Entrevista a Luís Lourenço

Entrevista a Luís Lourenço

A Wicoach convida-os a saborearem cada palavra desta Fantástica entrevista. Com a sua escrita deu-nos a conhecer os primeiros grandes momentos vitoriosos de Mourinho. Podemos dizer que é cumplice da "Mourinhomania" que levou muitos jovens a quererem ser treinadores. Foi Jornalista, é comentador, professor universitário, especialista em Liderança, uma taça de Portugal no curriculum, Luís Lourenço é profundo conhecedor do futebol nacional e internacional. Obrigatório ler e reler a sua entrevista!

Quem é o Luís Lourenço por trás dos “holofotes”?

Sou uma pessoa normal que tenho tido a sorte de fazer muita coisa diferente, ao longo da vida. Fui jornalista 17 anos ao serviço da TSF e também da SIC. Como repórter visitei para mais de 70 país dos cinco continentes. Fiz cobertura jornalística de guerras, acontecimentos desportivos, como jogos olímpicos e Mundiais, cobertura de eleições em Portugal e fora. No fundo, ao fazer um pouco de tudo, fiquei mais rico, enquanto ser humano. De há dez anos para cá, cansei-me do jornalismo, estudei, fui presidente de um clube de futebol, assessor de imprensa, escrevi livros, dou aulas na universidade, conferencias, enfim… tenho feito muita coisa.

 

Numa entrevista sua, há uns tempos, vi uma afirmação muito interessante. Disse que o conhecimento qualquer pessoa poderia ter mas a sabedoria vinha com a experiencia de vida. Ainda mantem essa ideia?

Sim, mantenho. Hoje em dia a nossa sociedade considera que uma pessoa com quarenta anos já é velha. Mas a experiencia acumulada dessa pessoa pode fazer a diferença. Alguém muito jovem, pode ter muito conhecimento mas as experiencias e as vivencias que terá ao longo da vida é que lhe dará a sabedoria que alguém mais velho já tem. A educação actual não prepara, convenientemente, os jovens para o insucesso. As pessoas só evoluem operacionalizando o que aprenderam, errando mas aprendendo com esse erros para evoluir. Eu penso que, na vida, tanto mais vitórias poderemos ter quanto mais aprendermos com as derrotas. A maturidade humana chega quando conseguirmos juntar o conhecimento à sabedoria.

 

Como se sente na pele de comentador desportivo?

É uma actividade que tenho gostado. Agradeço à Etv, onde comecei e à CMTv, onde agora estou, a oportunidade, porque gosto deste ambiente de estúdio e de direto. Contudo, por vezes sinto-me desconfortável porque temos de falar de pessoas e nem sempre é fácil. Mas quando crítico faço-o de consciência. Serei sempre honesto e sincero comigo próprio.

 

Como surgiu a possibilidade de escrever sobre o estilo de Liderança de José Mourinho?

Surgiu na minha tese de mestrado. Eu não comecei por escrever mas sim por estudar. E apaixonei-me por duas áreas: Inteligência Emocional e Liderança. Ao escolher a Liderança para tema da tese de Mestrado, pensei em estudar a forma como o José Mourinho a punha em prática pois queria entende-la. A minha relação de proximidade com o José Mourinho deixava-me ainda mais curioso em perceber como alguém que na sua vida pessoal era reservado e como treinador era, praticamente, o oposto. Queria perceber isso. A partir daí faço o mestrado na Universidade Católica com nota final de 20 valores. Depois disso tenho vindo a desenvolver mais estudos, estando a escrever um livro sobre liderança no desporto.

 

Com as suas obras considera-se responsável por ter influenciado uma geração de treinadores?

Nada disso. Quem influenciou foi o Mourinho. Eu apenas fui um facilitador, pondo no papel o trabalho de um treinador que é uma grande referência nos treinadores portugueses.

 

Quais as competências pessoais/comportamentais que considera serem mais relevantes para o exercício da função de treinador?

Falo de uma frase de Manuel Sérgio: “Um treinador que só sabe de futebol de futebol nada sabe”. Esta é uma frase que o Mourinho adoptou na sua actividade enquanto treinador. O futebol é uma actividade humana. A inteligência emocional é muito mais importante que antes. O relacionamento entre as pessoas é fundamental. Isto entra claramente, na liderança. Um bom líder influencia os outros.

 

Que opinião tem sobre as competências dos treinadores portugueses?

A classe dos treinadores portugueses tem evoluído muito nos últimos anos, estando no topo do futebol mundial. Neste momento somos um país de exportadores de treinadores. Temos treinadores a trabalhar em vários níveis de exigência. Desde os médios e grandes clubes europeus como a treinar no médio oriente ou a ensinar futebol na China, por exemplo. Somos um país que forma e exporta treinadores e isto não é por acaso. É sinal de competência. E os treinadores portugueses têm competências amplas e abrangentes que os levam ao sucesso.

 

Os treinadores portugueses estão mesmo na moda?

Há dois tipos de moda: modas duradouras ou passageiras. Neste caso, penso que os treinadores portugueses estão na moda de forma consistente. Basta ver o tempo que o José Mourinho está no topo, o tempo que o Manuel José esteve no Egipto, o Fernando Santos na Grécia, entre outros… Penso que é mais que moda. É algo que tem vindo a ser cimentado. Estão a “surfar” a onda há já muito tempo. Existem vários treinadores com bons resultados e que cumprem os objectivos em vários pontos do mundo.

