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A Wicoach traz-lhe as novidades dos melhores bloggers do mundo do futebol.

Tue, 10 Oct 2017 20:29:14
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McEachran. O condutor do sonho inglês.

A geração do novo século faz sonhar todo um povo que em Inglaterra anseia pelo regresso aos triunfos internacionais da selecção dos três leões.

Enquanto todas as atenções estão centradas nos fantásticos Phil Foden, Jadon Sancho e Angel Gomes, há um miúdo frazino no meio campo que encanta ainda bastante mais todos quanto os que lhe entendem o jogo. George McEachran não é muito potente fisicamente, não é forte, nem tão pouco alto. Fisicamente tem um perfil que até à tão pouco era desdenhado no país que inventou o futebol.

Tem porém tudo o que mais importa para ter impacto no jogo. Um binómio qualidade de decisões / capacidade técnica que impressiona, e faz toda a sua equipa girar ao seu redor, e jogar! Dos seus pés e decisões saem bolas sem fim para dentro da estrutura adversária, progride quando há espaço, atrai, liga de forma vertical, e mesmo quando o espaço escasseia, tem sempre ideias ofensivas. A facilidade com que coloca os colegas em posição de poder criar perigo tornam-o uma das maiores promessas mundiais entre os jogadores que ligam todo o jogo ofensivo.

Não houve top de maiores promessas no Mundial sub 17 que contemplasse a presença de McEachran. O tempo provará o erro.

 

George McEachran from Videos para “Lateral esquerdo” on Vimeo.

Tue, 21 Jan 2020 22:11:40
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Jesualdo Ferreira: Perfil tático e encaixe no Santos

Jesualdo Ferreira é um dos treinadores mais bem-conceituados em Portugal. Com quase 20 anos de carreira, assume agora um projeto bem interessante no Brasil: o comando técnico do Santos.

Contexto

Tendo já treinado os 3 grandes, foi no FC Porto que se destacou: 3x campeão nacional, 2x vencedor da Taça de Portugal e 1x vencedor da Supertaça. Foi também bem sucedido no Egito onde foi campeão pelo Zamalek e mais recentemente no Catar, onde venceu um campeonato e uma Taça.

Jesualdo chega agora a um Santos que ficou no segundo lugar do Brasileirão em 2019, comandado por Sampaoli. A época foi muito boa para o Peixe, que passou a maior parte do campeonato no top-4, e praticava um futebol muito atrativo com o argentino.

O técnico português não vai encontrar as mesmas condições financeiras que encontrou, por exemplo, Jorge Jesus no Flamengo. O Santos tem algumas dificuldades financeiras, e o próprio presidente admitiu não fazer investimentos muito avultados.

Jesualdo Ferreira – Perfil tático

O professor aprecia mais um 4-3-3, mas não dá muita prioridade ao sistema em si, admitindo que o mais importante são as dinâmicas criadas pelos jogadores.

Jesualdo valoriza um 6 de qualidade, sendo uma das peças mais importantes das suas equipas. Dá equilíbrio defensivo à equipa, permite as subidas de laterais e médios e é muito importante na recuperação da posse de bola e no sub-momento de impedir a criação. No FC Porto teve Paulo Assunção, que era um 6 de alta qualidade.

No seu 4-3-3, os extremos não podem ser extremos puros: têm de ser 3 avançados, que saibam jogar por dentro e por fora. Por exemplo, no FC Porto Lisandro López tanto aparecia por fora, na linha, como aparecia em zonas de finalização.

Jesualdo adapta bem as suas ideias ao contexto que encontra. No FC Porto tinha avançados de qualidade como Quaresma, Tarik Sektioui, Lisandro López, Hulk ou Falcão. Enfim, com tanta matéria prima o técnico já explicou que o seu objetivo era aproveitar ao máximo as qualidades ofensivas da sua equipa.

Já no Al-Saad, Jesualdo encontrou um Xavi em fim de carreira e teve de ser inteligente com aquilo que pedia ao espanhol de forma a retirar as suas qualidades sem o prejudicar a nível físico. Xavi jogava praticamente como 10, com funções de organizar jogo, acelerar ou baixar o ritmo do jogo, e fazer o último passe aproveitando a sua qualidade na definição. Como não lhe pedia quase funções defensivas nenhumas, Jesualdo teve de equilibrar a equipa atrás e juntava Woo-Young Jung a Gabi para formar quase um duplo pivot defensivo.

Mas as ideias base de Jesualdo mantêm-se, vá para onde vá: posse de bola, triangulações, vários apoios e dinâmicas ofensivas.

