Entrevista a Miguel Moita

Entrevista a Miguel Moita

Adepto da partilha e do jogo, Miguel Moita mostra-nos como é o seu dia a dia no AS Monaco, como é trabalhar com Leonardo Jardim, como analisa um jogo e ainda dá "dicas" para a observação e análise. Com apenas 32 anos, mostra-nos o seu caminho e como chegou ao futebol profissiona,

Com apenas 32 anos já tens um longo curriculum como profissional, fala-nos um pouco do teu percurso até ao AS Mónaco.

Não considero que seja um longo curriculum. Trabalho desde 2008/2009 no futebol como profissional.Comecei no G.D. Chaves logo após terminar a minha licenciatura e nesse ano subimos o Chaves à 2a Liga. No ano seguinte, fomos para o S.C. Beira-Mar e subimos também à 1a Liga. Dois anos depois, estivemos uma época no S.C.Braga e disputamos pela primeira vez a Europa League. No ano seguinte, demos um salto até ao Olympiacos de Atenas (saímos a meio da caminhada em primeiro lugar com 10 pontos de avanço sobre o segundo...). Começámos a época seguinte no Sporting C.P. e conseguimos alcançar o segundo lugar. Nos últimos dois anos, abraçámos mais um projecto fora de portas, no A.S. Monaco, e por cá continuamos.

 

Como é o dia a dia no Mónaco, os tempos livres?

O Monaco é um lugar diferente daquilo a que estava habituado. O nível de vida é muito elevado e o luxo está em toda a parte - nos carros, nas lojas, nos preços - e nesse aspecto não é algo com que me identifique muito. No entanto, é um lugar fantástico e com todas as condições para estar com a família.

Há cerca de duas semanas nasceu a minha segunda filha e, por isso, actualmente, os meus tempos livres são dedicados essencialmente à família. Fora isso, tenho algumas escapadelas para jogar ténis e vou almoçar fora nos dias de folga.

 

E o dia a dia de um analista / observador?

Depende muito. Talvez o meu caso seja diferente porque não estou só no gabinete. Há dias em que chego cedo ao centro de treinos e trabalho um pouco no gabinete antes do treino propriamente dito e há outros dias em que fico manhã e tarde no centro de treinos por que o volume de trabalho é maior (associado também a um maior volume de jogos). Numa semana normal, nos dois primeiros dias costumo ficar mais tempo para reunir a informação do próximoadversáriopreviamente tratada pelos meus colaboradores, para analisar algumas situações do nosso último jogo e também para planificar os próximos adversários a ir observar.

 

Como surgiu a especialização para a observação?

No meu caso,foi um pouco a necessidade que acabou por me orientar para a análise da performance dos adversários e da nossa equipa. Logo no G.D. Chaves era necessárioalguém que se dedicasse a esta tarefa e eu, que já trazia algumas competências da faculdade, acabei por me dedicar e por me concentrar mais nesta área. Creio que a experiência acumulada, a par de algumas formações e muita leitura, contribuíram muito para o conhecimento que tenho agora.Mas o interesse por esta área já era antigo.Gosto de pensar que já olhava para o jogo de forma diferente dos meus colegas da adolescência. Nunca fui o verdadeiro adepto que só olhava para as faltas e foras-de-jogo que deviam ter sido marcadas. Estava sempre à procura de outros pormenores dentro do jogo e essas preocupações adensaram-se quando entrei na faculdade, em especialna disciplina de Metodologia de Futebol.

 

Qual a tua grande referência como treinador e como analista?

Mentiria se dissesse que o Leonardo não é a minha maior referência como treinador. Ele é sem dúvida com quem mais aprendi e daí ser uma referência forte.

Relativamente a outros treinadores, muito sinceramente não sou uma pessoa que tenha grandes ídolos ou referências e, não conhecendo a forma como outros treinadores trabalham, porque isso é impossível, agarro-me bastante àquilo que dizem, como reagem às adversidades e à forma de jogar das suas equipas. Dessa forma, gosto muito do Carlo Ancelotti, pela classe e tranquilidade que transmite em todas as suas aparições;do José Mourinho, por tudo o que conhecemos, porque joga em todas as frentes e porque ganha muito;gostotambém de treinadores que pensam de forma diferente e, numa altura em que ouço muitos treinadores falarem em “ter muita posse de bola” e que “o pragmatismo não se treina” e “não existe no futebol”, passei a ser um seguidor do Roger Schmidt do Bayer Leverkusen, que consegue transportar para os momentos das transições uma dose de energia tal que empolga quem vê jogar a sua equipa (fiquei fã desde que jogámos contra eles na época passada). Para mim,é uma equipa pragmática na procura do golo, isto é, não precisa de ter uma grande circulação/posse para criar situações de golo. Da mesma forma e relativamente a este ultimo indicador, apreciocada vez maiso Diego Simeone do Atlético de Madrid, pelo trabalho fantástico que tem feito. Acho que é até o melhor treinador no activo. Consegue tirar o máximo dos seus jogadores e adequar muito bem o lado estratégico do jogo dependendo da equipa com que vai jogar, isto é, reconhecer o que o adversário faz bem e  limitar-lhe ao máximo esses momentos (este ultimo jogo contra o Barcelona é um bom exemplo).

