Blogues

Mantenha-se atualizado com as últimas opiniões, análises e artigos sobre todos os aspetos do treino e jogo.
A Wicoach traz-lhe as novidades dos melhores bloggers do mundo do futebol.

Tue, 10 Oct 2017 20:29:14
42

McEachran. O condutor do sonho inglês.

A geração do novo século faz sonhar todo um povo que em Inglaterra anseia pelo regresso aos triunfos internacionais da selecção dos três leões.

Enquanto todas as atenções estão centradas nos fantásticos Phil Foden, Jadon Sancho e Angel Gomes, há um miúdo frazino no meio campo que encanta ainda bastante mais todos quanto os que lhe entendem o jogo. George McEachran não é muito potente fisicamente, não é forte, nem tão pouco alto. Fisicamente tem um perfil que até à tão pouco era desdenhado no país que inventou o futebol.

Tem porém tudo o que mais importa para ter impacto no jogo. Um binómio qualidade de decisões / capacidade técnica que impressiona, e faz toda a sua equipa girar ao seu redor, e jogar! Dos seus pés e decisões saem bolas sem fim para dentro da estrutura adversária, progride quando há espaço, atrai, liga de forma vertical, e mesmo quando o espaço escasseia, tem sempre ideias ofensivas. A facilidade com que coloca os colegas em posição de poder criar perigo tornam-o uma das maiores promessas mundiais entre os jogadores que ligam todo o jogo ofensivo.

Não houve top de maiores promessas no Mundial sub 17 que contemplasse a presença de McEachran. O tempo provará o erro.

 

George McEachran from Videos para “Lateral esquerdo” on Vimeo.

Tue, 15 Oct 2019 19:52:45
70

Ucrânia 2 – 1 Portugal: Jogo interior ou falta de soluções ofensivas?

No rescaldo da derrota de Portugal por 2-1 na Ucrânia, Fernando Santos afirmou que a selecção nacional abusou muito do jogo interior e que não tinha sido isso que foi trabalhado durante as sessões de treinos.

“O jogo tornou-se complicado. Entrámos bem, com um par de oportunidades, eles foram lá e fizeram o golo. Tivemos um período menos bom, porque eles seguram bem a bola. Mas a equipa procurou reagir e foi para cima, mas houve situações em que não estivemos tão bem. Mas, sempre que a Ucrânia foi lá, tivemos dificuldades. Abusámos demasiado do jogo interior e não foi isso que trabalhámos, porque o Guedes até entrou para se jogar mais pelas linhas”

Analisando o jogo, podemos constatar, com dados do Instat, que dos 635 passes feitos, 567 foram eficazes. Sendo que 499 foram em ataque posicional. Portugal fez 28 passes para zona de finalização e muitos deles através de cruzamentos quando existiam melhores opções para darem seguimento às jogadas. 31 cruzamentos e apenas 9 chegaram a jogadores portugueses.

Dos 499 passes em ataque posicional, podemos destacar os 100 no corredor esquerdo do meio-campo ofensivo, os 139 no corredor direito e apenas 64 no corredor central. Números que contrariam a ideia de que Portugal abusou no jogo interior, até porque a Ucrânia não permitiu que isso fosse possível. Muito competência no momento defensivo mas também com bola a saberem controlarem os momentos do jogo e a circularem para zonas fora da pressão portuguesa.

Portugal insistiu nos cruzamentos para uma zona onde esteve sempre em inferioridade numérica e apenas com Ronaldo para fazer a diferença, perante o posicionamento de 6/7 jogadores ucranianos dentro da grande área. Muito jogo lateral de Portugal que mesmo com a entrada de João Félix e Bruno Fernandes na 2ª parte não conseguiu procurar outras soluções sem ser cruzamentos, apenas de forma pontual e que curiosamente criaram mais perigo do que os 31 cruzamentos que Portugal fez durante toda a partida.

O posicionamento mais central de Bernardo Silva no segundo tempo foi importante para a equipa ter mais bola e conseguir criar com mais critério mas ainda assim são evidentes as dinâmicas colectivas, com os jogadores a procurarem um jogo mais em largura e de cruzamentos para a referência ofensiva, Ronaldo, que esteve sempre muito desapoiado durante todo o encontro.

Bruma também entrou bem na partida e conseguiu desequilibrar no corredor esquerdo, o lance da grande penalidade surge depois de uma iniciativa individual e já perto do fim é o extremo português que descobre Guerreiro dentro da área. Um lance que demonstra que o jogo interior funcionou quando foi utilizado da melhor maneira.

