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Tue, 10 Oct 2017 20:29:14
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McEachran. O condutor do sonho inglês.

A geração do novo século faz sonhar todo um povo que em Inglaterra anseia pelo regresso aos triunfos internacionais da selecção dos três leões.

Enquanto todas as atenções estão centradas nos fantásticos Phil Foden, Jadon Sancho e Angel Gomes, há um miúdo frazino no meio campo que encanta ainda bastante mais todos quanto os que lhe entendem o jogo. George McEachran não é muito potente fisicamente, não é forte, nem tão pouco alto. Fisicamente tem um perfil que até à tão pouco era desdenhado no país que inventou o futebol.

Tem porém tudo o que mais importa para ter impacto no jogo. Um binómio qualidade de decisões / capacidade técnica que impressiona, e faz toda a sua equipa girar ao seu redor, e jogar! Dos seus pés e decisões saem bolas sem fim para dentro da estrutura adversária, progride quando há espaço, atrai, liga de forma vertical, e mesmo quando o espaço escasseia, tem sempre ideias ofensivas. A facilidade com que coloca os colegas em posição de poder criar perigo tornam-o uma das maiores promessas mundiais entre os jogadores que ligam todo o jogo ofensivo.

Não houve top de maiores promessas no Mundial sub 17 que contemplasse a presença de McEachran. O tempo provará o erro.

 

George McEachran from Videos para “Lateral esquerdo” on Vimeo.

Sun, 10 Nov 2019 20:40:29
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NWSL: detalhes de uma final histórica

A NWSL, competição profissional de futebol feminino dos Estados Unidos, chegou ao fim este fim-de-semana, depois de uma final que fica para história entre as agora bi-campeãs North Carolina Courage e as estreantes na final Chicago Red Stars. Pela primeira vez na história da competição (desde 2013) uma equipa marcou 4 golos na final, demonstrando logo a superioridade que as NCC tiveram na vitória por 4-0.

Um resultado que, apesar do favoritismo da equipa campeã, não era de todo esperado. A equipa de Chicago não perdeu nenhum jogo frente às Courage durante a fase regular (1 empate, 2 vitórias) e era considerada a equipa em melhor forma nos playoffs, muito devido a Sam Kerr, avançada australiana considerada MVP da competição. No entanto, foi outra nomeada para MVP que acabou por se destacar: Debinha. A brasileira foi a craque da final e precisou de apenas 4 minutos para inaugurar o marcador. Não só pelo golo marcado, mas por toda a sua qualidade com e sem bola (algo onde tem melhorado imenso nos últimos anos), Debinha “jogou e fez jogar” todo o ataque das Courage.

Para quem não viu o jogo, um resultado de 4-0 numa final de campeonato merece bastante esclarecimento. O que se passou então? As duas equipas foram fiéis a tudo o que fizeram durante a época, no que toca aos sistemas táticos utilizados.

Começando pelas NCC, o onze inicial não surpreendeu, e o seu já conhecido 4-2-2-2 foi o normal. Sam Mewis e O’Sullivan como médios mais recuados, com o papel de ocupar o espaço à frente da defesa mas também de iniciar a construção de jogo da equipa (falaremos mais à frente). À sua frente, Debinha e Crystal Dunn são jogadoras bem diferentes uma da outra. A brasileira é quase um típico 10: tecnicista, excelente com bola, gosta de driblar durante largos metros quando tem bola e mantém-se mais em espaços centrais. Já Crystal Dunn é uma jogadora polivalente, que está habituada a jogar nos corredores e que utiliza o seu físico para se desmarcar com inteligência “um pouco por todo o lado”. Na frente de ataque, McDonald e Williams são duas jogadoras possantes fisicamente, muito rápidas e que gostam de se posicionar bastante no espaço entre as defesas centrais e as laterais.

O 4-2-2-2 das NCC em evidência, com as duas defesas laterais a apoiarem o ataque pelos corredores.

O domínio foi claro desde o início, com um golo madrugador e oportunidades claras a seguirem-se. A equipa de Chicago não conseguia responder às investidas das NCC, que defendiam e atacavam com muitas jogadoras. À equipa de Chicago faltou sempre largura (Nagasato jogou sempre muito por dentro, mas sem conseguir ter bola, enquanto McCaskill teve uma exibição para esquecer) e também profundidade (nem Brian nem Colaprico apoiavam o ataque, deixando DiBernardo e Kerr muito sozinhas na frente de ataque).