Aspetos ofensivos

Na construção no meio campo é habitual ver nas equipas de Jesualdo um duplo pivot. Quando joga com um 6, como no FC Porto, víamos por norma Raúl Meireles juntar-se a Fernando ou Paulo Assunção para construir a dois. Já no Al-Saad Woo-Young Jung jogava lado a lado com Gabi e a equipa construía dessa forma. Os processos eram semelhantes aos do FC Porto, mas aqui devia-se à questão defensiva de Xavi, mencionada anteriormente.

Jesualdo valoriza muito um 6, mas o seu médio mais ofensivo tem muita importância nas dinâmicas ofensivas criadas. O técnico, no FC Porto, dava liberdade a Lucho para subir e funcionar como 10 na organização e definição de jogo; podia descair para a meia esquerda para fazer triangulações com Cristian Rodríguez; explorar o half-space para causar desequilíbrios; e podia aparecer também em zonas de finalização. No Al-Saad era Xavi que tinha estas funções, mais com mais limitações devido à idade. Era o médio mais ofensivo e jogava sempre perto dos avançados com objetivo de organizar jogo e fazer o último passe. Não fazia tantas movimentações como Lucho, mas fica a ideia que Jesualdo valoriza ter um médio com este tipo de características ofensivas.

Lucho era uma peça importante no FC Porto de Jesualdo

Jesualdo procura que os seus avançados façam várias movimentações de ataque à profundidade. No FC Porto a bola era-lhes colocada diretamente através de Helton ou por via de passes verticais. Mais uma vez a questão de explorar as qualidades dos jogadores: Hulk, Lisandro e Tarik são alguns exemplos de avançados que procuravam também jogar nas costas dos defesas para procurar as desmarcações. No Al-Saad isto não acontecia tantas vezes, mas os avançados tinham essa capacidade. Jogadores como Afif, Al-Haydos e Bounedjah eram muito rápidos e atacam bem os espaços.

Com avançados móveis, a frente de ataque tinha liberdade para fazer trocas posicionais de forma a desbloquear a defesa contrária. O objetivo também passava por fazer triangulações e depois colocar a bola em zona de finalização. No FC Porto eram habituais as trocas entre Lisandro e Tarik, com Lucho a ser importante para as triangulações. No Al-Saad era muito frequente ver essas trocas posicionais entre os homens da frente: Bounedjah, ponta de lança, aparecia várias vezes pela esquerda; e Al-Haydos, extremo direito, aparecia pelo meio.

Lisandro López era um dos goleadores do FC Porto

Os laterais no FC Porto subiam um pouco à frente da linha média, mais a servir como apoio e não tanto como extremos. Isto alterava-se dependendo do momento, havia alturas em que era necessário dar largura e aí já era diferente. No Al-Saad era semelhante, mas era mais frequente ver os laterais projetados e os avançados por dentro. Os laterais podiam ficar pela linha média caso os avançados abrissem, um pouco como acontecia no FC Porto.

As equipas de Jesualdo têm habitualmente uma transição ofensiva muito forte. A capacidade de progressão rápida dos laterais e avançados, junto à capacidade de definição dos médios torna a equipa muito forte neste momento.

Aspetos defensivos

No FC Porto, como Jesualdo tinha um 6 de qualidade, por vezes defendia em 4-1-4-1, com os extremos próximos dos médios para potenciar o contra-ataque após a recuperação. Se a equipa quisesse juntar mais o bloco e ser mais compacta, Raúl Meireles e Lucho recuavam para junto do 6 para formar uma linha de 3. No Al-Saad, devido à questão do Xavi, defendia em 4-4-1-1. O sistema em organização defensiva depende muito da intenção e das características individuais dos jogadores. Com base nisso, Jesualdo definia aquilo que pretendia.

Não era habitual ver o FC Porto a fazer uma pressão alta. A defender focava-se mais numa ocupação dos espaços, de forma a recuperar a bola ao intercetar passes ou a limitar as opções de passe adversárias pelo posicionamento.
No Al-Saad era semelhante, Jesualdo apostava na boa ocupação dos espaços como forma de impedir a criação adversária. Mas no Catar já pressionava um pouco mais, tendo as zonas de pressão bem definidas e variando a intensidade da mesma.

Com esta boa ocupação dos espaços, o FC Porto era uma equipa que não concedia muito espaço entre linhas. Procurava também cercar o portador da bola com os médios e/ou laterais para a recuperar rapidamente. Jesualdo atribui muita importância à questão da rápida recuperação da bola, seja através das zonas de pressão ou desta ocupação dos espaços.