No momento defensivo, muitas debilidades na organização portuguesa. O lance do segundo golo é revelador da facilidade com que a Ucrânia entrava no bloco de Portugal. Linha defensiva mal organizada, Pepe a fixar os apoios e “criar” a linha de passe para o golo da Ucrânia. Mykolenko tem espaço para cruzar e meter a bola no lado contrário onde aparece Yarmolenko sem a oposição de Guerreiro para fazer o 2-0

A qualidade com bola da Ucrânia foi evidente durante toda a partida mas este lance demonstra que mesmo com 10 jogadores, a selecção orientada por foi superior. Quase 1 minuto de troca de bola no seu meio-campo ofensivo. Portugal com dificuldades no momento de pressão. Equipa pouco compacta, passiva e sem capacidade para pressionar colectivamente. Estímulos colectivos de pressão pouco identificados numa altura em que Portugal tinha de ter bola e procurar o golo do empate.

Portugal não perde o encontro na Ucrânia por insistir no jogo interior mas sim pelo excessivo jogo lateral, sem apresentar soluções de um futebol mais apoiado com soluções entre linhas (Bruno Fernandes e João Félix podiam oferecer esta solução, apesar da maneira competente como a Ucrânia sobrecarregou esse espaço com as duas linhas juntas) e uma grande passividade defensiva, nomeadamente nos momentos de transição.

O conteúdo Ucrânia 2 – 1 Portugal: Jogo interior ou falta de soluções ofensivas? aparece primeiro em ProScout.

Fri, 20 Sep 2019 11:19:16
51

ESPECIALIZAÇÃO PRECOCE E O ABANDONO PREMATURO DA PRÁTICA DESPORTIVA

Quando se fala em especialização precoce, pretende-se, obviamente, afirmar que o treino acontece antes do tempo próprio, por isso, de uma forma prematura. Assim, quando falamos de treino precoce, referimo-nos a um treino prematuramente especializado e não a todo o processo de preparação desportiva iniciado em idades baixas, independentemente da orientação, dos conteúdos e da metodologia no treino.

Começar cedo numa preparação desportiva para uma determinada modalidade não significa, necessariamente, começar precocemente, pois a preocupação generalizada de iniciar a preparação mais cedo revela-se positiva, no sentido em que a preparação desportiva deve ser um processo permanente de muitos anos tendo sempre em conta as fases de desenvolvimento motor e cognitivo da criança/jovem.

Imagem 1 – Pirâmide Desportiva

Sucintamente e interpretando a pirâmide desportiva, na etapa de iniciação desportiva (aprox. entre os 7 e os 11 anos), a prática desportiva deve caracterizar-se por atividades variadas, multidesportivas, (modalidades individuais e coletivas), recorrendo a diferentes formas de exercício físico.

Na etapa de orientação desportiva (aprox. entre os 10-11 e os 13-14 anos), a prática desportiva já incide num número mais restrito de determinadas modalidades para as quais os jovens praticantes manifestam reconhecidas capacidades. Pode ser uma etapa entendida como uma pré-especialização, apresentada na forma de treino desportivo, entendido como meio indispensável para o acesso à participação nas competições estruturadas e mais exigentes. Considera-se, em perspetivas de desenvolvimento, a parte inicial e a mais importante da preparação desportiva numa qualquer modalidade.

Por fim, a especialização desportiva (aprox. entre os 15-16 e os 35-36 anos para a maioria das modalidades desportivas), constitui a última etapa do processo de formação desportiva. Os objetivos de rendimento da prestação desportiva superam os de formação e desenvolvimento. Nesta etapa, o treino desportivo é encarado como um processo especializado com foco na forma desportiva e na performance do jovem praticante na exigente competição.

Mesmo respeitando todas as, supramencionadas, etapas, existem vários casos de especialização precoce que podem ter origem nas seguintes causas:

Como consequências a esta especialização precoce, os jovens praticantes, não atingem os rendimentos esperados quando submetidos a etapas de elevadas prestações desportivas, diminuem o tempo de atividade desportiva de alto nível e podem, até, nem chegar a essas fases, esgotando prematuramente a sua capacidade de prestação, abandonando o treino e a carreira desportiva mais cedo.

Quais os fatores que determinam o abandono prematuro da prática desportiva?