 

Quando observas um jogo ao vivo, qual é a primeira coisa que reparas numa equipa? Como começas a analisar uma equipa? Como estruturas a análise?

Vou iniciar pela última pergunta. Gosto de pensar na análise de uma equipa como uma pequena história com principio, meio e fim. Ou seja, perceber aquilo que fazem em cada momento de jogo e tentar descobrir padrões nesses mesmos momentos, de forma a que nos concentremos em aspectos chave para contrapormos os seus pontos fortes e explorarmos os seus pontos fracos (p.ex. no momento ofensivo; 1-verificar a principal forma de construção; 2-como é feita a maioria dos movimentos de ligação de jogo e quais os intervenientes na mesma; 3-especificar o padrão de movimentos ofensivos que originam remates, situações de golo e golos e ao mesmo tempo desenvolver uma estratégia global defensiva que nos permita anular essa organização ofensiva do adversário.

Num jogo ao vivo, e principalmente se não conheço a equipa, é importante para mim, em primeiro lugar, colocar as peças nos seus lugares de partida, digamos assim. Isto é, verificar o sistema inicial, que considero o ponto de partida para toda a dinâmica que vai acontecer no jogo, seja ela ofensiva ou defensiva. Depois, aos poucos, tentar perceber aspectos-chave relacionados com as dinâmicas dos jogadores: qual o lateral mais ofensivo ou se sobem bem os dois, se os laterais jogam com pé contrário ao corredor em que estão a jogar, se o meio campo joga com dois médios de cobertura ou só com um médio defensivo e com dois a envolverem nos corredores em situações ofensivas, se os extremos ficam agarrados aos corredores ou se, pelo contrário, vêm por dentro ligar o jogo e criar superioridade numérica, etc...

 

Quanto tempo demoras a observar e a fazer o relatório de um jogo / equipa?

Antes de responder a esta pergunta, parece-me importante referir que se há uma coisa que odeio é o trabalho ser feito e depois não ser utilizado de forma útil. Isto para dizer que os relatórios escritos não são muito importantes para mim. Importante para mim é analisar 2 ou 3 jogos e tirar notas individuais de cada um deles e depois apresentar um compacto vídeo com ideias bem definidas do comportamento do adversário e da melhor forma de o superar.

A nossa forma de trabalhar permite-nos estudar um adversário com duas semanas de antecedência e, dessa forma, trabalhar calmamente. Portanto não é algo que se possa contabilizar dessa maneira, é diferente de fazer um relatório de um jogo.

 

Ao logo dos anos, tens mudado a tua forma de análise, procuras novas tecnologias, novas técnicas?

Sim. De facto, tenho mudado a minha forma de análise. Muito devido ao facto do maior conhecimento da forma como o Leonardo quer as coisas. Acima de tudo,acredito que sou cada vez mais pragmático e objectivo na análise que faço. Antigamente, estava preso a muitos pormenores que mais tarde via que não eram tão importantes assim. Com a prática fui aprendendo a filtrar,  acabei por “treinar o olho” e as coisas agora fluem melhor também.

 

És tu que apresentas o adversário à equipa ?

É curioso tocares nesse ponto, porque não era eu que o fazia, salvo raras exceções. O Leonardo gosta de dar o seu cunho pessoal e motivacional antes dos jogos e era ele que fazia essa apresentação. No entanto, este ano, na segunda volta do campeonato, experimentámos outra forma de actuação que se mantém até à data. Ele inicia a apresentação onde se dirige aos jogadores relativamente aos aspectos motivacionais e “metafísicos do jogo” (digamos assim) e também fala sobre as bolas paradas e, de seguida, eu falo dos aspectos relativos à organização defensiva, ofensiva e transições do adversário.

 

Como preparas uma observação? Quais os materiais indispensáveis ao teu trabalho neste momento?