Um exemplo da falta de “ideias” da equipa de Chicago. Nagasato com bola e espaço (algo raro), Kerr entre as defesas centrais e mais ninguém a apoiar o ataque em zonas perigosas. NCC mostrou-se muito organizada para estes momentos, sabendo da qualidade das atacantes da equipa de Chicago (nomeadamente Kerr e Nagasato)

A superioridade com bola de North Carolina esteve relacionada com vários aspetos do jogo: maior capacidade de associar jogadoras no meio-campo ofensivo (ter dois pivots ajuda bastante na segurança para uma possível transição), superioridade ou igualdade numérica em várias zonas do campo e variação do jogo interior e exterior. Muitos destes princípios partem da maneira como a equipa sai a jogar, com Sam Mewis a descair frequentemente para um dos lados da defesa (algo que também faz regularmente na seleção dos EUA), libertando a lateral e criando superioridade de 3vs2 contra a pressão inicial de Chicago. No sector médio, existe quase um 5vs4 de North Carolina, com O’Sullivana a ajudar não só as duas centrais, mas também tendo a possibilidade de jogar de frente para o jogo no meio-campo.

Superioridade ou igualdade em quase todas as áreas do campo. O posicionamento de Sam Mewis destacado, assim como a quantidade de jogadoras colocados no sector intermédio do campo. As avançadas, como referido antes, sempre entre as centrais e as laterais.

Um lance de perigo esporádico da equipa de Chicago na primeira parte aconteceu quando, num caso raro, Nagasato teve bola e a equipa condicionou a marcação das adversárias com jogadoras em largura, profundidade e entre linhas, algo que foi muito raro durante todo o jogo:

Resumidamente, foi um jogo que ao intervalo estava resolvido. Vantagem de três golos, muita superioridade com bola e também o fator psicológico. Num jogo que teve lotação esgotada (mais de 10mil pessoas no estádio), destaque para muitos adeptos que viajaram desde Chicago e que, mesmo em desvantagem, sempre apoiaram a sua equipa. Uma homenagem também a Heather O’Reilly, jogadora que se despediu dos relvados com mais um campeonato e uma ovoação de pé por parte de todos os intervenientes do jogo que estavam no estádio.

Para terminar, o resumo do jogo:

O conteúdo NWSL: detalhes de uma final histórica aparece primeiro em ProScout.

Mon, 11 Nov 2019 11:14:44
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Jogar com medo ou jogar a medo?

No seguimento do tema abordado pela Federação Portuguesa de Futebol sobre o comportamento dos pais (e também de outros agentes) no futebol, considerei que poderia escrever um pouco acerca do “#deixa jogar” e sobre que impacto os pais de jogadores deste país podem ter na vertente do rendimento do jovem e principalmente no bem-estar do mesmo.

Antes de começar, é importante citar uma pessoa que muito fez para a promoção do futebol jovem em Portugal: o Sr. Aurélio Pereira. Há umas semanas, falou sobre o comportamento dos pais de atletas de futebol e fez referência para o fato de “Pais que querem ser os futuros Jorge Mendes e querem que os filhos sejam os futuros Cristianos Ronaldos”.

Na minha experiência profissional, dentro da área psicológica do jogo, já realizei formações com pais de atletas de várias faixas etárias, vários objetivos e em vários contextos, estando uns ainda a aprender a gostar de jogar e outros já em fase de formação.

Falando um pouco mais pelos jovens que estão numa fase inicial da sua atividade desportiva (pois creio ser ainda mais alarmante), acredito ser essencial continuar com a sensibilização para os pais destes atletas, para o facto de que o filho ainda é muito jovem, e está sobretudo a autoconhecer-se e perceber que ainda está numa fase de descoberta.

Antes de um jogador, há que perceber que, acima de qualquer coisa, todo o atleta é um ser humano, que experiência emoções, sentimentos e comportamentos. Na minha luta perante este tema, tem sido recorrente a sensibilização e o “mostrar” de como é importante ser pai de um atleta de futebol. MAS SERÁ QUE ISTO CHEGA? O que vamos fazer para parar com pensamentos que determinados pais têm em relação aos seus filhos de forma desajustada? Pensarão que têm uma “barra de ouro em casa” e que os têm de limar consoante a sua visão/opinião? Reforço novamente que ainda estão na fase da descoberta.