Santos

O Santos tem um plantel muito interessante. Houve algumas saídas e algumas entradas para esta época, mas a base da equipa manteve-se. Vamos ver como a equipa jogou em 2019.

Marinho e Soteldo são os dois extremos da equipa, extremos puros. Desequilibram com a velocidade e drible. Sasha é o avançado, que tem capacidade para recuar para o espaço entre linhas, mas também pode aparecer na lateral. Este trio de ataque é muito móvel e procuram várias trocas posicionais para desbloquear as defesas contrárias.

Qualidade de passe de Sanchez e boa desmarcação de Sasha

No meio campo, Pituca e Alison são os médios com mais capacidade para desempenhar funções defensivas. Evandro é um médio completo, que ofensivamente se destaca pelo passe e exploração do espaço para definir. Joga mais por dentro para deixar Soteldo jogar aberto, como gosta. Carlos Sanchez é um dos jogadores mais influentes da equipa. É um médio com grande capacidade de chegada à área, forte na transição, e forte na exploração dos espaços, mas também tem qualidade na colocação de bola.

Os médios criam muitas dinâmicas entre si, e com os avançados. Sanchez combina bem com Marinho à direita, alternando ser ele a abrir e Marinho jogar por dentro. Se o médio centro esquerdo recuar, Soteldo joga mais por dentro dando espaço à subida do lateral. A construção pode ser feita apenas com o médio mais recuado, como um dos médios (sem ser Sanchez) se juntar a ele.

Dinâmica entre Sanchez e Marinho na direita

Na defesa os laterais não têm por hábito subir para funcionarem como extremos, devido às dinâmicas que os médios criam com os avançados. Mas sobem para serem apoios para os médios e avançados.

Os centrais têm boa qualidade de passe, e o Santos é uma equipa que valoriza a posse de bola e a construção desde trás.

É uma equipa que pressiona alto quando o adversário está na primeira fase de construção. No geral fazem uma pressão média/alta dependendo da fase e altura do jogo. Os dois médios juntam-se no processo defensivo, Sanchez fica mais à frente para preparar a transição ofensiva. Os extremos baixam, mas ficam próximos para preparar o mesmo momento.

Como Jesualdo pode encaixar e adaptar as suas ideias

 Jesualdo vai encontrar um plantel interessante, mas vai ter de preparar bem a transição das ideias de um treinador como Sampaoli para as suas.

No ataque, vai encontrar três avançados móveis e que atacam bem o espaço, tal como gosta. No entanto, Marinho e Soteldo não têm por hábito jogar muito por dentro, e isso será algo que Jesualdo certamente trabalhará. Em Sasha tem um avançado interessante, com capacidade para recuar, o que pode dar aso a novas dinâmicas. Mas Jesualdo já mostrou preferir criar essas dinâmicas com um médio, e Sanchez tem capacidades ofensivas muito boas. Pode ser uma espécie de Lucho do Santos, mas com menos qualidade no passe. Com a contratação de Raniel, o técnico ganha um avançado com capacidade de fazer as três posições do ataque, algo que certamente o agradará.

Jesualdo não terá um 6 ao seu estilo no plantel de momento, mas com os treinos pode trabalhar Alison, Pituca e até Jobson para essa função. Evandro é um médio completo, com capacidade para recuar para junto do médio mais defensivo. O meio campo do Santos é dinâmico e não encontrará muitas dificuldades em adaptar-se às ideias de Jesualdo.

Na defesa, saíram Gustavo Henrique e Victor Ferraz. O primeiro era um central de qualidade, com muita segurança com bola nos pés. Jesualdo ainda fica com Lucas Veríssimo, também de qualidade, mas talvez terá de rever as suas opções para o centro da defesa. Com a saída de Ferraz, Madson vai competir com Pará para o lugar de lateral direito.

No geral, a equipa não deve encontrar muitas dificuldades para se adaptar às ideias de Jesualdo. Um futebol de posse, com construção curta, com mobilidade no ataque, são ideais que já estão enraizados no plantel.

Outro aspeto interessante, que o próprio presidente do clube priorizou, é o trabalho de Jesualdo com a formação. O professor sempre fez um bom trabalho com as camadas jovens e devido à situação financeira do Santos, isso é uma prioridade. Da academia já saíram grandes craques como Neymar e Rodrygo. Jesualdo terá à sua disposição uma equipa B que trabalhará para fazer o salto para a equipa principal. Jogadores como Kaio Jorge, Sandry, entre outros, estarão de baixo de olho do professor.

