse período dispôs dos melhores e mais talentosos recursos. Nunca Portugal teve tantas opções e falo mesmo das suas principais equipas: F.C.Porto (campeão europeu com nove portugueses no onze inicial) e mesmo o Benfica(com grande predominância de jogadores portugueses) davam condições de esqueleto ao novo seleccionador.

O que fez Scolari? Chegado à selecção portuguesa no período que antecedeu o euro 2004, desperdiçou uma catadupa de jogos amigáveis com um onze que se revelava pouco sólido. Foi assim que entrou em campo frente à Grécia, no jogo inaugural do euro(apenas trocou Petit por Maniche). Após a derrota, Scolari pegou no esqueleto montado por José Mourinho no F.C.Porto e a partir daí começou a ganhar. Como era de esperar. Teve algum mérito nas substituições operadas? Sim, teve. Teve algum mérito no espírito que transmitiu? Sim. Teve. Mas foi muito pouco em comparação com a herança pesada que deixou e que ainda hoje se sente. Usou e esbanjou sem precaver o futuro. Quem viesse a seguir que tratasse do assunto.

Este esqueleto de selecção foi exponenciado nas duas competições seguintes: mundial de 2006 e europeu de 2008. No entanto, apesar dos bons resultados, Scolari mostrava algumas deficiências como técnico. Continuo a afirmar que Portugal era claramente a melhor selecção das quatro semifinalistas desse Mundial. E também sou daqueles que considera que nem daqui por 50 anos vai existir um contexto tão favorável. Mas a principal falha ocorreu em 2008: após a vitória frente à Turquia no jogo inicial, e depois de cinco anos de boca cheia a apregoar o conceito de família da selecção, Scolari anuncia, em plena competição, a sua ida para o Chelsea. Amo muito a minha mulher e os meus filhos mas vou passar o Natal a casa da minha amante.

Pior do que isso, a aposta na formação foi quase nula. Durante esse período as selecções jovens não estiveram presentes em grandes competições internacionais. Se não estão como jovens, também não podem estar como seniores. Carlos Queiroz e Paulo Bento(sobretudo este) perceberam isso e realizaram meritório trabalho de sapa e de recuperação. A aposta foi ganha: três finais(europeu de sub-19, mundial de sub-20 e europeu de sub-21) para além de presença assídua em grandes competições internacionais jovens. Assim sim.

Assim há garantias. Porque tudo começa nas camadas jovens. Com a habituação às grandes competições, à pressão do resultado. Ao erro. E, no pós-Scolari, a recuperação fez-se de forma correcta. Estamos no bom caminho. Falta resolver um segundo problema. Que Fernando Santos já percebeu qual é. Trata-se de um problema cultural.

Por muita táctica que se defina, por muito detalhada que seja a observação do aniversário, há determinadas selecções que são adamastores para Portugal. Itália, França, Alemanha. Sobretudo estas três. Contra estas selecções há sempre um pé que falha, um corte que não entra, um imponderável que se torna rotineiro. Ora, com este problema em calha, os jogos amigáveis de Portugal são mais do que um trabalho de laboratório. São combates a estereótipos. E, nesse combate, Santos já derrubou Itália e Argentina. E as coisas parecem estar a mudar. Há alguma noção de hábito: contra a Alemanha, na semi-final do euro 2015 de sub-21, a vitória gorda não se traduziu em euforia. Seria uma má euforia. O povo continuou sereno. Tomou, e bem, a vitória como normal.

A selecção portuguesa foi, de longe, a mais qualificada do grupo. Nesta partida, evidenciou-se um aspecto muito particular do seleccionador Fernando Santos: a exploração do minuto 90 e do período de compensação. Não é coincidência: trata-se do terceiro jogo que Portugal consegue vencer nos descontos – antes foram Dinamarca e Argentina – e traduz uma característica que o seleccionador já demonstrara na Grécia. É nos descontos que os níveis de concentração caem em massa, que as marcações ficam confusas. Foi assim que a Grécia, por exemplo, eliminou a Costa do Marfim no último mundial: nos descontos.

Num grupo que foi favorável para Portugal, a Albânia foi, quanto a mim, a segunda melhor equipa. Já o tinha provado na qualificação para o Mundial: 11 pontos em 10 jogos e uma acentuada tendência de crescimento. Lorik Cana(Lazio) é figura maior de uma selecção onde ainda pontificam o seu companheiro de equipa Berisha e também Gashi(Basileia). Uma selecção compacta, coesa, forte em termos defensivos que se vai renovando à medida do crescimento do seu campeão Skenderbreu, que recentemente esteve às portas da fase de grupos da Liga dos Campeões. Numa Europa futebolisticamente mais equilibrada, a Albânia vai acompanhando Islândia e País de Gales(só para dar dois exemplos de relance) numa nova vaga de qualidade.

 

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Sobre Gil Nunes

Gil Nunes

- Colaborador Desportivo Permanente na Imprensa Russa - Championat, Sport Express, Eurosport - Comentador Desportivo Semanal(6ª feira) na Regiões TV; - Comentador Desportivo Semanal nos jornais Gaia Semanário/Notícias de Esposende;     Colaborações passadas: Colunista semanal jornal "O Jogo"; jornal "Academia de Talentos"; jornal...

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