Pois, nos tempos que correm, até podemos dizer que, a prática desportiva através de um videojogo poderá ser um dos fatores determinantes, contudo, eis os mais frequentes:

Em jeito de conclusão, o processo de formação desportiva pode durar cerca de 10 anos, sendo que, não vale a pena ter pressa em especializar precocemente tendo em vista um mais rápido rendimento desportivo, pois não se pode fazer um “campeão” de um praticante que chegou a adulto sem um desenvolvimento progressivo, variado e completo de todas as suas funções, estruturas e aptidões. À prática desportiva espera-se que estejam associados os seguintes pressupostos:

 

Referências Bibliográficas

Almeida, A. & Monteiro, J. (2001). Desporto – Blocos 1/2/3. Porto: Edições ASA.

Jaspers, A., Brink, M., Probst, S., Frencken, W., & Helsen, W. (2016). Relationships Between Training Load Indicators and Training. Sports Med , 16.

Lima, T. (1987), “Desenvolvimento Desportivo e Desporto para Jovens”, revista Horizonte 2 (9), pp. 21-25, Lisboa.

Marques, A. (1985), “A Carreira Desportiva de um Atleta de Fundo”, revista Horizonte, 2 (9), pp. 84-89, Lisboa.

Sobral, F. (1988), O Adolescente Atleta, Horizonte de Cultura Física, Lisboa

Windt, J., & Gabbett, T. J. (2016). How do training and competition workloads relate to injury? The workload-injury aetiology model. Br J Sports Med .

Professor / Treinador André Santiago

UM DOIS TREINO

Thu, 08 Aug 2019 19:32:00
58

Quando eu crescer...

Dia-Criancas-Carreira-Sonhos-2016-NOVAREJO.jpg

      Falo tanto e tantas vezes de futebol que por vezes me esqueço da verdadeira beleza do mesmo. 
    Sei que o futebol é uma realidade completamente distinta do restante e, isso verifica-se com a quantidade de gente e valores que move em seu redor. Será por isso mesmo que muitas das vezes nos esquecemos de desfrutar dos momentos únicos e maravilhosos que presenciamos quando acompanhamos o atleta A, B ou C, seja por ser nosso filho(a), amigo(a), jogador(a) preferido(a) ou o homem/mulher dos nossos sonhos!
     Numa dessas conversas que tenho frequentemente ouvi de alguém que lidava diariamente com o meu trabalho algo do género "esta época foi espetacular e só te tenho a agradecer pela oportunidade de estar tão próximos dos miúdos (leia-se - dos meus miúdos), foi algo de especial pois, consegui conhecê-los de outra forma e ver e aprender com as atitudes especiais, que eles têm uns com os outros e que me fazem também refletir". E é mesmo isto...
   Tantas são as vezes que queremos e exigimos dos miúdos algo mais, como uma maior superação, uma maior concentração, uma margem de erro mínima, um sem fim de critérios para que sejam melhores aqui e ali. Até aí tudo bem, desde que não seja desmesurado até concordo! Mas e o lado deles? Onde fica o espaço de diversão e a margem de erro que deveriam ter para aprender e melhorar? Onde fica aquela 1h30m que deveriam ter para jogar com os colegas e aprender por si próprios o valor e sacrifício de trabalhar em equipa, de se superar constantemente para querer ser o melhor, de saber o quanto dói uma derrota e ter de chegar à escola no primeiro dia da semana e não ouvir falar de outra coisa que não seja isso pois, naquele momento, só aquilo lhes importa, alguém venceu e alguém perdeu. Como pode um Treinador por um jogador ter errado algo, "rebentá-lo" ao ponto de aos 5 minutos de jogo já o ter substituído porque não conseguiu fazer isto ou aquilo? Como pode um Pai chatear-se com o seu filho porque não conseguiu fazer aquele remate que daria aquele golo importantíssimo para a equipa? Ele tentou e estava só a fazer o que lhe dava prazer, até àquele momento...