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Fri, 10 Jan 2020 12:11:14
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Futebol de Rua

“O futebol de rua pode, na rua não ser…”  Vítor Frade – Curar o Jogar

 Da coluna semanal do Jornal A Bola “O jogo infinito” de Jorge Valdano surge mais um excelente artigo (publicado a 16 de novembro de 2019) a propósito do talento – “O talento chega em manada” – concretamente sobre a gestão de expetativas, o processo de formação e o processo de afirmação e consequente necessidade de superação.

A minha reflexão* foi despertada pela terceira parte do texto, “Meninos de rua de academia”, na qual Jorge Valdano refere casos de jogadores com caraterísticas únicas e diferenciadas que contribuem para a revitalização do futebol e da imprevisibilidade do jogo. No entanto, Valdano alerta-nos para a formação do futebolista como um processo cada vez mais formal e cada vez mais com a tendência de uniformizar, colocando em perigo os jogadores diferenciados, o talento!

Enquanto treinador, esta tendência tem-me levado a pensar, a questionar, a refletir…

O que fazer para formar jogadores diferenciados? Como promover que cada jogador se expresse na sua individualidade? O que fazer para que o talento continue a alimentar a imprevisibilidade do jogo? O que fazer para revitalizar o futebol, em especial o futebol de formação?

O programa “Futebol Total” do Canal 11, apresentado por Pedro Sousa, com a presença do convidado Luís Freitas Lobo, trouxe para discussão o tema do futebol de rua. Contribuindo assim para esta reflexão. Os presentes no programa focaram dois aspetos sobre este tema: o local/espaço onde é jogado e a autonomia associada.

Relativamente ao local/espaço onde é jogado o futebol de rua está inerente uma grande variedade e diversidade que promove o desenvolvimento de uma elevada adaptabilidade e agilidade corporal (desenvolvimento técnico). Por exemplo, o simples facto do terreno de jogo poder não ser regular contribuiu desde logo para a necessidade de que haja um ajuste permanente da ação técnica. Quanto à autonomia, o futebol de rua possibilita enorme liberdade de expressão e ao mesmo tempo exige que o jogo seja permanentemente pensado por quem o joga (desenvolvimento tático).

Estes pontos fazem do futebol de rua um contexto de desenvolvimento excecional! No entanto, a estes aspetos juntam-se outros dois. Nomeadamente, o elevado número de horas de prática – os autores Gladwell e Coyle nas suas obras (Outliers, 2008, e O código do talento, 2009) referem-se à “regra das dez mil horas” e à “regra dos dez anos”, respetivamente, como elementos fundamentais para o desenvolvimento do talento. Bem como, a atmosfera de grande emotividade que o futebol de rua implica – António Damásio, neurocientista português reconhecido mundialmente, destaca a importância das emoções na aprendizagem.

Ora se no passado o futebol de rua teve um papel preponderante na formação de imensos futebolistas de elite, nos dias de hoje, pela evolução social, esta é uma realidade em extinção. Pelo que a formação dos jovens futebolistas está entregue às escolas de formação e às academias.

Porém, não devemos olhar para este desaparecimento do futebol de rua como algo necessariamente negativo. Devemos antes perceber que aqui reside uma oportunidade para nós, enquanto treinadores de formação, intervirmos, fazermos diferente!

Uma primeira solução passa por levar as crianças e os jovens para a rua. Solução essa que já foi adotada, por exemplo, pelo Ajax – https://maisfutebol.iol.pt/historia/internacional/o-ajax-esta-a-mandar-os-miudos-para-a-rua-literalmente.

No entanto, não tem de ser necessário levar as crianças e os jovens para a rua. Na minha opinião, os treinadores devem ter a capacidade de levar a rua para dentro do treino. Sendo aqui a rua entendida como a sua essência! E a essência do futebol de rua é definida, sobretudo, pelo seu espírito. Espírito esse de grande competitividade e paixão que lhe é conferido pelas chamadas “regras do futebol de rua”.

Para que tal seja possível, isto é, para que a essência e o espírito do futebol de rua estejam presentes no treino, o treinador deve ter a preocupação de que o treino seja jogo (jogado e pensado), deve ser capaz de apimentar o seu treino partindo das tais “regras do futebol de rua” (emotividade) e deve garantir autonomia a quem joga, bem como, um elevado tempo de prática e ainda uma variedade e diversidade de estímulos, por exemplo, treinar em diferentes superfícies (sintético, pelado, relvado, …) ou com bolas diferentes (tamanho, pressão, qualidade, …).