PAIS, já pensaram e tentaram perceber junto daqueles que mais amam, ou seja, os vossos filhos, se é do futebol que eles realmente gostam? Será que eles estão felizes no clube onde se encontram a jogar? E vocês, pais, será que não querem mais resultados e sucesso do que os próprios filhos? Acho que é fundamental alinhar o processo refletir: “Quando vou ver o meu filho jogar, será que utilizo mais o boné de pai, ou o boné de pai/treinador?”

No meu ponto de vista, foi deveras interessante o que a Federação Portuguesa de Futebol fez. Contudo, por vezes, questiono-me se isto já não está a ser feito há algum tempo. Será que não tem que haver outras medidas para que o menino jogue o futebol com paixão, prazer e muita alegria sem qualquer tipo de julgamentos, pressões (…)?

Como disse anteriormente, na minha profissão tive algumas formações, principalmente para otimizar o papel dos pais enquanto PAIS de jogadores de futebol. E na minha tese, como alguém muito importante no meu trajeto me ensinou, para além de querermos atletas de grande competição, queremos essencialmente pais de alta competição!

O comportamento continua a ser recorrente. As exigências sobre o filho jogar de forma diferente, por exemplo: “Vai para esquerda”, quando o líder da equipa, sim O TREINADOR, aquele que OS TREINA, diz “direita”. E a quem o atleta vai obedecer quando falamos de meninos de 6/7 anos, por exemplo?

Os pais têm um papel fulcral nas ações e conduta dos seus filhos. É, por isso, imperativo que lhes permitam tomar as suas próprias decisões, com completa autonomia. Muitas das vezes, não é isso que se sucede e deparamo-nos, metaforicamente, com um jogo de futebol de consola, no qual o pai é o comando e tenta jogar à sua maneira. É importante que o pai perceba que existe uma panóplia de fatores que condicionam toda a performance e que o seu filho necessita de ser autónomo e de jogar com prazer!

O comportamento perante os árbitros continua desajustado. Os insultos são constantes, num campo em que ele é o “juiz” e tem que tomar decisões, e para além de tudo, É HUMANO, tal como as pessoas que o criticam.

Questiono ainda, pais de atletas deste país, sendo vós os pilares dos vossos filhos, será que já pensaram que estes podem ter vergonha das vossas ações nas bancadas “nos sábados de manhã”? Será que percebem que eles podem não ter uma motivação intrínseca, e não ir criando essa mesma motivação a longo prazo, pelas vossas exigências e desajustamento de expetativas?

Será que não percebem que se colocarmos numa balança e metermos a pressão de um lado e a motivação do outro, ela pode estar desequilibrada, e isso não é positivo para o rendimento e sobretudo BEM ESTAR do vosso “tesouro”? Daí também o título do texto. Por vezes, deparo-me com atletas que têm medo de errar, têm medo de falhar, de assumir, muito porque sabem que vão ser repreendidos depois. Vai haver exigência depois de uma ação que deveria ser apenas de PRAZER. Daí, por vezes, não haver o risco, as iniciativas, a vontade de querer mostrar diferença, A AUTONOMIA…  tudo o que nos faz apaixonar pelo desporto rei…

Claro que cada caso é um caso, e cada pessoa é uma pessoa. O objetivo é apenas ir lançando umas frases soltas para também o leitor ir refletindo com mais precisão.

Poder-se-ia falar de tanta coisa acerca desta temática. E, como referi no inicio, há um momento inicial referente ao “aprender a gostar” e depois começa-se a formar. Mas o comportamento não poderá ser igual nos dois casos?

As formações, as propagandas do não à violência (…), sim é muito importante. Mas têm havido mudanças significativas?

E quando uma equipa de SUB12 (julgo eu), de Espanha, decidiu parar o jogo e foi de encontro à bancada onde se encontravam os pais dos próprios atletas dessa equipa e se manifestaram, demonstrando a sua insatisfação perante o que os seus “pilares” estavam a fazer? MENINOS DE 10/11/12 ANOSMas que atitude!