    No fundo, esquecemo-nos cada vez mais que no nosso tempo, jogávamos na rua sem que nenhum pai ou treinador nos dissesse o que fazer. Não tínhamos medo de errar e experimentávamos fazer isto e aquilo porque queríamos melhorar o que achávamos que não éramos tão bons! E se errávamos, tínhamos os mais velhos a dar-nos na cabeça e um "não inventes pá" e um acumulado de palavrões até chegar a um "na próxima vais para a baliza" e era através disso que tínhamos de aprender com os erros e de lidar à nossa maneira dentro do tempo que precisássemos para enxergar isso. 
      Com tanta sede de vitória passa-nos ao lado que muitas das vezes vamos ouvir um "pai quando eu crescer quero ser médico" ou outra profissão qualquer e que o que está realmente em causa é o futuro de um menino e que, como em tudo na vida, precisa de deixar de gatinhar e passar a andar, futuramente correr e ser livre. Esse menino de quem esperamos o melhor remate da sua vida ou aquela finta espetacular precisa de perder para aprender o sabor da vitória! 
     A verdade é que o Futebol é um Desporto de inclusão e nesse sentido as crianças irão aprender certos valores que lhes serão claramente uma mais valia no seu futuro quer seja pessoal, profissional ou social. Qualquer um que tenha participado como atleta numa equipa de futebol terá com toda a certeza histórias de uma época e aposto (com muitas certezas) que nem terão sido campeões nesse ano e talvez nem perto! Porque assim é o nosso crescimento, feito de aprendizagens e momentos marcantes que nos levam a escolher o nosso caminho. Talvez, também por isso, quem pratica ou praticou futebol saberá o valor de trabalhar em equipa e a quantidade de sacrifícios necessários para um bom trabalho de equipa. Ou, talvez por isso mesmo, saberá que conversas de balneário entre parceiros são AS  CONVERSAS DE BALNEÁRIO e o que se conversa no balneário fica no balneário.


    São estes valores fundamentais que irão modelar a nossa personalidade e a forma como iremos agir no futuro quer a nível profissional ou social certo? Certo! Então deixemo-los crescer com os seus erros, apoiemos mais vezes e critiquemos menos. Quando criticarmos que seja de forma assertiva e construtiva para ajudar mais e prejudicar menos! Que nas suas quedas os deixemos cair mas os ajudemos a levantar porque é essa a função do educador! Que nos foquemos mais no que é positivo e no esforço que os vemos a colocar em algo, no quanto essa criança quer algo para ver também o bem dos seus colegas de equipa e passemos a dar maior valor a isso. Que aproveitemos os seus sorrisos e as suas gargalhadas e lhes ensinemos como o golo é um momento de explosão de alegria e delírio e deve ter um festejo condizente ao momento.
    Porque quando chegar o momento em que a criança/adolescente queira ser outra profissão qualquer, saberemos que nunca lhes retirámos a ilusão de ser jogador de futebol nem os privámos de serem felizes durante o tempo em que quiseram estar a fazer outra coisa qualquer que não fosse estar enfiado numa qualquer divisão agarrado ao telemóvel. 
E o quanto é importante sonhar...

" Tudo o que um sonho precisa para ser realizado é de alguém que acredite que ele pode ser realizado." - Roberto Shinyashiki.

Ricardo Carvalho
Thu, 15 Nov 2018 12:25:51
29

Fair Play e a formação esportiva

Fair Play e a formação esportiva

Respeito, ética, empatia e reciprocidade acima de tudo no esporte.

O Esporte é uma ferramenta que influencia o comportamento humano. A emoção causada por ele influencia diretamente na capacidade emocional e intelectual dos envolvidos, atuando no comportamento e postura dos seres humanos. Isso acontece porque o esporte é um fenômeno que mexe com razão e emoção de uma forma intensa. Uma forma encontrada para balancear isso foi adoção do Fair play no esporte.

O ‘Fair play’ é uma filosofia adotada no meio esportivo que está diretamente vinculada à ética no jogo. É o jogar limpo, jogar justo, ter espírito esportivo.

O objetivo é estimular que os praticantes joguem sem violência, de maneira justa, sem prejudicar intencionalmente seus adversários e, não menos importante, dentro das regras da competição desportiva.

A expressão vem desde os Jogos Olímpicos de 1896, quando o Barão Pierre de Coubertin disse a seguinte expressão:

 “Não pode haver jogo sem fair play. O principal objetivo da vida não é a vitória, mas a luta”

Essa expressão valoriza o jogo limpo, o respeito, a empatia e a reciprocidade a seus adversários, mostrando que eles também são parte importante do jogo em si assim como você. Ela ainda transmite a ideia de que você precisa se empenhar e competir conforme as regras, ou será desclassificado. Hoje em dia inclusive é comum ver esse espírito de Fair Play sendo difundido pela sociedade em geral, como uma forma de valorizar ideais universais como um padrão de comportamento ético social e moral, por exemplo.

Só que ao contrário do que muita gente acha, o Fair Play não consta oficialmente nas regras oficiais de nenhum esporte. Nas regras do Futebol escritas pela FIFA por exemplo não há nenhum texto explicitando que, caso um jogador se machuque durante o jogo o adversário precisa colocar a bola para fora para que o jogador machucado seja atendido. O que há é um acordo implícito entre os esportistas, mas que nem sempre acaba sendo respeitado. E aí entramos na discussão sobre o Fair Play: existe mesmo?