Esta tem sido cada vez mais uma preocupação minha. Acredito que, tomando partido por esta abordagem no treino de crianças e jovens, estarei mais próximo de cumprir aquela que é a minha maior responsabilidade enquanto treinador de formação: fazer do treino o melhor momento do dia!

Assim, no sentido de contribuir para que continuem a surgir talentos diferenciados que garantam imprevisibilidade ao jogo, aos meus olhos podemos estar perante uma solução simples (simples não significa fácil!) que passa fundamentalmente por devolver ao jogador, ao treino e à formação a bola, o jogo, a competitividade, a paixão, …!

“Apesar dos problemas do mundo serem cada vez mais complexos, as soluções permanecem embaraçosamente simples.”

Bill Mollison

*Esta minha reflexão embora despertada pelo artigo de Jorge Valdano, alimentada pelo programa “Futebol Total” do Canal 11 (aqui abro um parêntesis para dar o meu agradecimento e parabenizar a Federação Portuguesa de Futebol pela capacidade que teve para criar um canal televisivo com conteúdos de elevada qualidade que nos mostram o futebol, em especial o futebol português, de uma forma diferente, para melhor!) e pelas minhas experiências e vivências, começou a desenhar-se quando tive o prazer de assistir a uma excelente conferência com o preletor Miguel Lopes (à data treinador adjunto do mister Rui Quinta no SC Espinho e atualmente treinador adjunto na equipa B do Vitória Sport Clube) intitulada de “Futebol de Rua – Contributos para o Futebol de hoje”.

Mon, 20 Jan 2020 17:41:00
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BDC por uma Varanda abaixo

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09/09/2018, uma data que se tornou simbólica por uma aparente mudança no recente paradigma que se instalara no Universo Leonino. Sentia-se um aliviar na recente tensão que atingira a equipa profissional de futebol do Sporting e parecia que o caminho poderia finalmente tornar-se mais claro dali para a frente.


Com um caminho que já se saberia ser bastante difícil de caminhar, o novo Presidente do Sporting Clube de Portugal alimentou o sonho de ser Campeão Nacional durante o seu primeiro mandato à frente do clube, na sua primeira conferência depois de ser eleito com 42,32% de votação.

Talvez aí (ou melhor, quase de certeza), começou um dos erros do seu breve mandato. Depois de tantas temporadas sem ser Campeão Nacional (desde 2001-2002) e de serem alimentados sucessivamente pelo seu antigo Presidente Bruno de Carvalho durante dois mandatos com promessas de um Sporting mais forte e a vencer títulos, este tornou-se um momento fulcral de reflexão e de oportunidade de virar a página.



A verdade é só uma: o Sporting bateu no fundo, ponto final. Por muito que custe ouvir isso, certamente custará ainda mais aos seus adeptos vivenciar e demonstrar aos novos elementos da família aquilo em que o seu clube se transformou hoje.

Este deveria ser o momento de assentar bem os pés na Terra e perceber qual o momento que se vive em Alvalade neste momento. Seria o momento certo para baixar a fasquia e dar espaço para a estabilidade, a mudança e o crescimento acontecerem. Talvez as taças ganhas na época transata tenham camuflado muito daquilo que é o passado recente, mas a verdade é que se sabe que neste momento a distância para os seus rivais está a uma distância já considerável. Muitos concordam quando se diz que o Braga já tem um plantel com um valor semelhante ao do Sporting e isso diz muito sobre aquilo que se está a passar nos Leões.

A mensagem que deveria ter sido claramente passada e seguir a linha de pensamento dos pontos que foram prometidos durante a campanha eleitoral, tais como “No futebol, montar uma estrutura vencedora, com uma equipa coesa e coordenada (…)”e “Coordenação entre equipa de scouting e equipa técnica para a definição de uma política de contratações rigorosa”.



Depois de vários atletas terem rescindido num momento negro da história do Clube conseguiu-se que alguns voltassem atrás com a decisão. A parte mais difícil fora conseguida e daí ficou bem demonstrado o quanto eles queriam jogar no Clube, mesmo depois de terem vivenciado um ambiente tão conturbado e tão pouco dignificante daquilo que são os valores chave do Desporto.