Porque não passar da teoria à prática? Porque não existem ações?

Poderia falar muita coisa sobre este assunto, mas essencialmente, e de forma a que haja uma discussão:

SIM, É IMPORTANTE O “DEIXA JOGAR” E A CONTINUAÇÃO DA SENSIBILIZAÇÃO PARA AS BOAS PRÁTICAS, MAS SERÁ QUE NÃO TERÁ QUE EXISTIR MAIS DO QUE ISSO E COMEÇAR A TRABALHAR DE FORMA A PUNIR AS PESSOAS QUE NÃO ESTÃO A DIGNIFICAR O DESPORTO REI, E DE CERTA FORMA, DEIXAR O “MÍUDO JOGAR”?

Thu, 08 Aug 2019 19:32:00
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Quando eu crescer...

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      Falo tanto e tantas vezes de futebol que por vezes me esqueço da verdadeira beleza do mesmo. 
    Sei que o futebol é uma realidade completamente distinta do restante e, isso verifica-se com a quantidade de gente e valores que move em seu redor. Será por isso mesmo que muitas das vezes nos esquecemos de desfrutar dos momentos únicos e maravilhosos que presenciamos quando acompanhamos o atleta A, B ou C, seja por ser nosso filho(a), amigo(a), jogador(a) preferido(a) ou o homem/mulher dos nossos sonhos!
     Numa dessas conversas que tenho frequentemente ouvi de alguém que lidava diariamente com o meu trabalho algo do género "esta época foi espetacular e só te tenho a agradecer pela oportunidade de estar tão próximos dos miúdos (leia-se - dos meus miúdos), foi algo de especial pois, consegui conhecê-los de outra forma e ver e aprender com as atitudes especiais, que eles têm uns com os outros e que me fazem também refletir". E é mesmo isto...
   Tantas são as vezes que queremos e exigimos dos miúdos algo mais, como uma maior superação, uma maior concentração, uma margem de erro mínima, um sem fim de critérios para que sejam melhores aqui e ali. Até aí tudo bem, desde que não seja desmesurado até concordo! Mas e o lado deles? Onde fica o espaço de diversão e a margem de erro que deveriam ter para aprender e melhorar? Onde fica aquela 1h30m que deveriam ter para jogar com os colegas e aprender por si próprios o valor e sacrifício de trabalhar em equipa, de se superar constantemente para querer ser o melhor, de saber o quanto dói uma derrota e ter de chegar à escola no primeiro dia da semana e não ouvir falar de outra coisa que não seja isso pois, naquele momento, só aquilo lhes importa, alguém venceu e alguém perdeu. Como pode um Treinador por um jogador ter errado algo, "rebentá-lo" ao ponto de aos 5 minutos de jogo já o ter substituído porque não conseguiu fazer isto ou aquilo? Como pode um Pai chatear-se com o seu filho porque não conseguiu fazer aquele remate que daria aquele golo importantíssimo para a equipa? Ele tentou e estava só a fazer o que lhe dava prazer, até àquele momento...


    No fundo, esquecemo-nos cada vez mais que no nosso tempo, jogávamos na rua sem que nenhum pai ou treinador nos dissesse o que fazer. Não tínhamos medo de errar e experimentávamos fazer isto e aquilo porque queríamos melhorar o que achávamos que não éramos tão bons! E se errávamos, tínhamos os mais velhos a dar-nos na cabeça e um "não inventes pá" e um acumulado de palavrões até chegar a um "na próxima vais para a baliza" e era através disso que tínhamos de aprender com os erros e de lidar à nossa maneira dentro do tempo que precisássemos para enxergar isso. 
      Com tanta sede de vitória passa-nos ao lado que muitas das vezes vamos ouvir um "pai quando eu crescer quero ser médico" ou outra profissão qualquer e que o que está realmente em causa é o futuro de um menino e que, como em tudo na vida, precisa de deixar de gatinhar e passar a andar, futuramente correr e ser livre. Esse menino de quem esperamos o melhor remate da sua vida ou aquela finta espetacular precisa de perder para aprender o sabor da vitória! 
     A verdade é que o Futebol é um Desporto de inclusão e nesse sentido as crianças irão aprender certos valores que lhes serão claramente uma mais valia no seu futuro quer seja pessoal, profissional ou social. Qualquer um que tenha participado como atleta numa equipa de futebol terá com toda a certeza histórias de uma época e aposto (com muitas certezas) que nem terão sido campeões nesse ano e talvez nem perto! Porque assim é o nosso crescimento, feito de aprendizagens e momentos marcantes que nos levam a escolher o nosso caminho. Talvez, também por isso, quem pratica ou praticou futebol saberá o valor de trabalhar em equipa e a quantidade de sacrifícios necessários para um bom trabalho de equipa. Ou, talvez por isso mesmo, saberá que conversas de balneário entre parceiros são AS  CONVERSAS DE BALNEÁRIO e o que se conversa no balneário fica no balneário.