 

Que conselho pode dar a quem está no início da carreira de treinador?

Não dou conselhos a nível técnico ou metodológico, porque não é a minha área. Mas posso aconselhar ao nível da liderança ou das competências pessoais. O melhor conselho que posso dar é que sejam Genuínos que é isso que irá suportar a vossa carreira. Os treinadores, sendo genuínos, podem ser muito melhores do que qualquer cópia, por muito perfeita que seja. O “caldo entorna” quando tentamos ser o que não somos. Poderemos ter os nossos modelos mas não imita-los. É importante que o treinador tenha inteligência contextual e perceber onde está inserido. É necessário o treinador não perder os seus valores e identidade, construindo o seu modelo baseado nesses aspectos pessoais.

 

Na sua opinião, quem foram os treinadores de maior destaque no passado do futebol português? Quem já se destacava pelo seu perfil de Liderança?

 Não irei muito atrás mas irei até a um treinador que marcou o futebol português: José Maria Pedroto. Foi ele e, também, Fernando Vaz os grandes timoneiros do grande Vitória. Mas foi no F.C. do Porto que Pedroto com a sua visão e acção iniciou uma caminhada que levou o clube a ser uma referência a nível mundial.

Mário Wilson, um treinador com uma liderança diferente mas também marcante. Erikson, de quem fui fã, pela sua gentileza. Um senhor! Nunca o vi a perder as estribeiras. Era um treinador que, mesmo com o abuso dos jornalistas, permitiu sempre todas as perguntas. Foi o meu primeiro grande ídolo do futebol. Um homem à frente do seu tempo.

Depois, Indiscutivelmente, José Mourinho. Uma “pedrada no charco” do futebol português. Uma atitude e uma coragem sem precedentes. A forma como ele pressiona o Presidente do Benfica para renovar o contrato, como se impos à mentalidade conservadora do União Leiria, acabando com os treinos na mata, com a desconfiança dos dirigentes. Revolucionou o treino e sobretudo a gestão e liderança de equipas. Recordo-me de pensar, enquanto amigo dele, que este “gajo” está tramado porque com este discurso e se corre mal não treinava mais ninguém. Muita gente do futebol não se revia naquela forma corajosa de estar. Muitos dos que o criticavam na altura, hoje idolatram-no.

 

Quais são, actualmente, as maiores referências enquanto treinadores nacionais? E num futuro próximo?

Incontornavelmente, José Mourinho! Mas há bons treinadores como Villas-Boas, Paulo Fonseca, Leonardo Jardim, entre outros.

 

Desempenhou cargos de relevo no VFC. Considera voltar a ter um papel interventivo no mundo do futebol?

No futuro vejo a minha ligação ao futebol de duas formas: Num aspeto mais emocional poderia ser útil ao Vitória num cargo com menos pressão, como presidente da assembleia geral, ou seja, um cargo não executivo. Noutras funções, não voltarei ao Futebol num cargo de eleição. Foi um período gratificante mas desgastante. Uma experiencia de vida tremenda! No futebol não há o conceito de “win win”, não se pode ganhar sempre. As minhas vitórias são as derrotas de outros. É um mundo muito exigente em que temos que ter o chip da competitividade e da pressão.

No aspeto profissional, e dependendo do projecto, vejo-me a trabalhar num clube que necessite dos meus serviços.

 

Se escrevesse hoje um livro sobre Mourinho haveria muitas diferenças?

Embora o mundo hoje esteja muito diferente o Modelo está lá. Mais desenvolvido e adaptado à realidade actual. A propósito de conferências que ministro sobre a adaptabilidade da liderança de José Mourinho para as organizações comuns, perguntava-lhe há pouco dias, se ainda era o “mind games” Master. E ele responde-me que agora já não, porque não resulta como resultava há dez anos. Porque, segundo ele, isto só resultava quando era “tu cá tu lá”, ou seja ele dizia alguma coisa e o outro treinador rebatia. Por exemplo, nos jogos com o Arsenal, ele falava e o Arsene Wenger respondia-lhe. Hoje em dia, ele diz algo e os jornalistas metem-se no meio, muitos vezes adulterando as suas palavras, sendo estas tão comentadas que a mensagem quando chega ao outro lado já não tem o mesmo impacto. Mas o modelo está cá. Os valores que norteiam Mourinho são os mesmos. O que acontece é que devido ao contexto foram adaptados. Isto demonstra inteligência contextual e é o que faz com que Mourinho seja um treinador de topo. Mantendo o seu modelo, o Mourinho adaptou-o.

 

Qual a sua opinião em relação ao nosso projecto, Wicoach?

O Site está muito atraente e fácil de manusear. Este é um projecto muito interessante e inovador que pode ser uma referência para uma comunidade importante que é a dos treinadores. Pode ajudar muita gente a divulgar o seu trabalho. O difícil, hoje em dia, não é fazer coisas mas sim ter ideias. Boas ideias. Dou-vos os meus parabéns.

 

Qual a sensação de fazer parte da estrutura do VFC que ganhou a Taça de Portugal?

Foi o dia perfeito. Setúbal saiu à rua. Toda a cidade a festejar. O melhor dia da minha vida!

 

 

Nota da Wicoach:

Queremos agradecer a disponibilidade do Luís Lourenço para esta entrevista e que muitos nos honrou. Foram momentos de grande aprendizagem com alguém que tem uma experiencia de vida, absolutamente, enriquecedora. 

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