A partir desse preciso momento deveria ter-se criado uma ideia clara daquilo que seria o futuro do Clube e qual o caminho que seria seguido de forma a endireitar-se o clube. No entanto continuam os mesmos problemas dos últimos anos com vários problemas internos (dentro do Universo Sportinguista), uma má planificação de pré-época, uma má abordagem ao mercado e pior que tudo, uma má construção do seu plantel.

Ficamos com a clara perceção que a saída de Bruno Fernandes não se realiza apenas numa tentativa de aproximar os valores aos da saída de João Félix. De outra forma é incompreensível que com ofertas por valores altos e no momento em que o clube se encontra se tenha preferido vender 3/4 atletas em detrimento da venda do Melhor Jogador a atuar em Portugal e que poderia servir como fonte de receita para uma melhor construção do plantel profissional desta época. 

Porquê preparar agora a saída de Bruno Fernandes? Evitar uma desvalorização do atleta numa época antes de Europeu? Depois de se tomar a decisão de manter o atleta até se atingir um valor X, não seria melhor manter o atleta e esperar que a época não seja ainda pior do que a que está a ser neste momento? É que dificilmente conseguirão nesta fase substitutos e reforços para longo prazo.


Desta forma, continuo a achar que o melhor seria um baixar de fasquia. Tentar atingir o 3º Lugar, dar lugar a jovens de valor para uma maior valorização dos ativos em detrimento de atletas por empréstimo ou que dificilmente darão retorno financeiro ao clube e um reforço através de uma prospeção mais efetiva e clara daquilo que é hoje a qualidade do Futebol tanto em Portugal como na Europa.

É fulcral olhar-se para dentro antes de olhar para fora e perceber que, apesar de tudo existem atletas com nível para atuar no plantel sénior sportinguista assim lhe seja dado espaço.

As contratações devem ser bastante mais criteriosas também pois, é incompreensível que se olhe para a constituição do plantel e se percebam lacunas sucessivas nas laterais, na baliza, no centro do terreno e na frente do ataque. Além disso é impensável ter João Palhinha, Daniel Bragança, Rafael Barbosa, Leonardo Ruiz e/ou Dala, para ter tanta incerteza e atletas que dificilmente acrescentarão algum tipo de qualidade e ocuparão um lugar em planteis futuros do clube. Já para não acrescentar a esta lista Matheus Pereira…

É certo que não seria previsível o crescimento de alguns destes atletas, mas é certo que reclamam uma oportunidade para fazer parte do próximo plantel do Sporting.

E com um treinador como Silas que dá valor ao futebol de posse e sem problema em lançar jovens atletas é este o momento de reflexão e de mudança para voltarmos a ter o 3º Grande Português em força e, desta forma, tornar tudo isto um pouco mais competitivo pois, em muito tempo, não me lembra de ter tanta diferença pontual do 1º Classificado para o 3º como nesta época.


Ricardo Carvalho
Thu, 15 Nov 2018 12:25:51
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Fair Play e a formação esportiva

Fair Play e a formação esportiva

Respeito, ética, empatia e reciprocidade acima de tudo no esporte.

O Esporte é uma ferramenta que influencia o comportamento humano. A emoção causada por ele influencia diretamente na capacidade emocional e intelectual dos envolvidos, atuando no comportamento e postura dos seres humanos. Isso acontece porque o esporte é um fenômeno que mexe com razão e emoção de uma forma intensa. Uma forma encontrada para balancear isso foi adoção do Fair play no esporte.

O ‘Fair play’ é uma filosofia adotada no meio esportivo que está diretamente vinculada à ética no jogo. É o jogar limpo, jogar justo, ter espírito esportivo.

O objetivo é estimular que os praticantes joguem sem violência, de maneira justa, sem prejudicar intencionalmente seus adversários e, não menos importante, dentro das regras da competição desportiva.

A expressão vem desde os Jogos Olímpicos de 1896, quando o Barão Pierre de Coubertin disse a seguinte expressão:

 “Não pode haver jogo sem fair play. O principal objetivo da vida não é a vitória, mas a luta”

Essa expressão valoriza o jogo limpo, o respeito, a empatia e a reciprocidade a seus adversários, mostrando que eles também são parte importante do jogo em si assim como você. Ela ainda transmite a ideia de que você precisa se empenhar e competir conforme as regras, ou será desclassificado. Hoje em dia inclusive é comum ver esse espírito de Fair Play sendo difundido pela sociedade em geral, como uma forma de valorizar ideais universais como um padrão de comportamento ético social e moral, por exemplo.