    São estes valores fundamentais que irão modelar a nossa personalidade e a forma como iremos agir no futuro quer a nível profissional ou social certo? Certo! Então deixemo-los crescer com os seus erros, apoiemos mais vezes e critiquemos menos. Quando criticarmos que seja de forma assertiva e construtiva para ajudar mais e prejudicar menos! Que nas suas quedas os deixemos cair mas os ajudemos a levantar porque é essa a função do educador! Que nos foquemos mais no que é positivo e no esforço que os vemos a colocar em algo, no quanto essa criança quer algo para ver também o bem dos seus colegas de equipa e passemos a dar maior valor a isso. Que aproveitemos os seus sorrisos e as suas gargalhadas e lhes ensinemos como o golo é um momento de explosão de alegria e delírio e deve ter um festejo condizente ao momento.
    Porque quando chegar o momento em que a criança/adolescente queira ser outra profissão qualquer, saberemos que nunca lhes retirámos a ilusão de ser jogador de futebol nem os privámos de serem felizes durante o tempo em que quiseram estar a fazer outra coisa qualquer que não fosse estar enfiado numa qualquer divisão agarrado ao telemóvel. 
E o quanto é importante sonhar...

" Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é de alguém que acredite que ele pode ser realizado." - Roberto Shinyashiki.

Ricardo Carvalho
Thu, 15 Nov 2018 12:25:51
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Fair Play e a formação esportiva

Fair Play e a formação esportiva

Respeito, ética, empatia e reciprocidade acima de tudo no esporte.

O Esporte é uma ferramenta que influencia o comportamento humano. A emoção causada por ele influencia diretamente na capacidade emocional e intelectual dos envolvidos, atuando no comportamento e postura dos seres humanos. Isso acontece porque o esporte é um fenômeno que mexe com razão e emoção de uma forma intensa. Uma forma encontrada para balancear isso foi adoção do Fair play no esporte.

O ‘Fair play’ é uma filosofia adotada no meio esportivo que está diretamente vinculada à ética no jogo. É o jogar limpo, jogar justo, ter espírito esportivo.

O objetivo é estimular que os praticantes joguem sem violência, de maneira justa, sem prejudicar intencionalmente seus adversários e, não menos importante, dentro das regras da competição desportiva.

A expressão vem desde os Jogos Olímpicos de 1896, quando o Barão Pierre de Coubertin disse a seguinte expressão:

 “Não pode haver jogo sem fair play. O principal objetivo da vida não é a vitória, mas a luta”

Essa expressão valoriza o jogo limpo, o respeito, a empatia e a reciprocidade a seus adversários, mostrando que eles também são parte importante do jogo em si assim como você. Ela ainda transmite a ideia de que você precisa se empenhar e competir conforme as regras, ou será desclassificado. Hoje em dia inclusive é comum ver esse espírito de Fair Play sendo difundido pela sociedade em geral, como uma forma de valorizar ideais universais como um padrão de comportamento ético social e moral, por exemplo.

Só que ao contrário do que muita gente acha, o Fair Play não consta oficialmente nas regras oficiais de nenhum esporte. Nas regras do Futebol escritas pela FIFA por exemplo não há nenhum texto explicitando que, caso um jogador se machuque durante o jogo o adversário precisa colocar a bola para fora para que o jogador machucado seja atendido. O que há é um acordo implícito entre os esportistas, mas que nem sempre acaba sendo respeitado. E aí entramos na discussão sobre o Fair Play: existe mesmo?

GOLEAR OU NÃO NA FORMAÇÃO

 Falta de respeito ou respeito máximo ao adversário? Eis a grande questão.