GOLEAR OU NÃO NA FORMAÇÃO

 Falta de respeito ou respeito máximo ao adversário? Eis a grande questão.

A ideia de escrever sobre o Fair play aqui surgiu de uma discussão que participei essa semana em um grupo do Facebook que faço parte, o ‘Artigos científicos em Futsal’. Nessa postagem havia uma imagem com um placar de um jogo entre crianças na Alemanha que ficou 86×0 e a pergunta:

“Na sua opinião, faltou respeito (Fair play) ou faz parte do jogo?”

Na minha opinião, não faltou respeito e golear faz parte do jogo.

Defendo o fato de que se pudesse ganhar o jogo de 100, que fosse. Para mim, falta de respeito é parar de fazer gols, mostrando ao adversário que não estamos ganhando de mais porque não queremos. E digo isso com a tranquilidade de quem já goleou e foi goleado. Você menosprezar o seu adversário é a pior das ações que você pode tomar enquanto esportista ou mesmo em sua vida normal.

Mas, nesta discussão, pude ver boas ações e opções tomadas por outros treinadores para valorizar o esforço do adversário. Trocar o time e dar minutos para aqueles que jogam pouco tempo, testar alguns conceitos que você quer ver seu time praticando, deixar o adversário colocar mais jogadores em campo foram algumas citadas e que eu acabei achando válidas. Nós, como formadores que somos, antes de sermos treinadores, temos que ter essa preocupação com a conduta de nossos atletas em situações como essas. Como meu jogador vai se comportar quando estiver ganhando um jogo de goleada? E como ele vai se comportar em uma situação de derrota por goleada?

Se eu somente valorizo a vitória, como vou cobrar dos meus atletas que eles saibam se comportar quando estiverem perdendo?

Tentei procurar informações sobre o jogo na Alemanha e o máximo que encontrei foi uma nota publicada no site Freie Pesse, dizendo que o time derrotado fez tudo errado na defesa e que não conseguiu jogar, enquanto seus adversários acertaram tudo. Foram 40 gols no primeiro tempo e 46 gols marcados no segundo tempo.

Diante desse fato, fica o questionamento: será que ao invés de respeito ou falta de respeito, eu não posso ter sofrido uma goleada pelo fato do meu time estar em um dia extremamente ruim?

GOLEAR, SER GOLEADO FAZ PARTE DO JOGO.

O que não é negociável é o Fair play. E nunca vai ser.

86×0 nem é a maior goleada do futebol mundial.

A maior goleada do futebol mundial aconteceu em 2002, em jogo válido pelo campeonato nacional de Madagascar, na África: 149×0 para o Adena sobre o Olympique L’Emyrne. Entretanto, esse jogo não é reconhecido oficialmente pela FIFA, já que os jogadores do Olympique fizeram vários gols contras em protesto por sucessivos erros de arbitragem contra a equipe. A FIFA, mesmo não tendo o Fair play escrito nas regras oficiais do Futebol, promove o comportamento ético desde a Copa de 1986, após o gol de mão de Maradona contra a Inglaterra. A entidade, desde 1997, organiza uma semana de seu calendário internacional junto das Confederações com atividades que realcem a importância do Fair play dentro e fora de campo.

No caso do Futsal, a maior goleada que se tem registro é de uma vitória do Brasil sobre o Timor Leste por 76×0. A partida foi válida pelos Jogos da Lusofonia e Timor Leste já havia perdido para Portugal por 56×0 antes no mesmo torneio. Entretanto, lendo notícias sobre o jogo, não há relatos de agressões por parte dos jogadores de Timor Leste, mesmo com o placar. Há relatos de reconhecimento da superioridade técnica dos jogadores brasileiros e elogios quanto a postura dos mesmos, sem menosprezá-los em nenhum momento.

Em outro episódio envolvendo goleadas, talvez a mais famosa em tempos mais recentes, os 7×1 da Alemanha sobre o Brasil na semifinal da Copa do Mundo do Brasil em 2014, o capitão alemão Philip Lahm, disse na época:

“No intervalo, nós conversamos sobre continuar jogando apropriadamente e mostrando respeito. Todo mundo no time tomou aquela atitude no segundo tempo. Nós não queríamos nos exibir ou ridicularizar os adversários. Se acabou com uma vantagem maior, não era tudo o que queríamos. Nosso objetivo era mostrar respeito aos nossos rivais e aos fãs”

No intervalo a Alemanha já ganhava do Brasil por 5×0. E, mesmo com os alemães não acreditando no que estava acontecendo, eles optaram por manter a postura profissional e seguir jogando em respeito à Seleção brasileira e acabaram aplicando a maior goleada sofrida pelo Brasil em sua história.