Só que ao contrário do que muita gente acha, o Fair Play não consta oficialmente nas regras oficiais de nenhum esporte. Nas regras do Futebol escritas pela FIFA por exemplo não há nenhum texto explicitando que, caso um jogador se machuque durante o jogo o adversário precisa colocar a bola para fora para que o jogador machucado seja atendido. O que há é um acordo implícito entre os esportistas, mas que nem sempre acaba sendo respeitado. E aí entramos na discussão sobre o Fair Play: existe mesmo?

GOLEAR OU NÃO NA FORMAÇÃO

 Falta de respeito ou respeito máximo ao adversário? Eis a grande questão.

A ideia de escrever sobre o Fair play aqui surgiu de uma discussão que participei essa semana em um grupo do Facebook que faço parte, o ‘Artigos científicos em Futsal’. Nessa postagem havia uma imagem com um placar de um jogo entre crianças na Alemanha que ficou 86×0 e a pergunta:

“Na sua opinião, faltou respeito (Fair play) ou faz parte do jogo?”

Na minha opinião, não faltou respeito e golear faz parte do jogo.

Defendo o fato de que se pudesse ganhar o jogo de 100, que fosse. Para mim, falta de respeito é parar de fazer gols, mostrando ao adversário que não estamos ganhando de mais porque não queremos. E digo isso com a tranquilidade de quem já goleou e foi goleado. Você menosprezar o seu adversário é a pior das ações que você pode tomar enquanto esportista ou mesmo em sua vida normal.

Mas, nesta discussão, pude ver boas ações e opções tomadas por outros treinadores para valorizar o esforço do adversário. Trocar o time e dar minutos para aqueles que jogam pouco tempo, testar alguns conceitos que você quer ver seu time praticando, deixar o adversário colocar mais jogadores em campo foram algumas citadas e que eu acabei achando válidas. Nós, como formadores que somos, antes de sermos treinadores, temos que ter essa preocupação com a conduta de nossos atletas em situações como essas. Como meu jogador vai se comportar quando estiver ganhando um jogo de goleada? E como ele vai se comportar em uma situação de derrota por goleada?

Se eu somente valorizo a vitória, como vou cobrar dos meus atletas que eles saibam se comportar quando estiverem perdendo?

Tentei procurar informações sobre o jogo na Alemanha e o máximo que encontrei foi uma nota publicada no site Freie Pesse, dizendo que o time derrotado fez tudo errado na defesa e que não conseguiu jogar, enquanto seus adversários acertaram tudo. Foram 40 gols no primeiro tempo e 46 gols marcados no segundo tempo.

Diante desse fato, fica o questionamento: será que ao invés de respeito ou falta de respeito, eu não posso ter sofrido uma goleada pelo fato do meu time estar em um dia extremamente ruim?

GOLEAR, SER GOLEADO FAZ PARTE DO JOGO.

O que não é negociável é o Fair play. E nunca vai ser.

86×0 nem é a maior goleada do futebol mundial.

A maior goleada do futebol mundial aconteceu em 2002, em jogo válido pelo campeonato nacional de Madagascar, na África: 149×0 para o Adena sobre o Olympique L’Emyrne. Entretanto, esse jogo não é reconhecido oficialmente pela FIFA, já que os jogadores do Olympique fizeram vários gols contras em protesto por sucessivos erros de arbitragem contra a equipe. A FIFA, mesmo não tendo o Fair play escrito nas regras oficiais do Futebol, promove o comportamento ético desde a Copa de 1986, após o gol de mão de Maradona contra a Inglaterra. A entidade, desde 1997, organiza uma semana de seu calendário internacional junto das Confederações com atividades que realcem a importância do Fair play dentro e fora de campo.

No caso do Futsal, a maior goleada que se tem registro é de uma vitória do Brasil sobre o Timor Leste por 76×0. A partida foi válida pelos Jogos da Lusofonia e Timor Leste já havia perdido para Portugal por 56×0 antes no mesmo torneio. Entretanto, lendo notícias sobre o jogo, não há relatos de agressões por parte dos jogadores de Timor Leste, mesmo com o placar. Há relatos de reconhecimento da superioridade técnica dos jogadores brasileiros e elogios quanto a postura dos mesmos, sem menosprezá-los em nenhum momento.