A ideia de escrever sobre o Fair play aqui surgiu de uma discussão que participei essa semana em um grupo do Facebook que faço parte, o ‘Artigos científicos em Futsal’. Nessa postagem havia uma imagem com um placar de um jogo entre crianças na Alemanha que ficou 86×0 e a pergunta:

“Na sua opinião, faltou respeito (Fair play) ou faz parte do jogo?”

Na minha opinião, não faltou respeito e golear faz parte do jogo.

Defendo o fato de que se pudesse ganhar o jogo de 100, que fosse. Para mim, falta de respeito é parar de fazer gols, mostrando ao adversário que não estamos ganhando de mais porque não queremos. E digo isso com a tranquilidade de quem já goleou e foi goleado. Você menosprezar o seu adversário é a pior das ações que você pode tomar enquanto esportista ou mesmo em sua vida normal.

Mas, nesta discussão, pude ver boas ações e opções tomadas por outros treinadores para valorizar o esforço do adversário. Trocar o time e dar minutos para aqueles que jogam pouco tempo, testar alguns conceitos que você quer ver seu time praticando, deixar o adversário colocar mais jogadores em campo foram algumas citadas e que eu acabei achando válidas. Nós, como formadores que somos, antes de sermos treinadores, temos que ter essa preocupação com a conduta de nossos atletas em situações como essas. Como meu jogador vai se comportar quando estiver ganhando um jogo de goleada? E como ele vai se comportar em uma situação de derrota por goleada?

Se eu somente valorizo a vitória, como vou cobrar dos meus atletas que eles saibam se comportar quando estiverem perdendo?

Tentei procurar informações sobre o jogo na Alemanha e o máximo que encontrei foi uma nota publicada no site Freie Pesse, dizendo que o time derrotado fez tudo errado na defesa e que não conseguiu jogar, enquanto seus adversários acertaram tudo. Foram 40 gols no primeiro tempo e 46 gols marcados no segundo tempo.

Diante desse fato, fica o questionamento: será que ao invés de respeito ou falta de respeito, eu não posso ter sofrido uma goleada pelo fato do meu time estar em um dia extremamente ruim?

GOLEAR, SER GOLEADO FAZ PARTE DO JOGO.

O que não é negociável é o Fair play. E nunca vai ser.

86×0 nem é a maior goleada do futebol mundial.

A maior goleada do futebol mundial aconteceu em 2002, em jogo válido pelo campeonato nacional de Madagascar, na África: 149×0 para o Adena sobre o Olympique L’Emyrne. Entretanto, esse jogo não é reconhecido oficialmente pela FIFA, já que os jogadores do Olympique fizeram vários gols contras em protesto por sucessivos erros de arbitragem contra a equipe. A FIFA, mesmo não tendo o Fair play escrito nas regras oficiais do Futebol, promove o comportamento ético desde a Copa de 1986, após o gol de mão de Maradona contra a Inglaterra. A entidade, desde 1997, organiza uma semana de seu calendário internacional junto das Confederações com atividades que realcem a importância do Fair play dentro e fora de campo.

No caso do Futsal, a maior goleada que se tem registro é de uma vitória do Brasil sobre o Timor Leste por 76×0. A partida foi válida pelos Jogos da Lusofonia e Timor Leste já havia perdido para Portugal por 56×0 antes no mesmo torneio. Entretanto, lendo notícias sobre o jogo, não há relatos de agressões por parte dos jogadores de Timor Leste, mesmo com o placar. Há relatos de reconhecimento da superioridade técnica dos jogadores brasileiros e elogios quanto a postura dos mesmos, sem menosprezá-los em nenhum momento.

Em outro episódio envolvendo goleadas, talvez a mais famosa em tempos mais recentes, os 7×1 da Alemanha sobre o Brasil na semifinal da Copa do Mundo do Brasil em 2014, o capitão alemão Philip Lahm, disse na época:

“No intervalo, nós conversamos sobre continuar jogando apropriadamente e mostrando respeito. Todo mundo no time tomou aquela atitude no segundo tempo. Nós não queríamos nos exibir ou ridicularizar os adversários. Se acabou com uma vantagem maior, não era tudo o que queríamos. Nosso objetivo era mostrar respeito aos nossos rivais e aos fãs”

No intervalo a Alemanha já ganhava do Brasil por 5×0. E, mesmo com os alemães não acreditando no que estava acontecendo, eles optaram por manter a postura profissional e seguir jogando em respeito à Seleção brasileira e acabaram aplicando a maior goleada sofrida pelo Brasil em sua história.