E novamente em nenhum momento vimos qualquer ato de violência ou desrespeito entre as equipes. Tanto a Alemanha como o Brasil seguiram jogando de forma limpa até o fim e no final venceu a melhor equipe.

Isso só reforça o quanto o respeito e a empatia ao seu adversário devem ser sempre valorizados independente de qualquer vitória ou derrota. E reforça ainda mais o que nós, formadores, devemos trabalhar o Fair play sim na formação com nossos atletas. A nossa postura em quadra ou campo diz e reflete muito em quem somos fora dela também, independente da faixa etária.

O Fair play é o código de ética implícito do esporte que pode ser totalmente adaptado para a nossa sociedade. Seus valores podem e devem ser trabalhados à exaustão com nossos atletas durante o seu processo formativo pois a influência dos mesmos ocorrerá tanto na vida esportiva quando no pessoal. Sem o Fair play, o esporte perde a sua alegria e ações de caráter duvidoso passarão a dominar as ações, podendo causa o fim do fenômeno esportivo no mundo. Assim, o trabalho dos valores éticos e morais do esporte devem ser defendidos por todas as pessoas envolvidas nele.

Se você apresentar o devido respeito ao adversário, jogando de maneira ética, limpa, correta, valorizando o esforço dele, o placar do jogo será algo sempre secundário.

O conteúdo Fair Play e a formação esportiva aparece primeiro em Bom Futebol.

Fri, 06 Apr 2018 11:02:00
50

LIVERPOOL - SERÁ CAOS OU ORGANIZAÇÃO?

salah-everton-goal-640x384.jpg


SERÁ QUE CONSEGUIR ORGANIZAR UMA EQUIPA COMO A DO LIVERPOOL DÁ MUITO TRABALHO, OU É PURA SORTE?


Muito ou pouco se falou do jogo entre o Liverpool e o Manchester City. Duas concepções de jogo e duas ideias de jogo bem diferentes. Para o caso não interessa estarmos a falar sobre essas diferenças. O que me interessa, tem a ver com a definição que muitos dão aos conceitos de ambos os treinadores.  
Do lado do City é a inteligencia, a paciência que predomina. Do outro lado o jogo é caracterizado como sendo intenso e caótico.
Como me interesso muito por futebol e conheço ligeiramente a equipa de Kloop, fui ao dicionário ver o que significa a palavra caos.


O que é o Caos:


Caos significa desordem, confusão e tudo aquilo que está em desequilíbrio

Teoria do Caos:
Trata-se do princípio que afirma que uma pequena alteração ou mudança no início de um evento, no decorrer deste processo, transforma-se em consequências desproporcionais e imprevisíveis.

Posto isto a minha intervenção vem no sentido de esclarecer que para mim a equipa do Liverpool é tudo menos desorganizada, confusa e desequilibrada. 
É uma equipa que defensivamente se organiza de forma zonal e pressionante. Quando não tem a bola procura de imediato recuperá-la subindo as suas linhas de pressão com coberturas permanentes e mantendo a equipa o mais compacta possível. 
A sua linha de 4, encurta quando a equipa pressiona no meio campo adversário  mantendo as distâncias entre os sectores reduzida. Jogam sempre em função da posição da bola e dos companheiros. 

Ofensivamente e nas transições opta na grande maioria das vezes por acções onde a velocidade de deslocamento dos jogadores é alta o que pressupõe à partida um maior acumular de erros, mas tal não significa que a equipa não sabe o que faz e que não coloca em campo todo um manancial de conceitos tácticos que são treinados. 

Podemos discutir conceitos e até dizer que gosto mais de um do que de outro, mas futebol é arte, é cultura e como arte e cultura que é assenta muito da sua beleza na diversidade daqueles que a praticam e na diversidade das ideias de jogo daqueles que comandam as equipas. Dizer-se que um treinador e uma equipa "respeitam" o jogo e que um outro já não o faz, só porque não joga dentro dos nossos padrões parece-me uma ideia muito redutora.

Ficam aqui alguns exemplos do que atrás referi:






Outros Blogues

Tenha acesso aos últimos posts dos blogues de todos os treinadores.