Em outro episódio envolvendo goleadas, talvez a mais famosa em tempos mais recentes, os 7×1 da Alemanha sobre o Brasil na semifinal da Copa do Mundo do Brasil em 2014, o capitão alemão Philip Lahm, disse na época:

“No intervalo, nós conversamos sobre continuar jogando apropriadamente e mostrando respeito. Todo mundo no time tomou aquela atitude no segundo tempo. Nós não queríamos nos exibir ou ridicularizar os adversários. Se acabou com uma vantagem maior, não era tudo o que queríamos. Nosso objetivo era mostrar respeito aos nossos rivais e aos fãs”

No intervalo a Alemanha já ganhava do Brasil por 5×0. E, mesmo com os alemães não acreditando no que estava acontecendo, eles optaram por manter a postura profissional e seguir jogando em respeito à Seleção brasileira e acabaram aplicando a maior goleada sofrida pelo Brasil em sua história.

E novamente em nenhum momento vimos qualquer ato de violência ou desrespeito entre as equipes. Tanto a Alemanha como o Brasil seguiram jogando de forma limpa até o fim e no final venceu a melhor equipe.

Isso só reforça o quanto o respeito e a empatia ao seu adversário devem ser sempre valorizados independente de qualquer vitória ou derrota. E reforça ainda mais o que nós, formadores, devemos trabalhar o Fair play sim na formação com nossos atletas. A nossa postura em quadra ou campo diz e reflete muito em quem somos fora dela também, independente da faixa etária.

O Fair play é o código de ética implícito do esporte que pode ser totalmente adaptado para a nossa sociedade. Seus valores podem e devem ser trabalhados à exaustão com nossos atletas durante o seu processo formativo pois a influência dos mesmos ocorrerá tanto na vida esportiva quando no pessoal. Sem o Fair play, o esporte perde a sua alegria e ações de caráter duvidoso passarão a dominar as ações, podendo causa o fim do fenômeno esportivo no mundo. Assim, o trabalho dos valores éticos e morais do esporte devem ser defendidos por todas as pessoas envolvidas nele.

Se você apresentar o devido respeito ao adversário, jogando de maneira ética, limpa, correta, valorizando o esforço dele, o placar do jogo será algo sempre secundário.

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Fri, 06 Apr 2018 11:02:00
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LIVERPOOL - SERÁ CAOS OU ORGANIZAÇÃO?

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SERÁ QUE CONSEGUIR ORGANIZAR UMA EQUIPA COMO A DO LIVERPOOL DÁ MUITO TRABALHO, OU É PURA SORTE?


Muito ou pouco se falou do jogo entre o Liverpool e o Manchester City. Duas concepções de jogo e duas ideias de jogo bem diferentes. Para o caso não interessa estarmos a falar sobre essas diferenças. O que me interessa, tem a ver com a definição que muitos dão aos conceitos de ambos os treinadores.  
Do lado do City é a inteligencia, a paciência que predomina. Do outro lado o jogo é caracterizado como sendo intenso e caótico.
Como me interesso muito por futebol e conheço ligeiramente a equipa de Kloop, fui ao dicionário ver o que significa a palavra caos.


O que é o Caos:


Caos significa desordem, confusão e tudo aquilo que está em desequilíbrio

Teoria do Caos:
Trata-se do princípio que afirma que uma pequena alteração ou mudança no início de um evento, no decorrer deste processo, transforma-se em consequências desproporcionais e imprevisíveis.

Posto isto a minha intervenção vem no sentido de esclarecer que para mim a equipa do Liverpool é tudo menos desorganizada, confusa e desequilibrada. 
É uma equipa que defensivamente se organiza de forma zonal e pressionante. Quando não tem a bola procura de imediato recuperá-la subindo as suas linhas de pressão com coberturas permanentes e mantendo a equipa o mais compacta possível. 
A sua linha de 4, encurta quando a equipa pressiona no meio campo adversário  mantendo as distâncias entre os sectores reduzida. Jogam sempre em função da posição da bola e dos companheiros. 

Ofensivamente e nas transições opta na grande maioria das vezes por acções onde a velocidade de deslocamento dos jogadores é alta o que pressupõe à partida um maior acumular de erros, mas tal não significa que a equipa não sabe o que faz e que não coloca em campo todo um manancial de conceitos tácticos que são treinados. 

Podemos discutir conceitos e até dizer que gosto mais de um do que de outro, mas futebol é arte, é cultura e como arte e cultura que é assenta muito da sua beleza na diversidade daqueles que a praticam e na diversidade das ideias de jogo daqueles que comandam as equipas. Dizer-se que um treinador e uma equipa "respeitam" o jogo e que um outro já não o faz, só porque não joga dentro dos nossos padrões parece-me uma ideia muito redutora.

Ficam aqui alguns exemplos do que atrás referi:






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