E novamente em nenhum momento vimos qualquer ato de violência ou desrespeito entre as equipes. Tanto a Alemanha como o Brasil seguiram jogando de forma limpa até o fim e no final venceu a melhor equipe.

Isso só reforça o quanto o respeito e a empatia ao seu adversário devem ser sempre valorizados independente de qualquer vitória ou derrota. E reforça ainda mais o que nós, formadores, devemos trabalhar o Fair play sim na formação com nossos atletas. A nossa postura em quadra ou campo diz e reflete muito em quem somos fora dela também, independente da faixa etária.

O Fair play é o código de ética implícito do esporte que pode ser totalmente adaptado para a nossa sociedade. Seus valores podem e devem ser trabalhados à exaustão com nossos atletas durante o seu processo formativo pois a influência dos mesmos ocorrerá tanto na vida esportiva quando no pessoal. Sem o Fair play, o esporte perde a sua alegria e ações de caráter duvidoso passarão a dominar as ações, podendo causa o fim do fenômeno esportivo no mundo. Assim, o trabalho dos valores éticos e morais do esporte devem ser defendidos por todas as pessoas envolvidas nele.

Se você apresentar o devido respeito ao adversário, jogando de maneira ética, limpa, correta, valorizando o esforço dele, o placar do jogo será algo sempre secundário.

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Fri, 06 Apr 2018 11:02:00
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LIVERPOOL - SERÁ CAOS OU ORGANIZAÇÃO?

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SERÁ QUE CONSEGUIR ORGANIZAR UMA EQUIPA COMO A DO LIVERPOOL DÁ MUITO TRABALHO, OU É PURA SORTE?


Muito ou pouco se falou do jogo entre o Liverpool e o Manchester City. Duas concepções de jogo e duas ideias de jogo bem diferentes. Para o caso não interessa estarmos a falar sobre essas diferenças. O que me interessa, tem a ver com a definição que muitos dão aos conceitos de ambos os treinadores.  
Do lado do City é a inteligencia, a paciência que predomina. Do outro lado o jogo é caracterizado como sendo intenso e caótico.
Como me interesso muito por futebol e conheço ligeiramente a equipa de Kloop, fui ao dicionário ver o que significa a palavra caos.


O que é o Caos:


Caos significa desordem, confusão e tudo aquilo que está em desequilíbrio

Teoria do Caos:
Trata-se do princípio que afirma que uma pequena alteração ou mudança no início de um evento, no decorrer deste processo, transforma-se em consequências desproporcionais e imprevisíveis.

Posto isto a minha intervenção vem no sentido de esclarecer que para mim a equipa do Liverpool é tudo menos desorganizada, confusa e desequilibrada. 
É uma equipa que defensivamente se organiza de forma zonal e pressionante. Quando não tem a bola procura de imediato recuperá-la subindo as suas linhas de pressão com coberturas permanentes e mantendo a equipa o mais compacta possível. 
A sua linha de 4, encurta quando a equipa pressiona no meio campo adversário  mantendo as distâncias entre os sectores reduzida. Jogam sempre em função da posição da bola e dos companheiros. 

Ofensivamente e nas transições opta na grande maioria das vezes por acções onde a velocidade de deslocamento dos jogadores é alta o que pressupõe à partida um maior acumular de erros, mas tal não significa que a equipa não sabe o que faz e que não coloca em campo todo um manancial de conceitos tácticos que são treinados. 

Podemos discutir conceitos e até dizer que gosto mais de um do que de outro, mas futebol é arte, é cultura e como arte e cultura que é assenta muito da sua beleza na diversidade daqueles que a praticam e na diversidade das ideias de jogo daqueles que comandam as equipas. Dizer-se que um treinador e uma equipa "respeitam" o jogo e que um outro já não o faz, só porque não joga dentro dos nossos padrões parece-me uma ideia muito redutora.

Ficam aqui alguns exemplos do que atrás referi:






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