Actualmente, no nosso departamento, funcionamos da seguinte forma: Tenho dois colaboradores que dividem entre si as observaçõesàs equipas adversárias durante uma época desportiva (mensalmente planeadas por mim). Preferencialmente, cada um vê entre um e dois jogos de cada equipa e posteriormente mostram-me o compacto criado com as grandes ideias. Frequentemente,eu vou também ver o último jogo dessa equipa antes de a defrontarmos. É importante para mim reunir o máximo de informação possível, tanto dos meus colaboradores, como daquilo que vejo, para depois passar ao Leonardo os aspectos mais importantes e, eventualmente, sugerir algoa realizar no terreno para explorar esses aspectos.

O material mais importante ainda continuam a ser os (meus) olhos. Por muitas tecnologias que inventem (e que ajudam), ter a noção clara daquilo que queremos ver é sem duvida o mais importante. Para  nos auxiliar, usamos frequentemente o SportsCode (para cortar os momentos de jogo), o WyScout (base de dados de jogos e jogadores) e  eu uso também o Key Note para fazer a apresentação final para os jogadores.

 

Em relação a matérias/ softwares, são vocês que os escolhem ou trabalham com o que o clube já tinha?

O Clube já possuía alguns dos softwares mencionados anteriormente e apenas adquiriu mais um software que nos permite trabalhar esteticamente o vídeo compacto que mostramos aos jogadores e staff que se chama Piero.

 

Mostram muitos vídeos à equipa? E individualmente a cada jogador? Qual a frequência da visualização de vídeos?

Semanalmente, apresentamos à equipa, de forma informal, o vídeo compacto do adversário (nos vários ecrãs existentes no centro de treino).

Individualmente, os vídeos são mostrados de forma pontual. Mas, seja antes de um jogo para mostrar um movimento típico de um extremo do adversário ao nosso lateral e/ou médio interior, seja para mostrar algo que se passou com um determinado jogador no nosso último jogo, é frequente todas as semanas eu ter esse tipo de intervenção com eles.

 

A grande parte dos treinadores em Portugal não tem condições humanas nem materiais para trabalharem a observação.Como aconselhas que se faça o trabalho de observação em clubes com menos posses? Algum software ou técnicas?

Na minha opinião, se não existem condições financeiras para ter grandes softwares, os treinadores têm que pensar que isso nunca poderá ser um entrave para não se ser competente ou para estar mais perto de ganhar mais vezes. Conheço treinadores que acumulam esse trabalho de observação e análise com o de treinador principal (eles andam por aí no nosso Campeonato Nacional de Seniores e até na segunda liga). Eu próprio, quando estive no G.D.Chaves, não tinha qualquer software e por isso comprei uma maquina fotográfica/vídeo e era assim que filmava pequenos excertos dos jogos para depois trabalhar mais detalhadamente o jogo àposteriori. Havendo motivação intrínseca tudo se faz.

Quanto a softwares, há um que normalmente recomendo que é totalmente grátis e que permite realizar os cortes pretendidos num determinado jogo - oLongomatch. Depois, há aquelas aplicações baratas de ipad/iphone que permitem demonstrar sistemas tácticos e as suas dinâmicas, como por exemplo a Tactical Pad, a Mobile Match Prep, etc...

 

Dá-nos um exemplo de como a observação do adversário influencia o treino durante a semana.

Por exemplo, recentemente fomos jogar contra o PSG em Paris. Sabemos de antemão que eles é que são os “donos da bola” durante grande parte de um jogo e com percentagens de posse de bola acima dos 70 % em vários jogos. Dessa forma, do que te vale estares a insistir em situações de organização ofensiva prolongada quando sabes que na maior parte das vezes não vais ter bola? Creio que montámos uma boa estratégia de jogo e durante essa semana enfatizámos bastante o momento de recuperação de bola e transições rápidas e verticais de forma a explorar a subida dos laterais. Lembro-me que num dos exercícios de um treino, a equipa que fazia de PSG (hipoteticamente), depois de perder a bola, só poderia recuar e defender com os dois centrais e um médio. Assim a situação transformava-se num momento de superioridade de 4 ou 5 vs 3+Gr.

 

O que achas acerca da padronização de jogadas / movimentos? És adepto? Em que fase /fases?

Penso que são exercícios passíveis de realizar como muitos outros.  Pessoalmente, gosto desses exercícios numa fase inicial de época onde queremos explicar de uma forma mais detalhada e sem grande quebra os movimentos e dinâmicas que queremos para o nosso momento ofensivo. Acredito também que são interessantes para realizar em alturas em que pretendes fazer evoluir o teu modelo de jogo e trabalhar noutro sistema táctico, por exemplo. Pode ser interessante utilizá-los ainda como complemento de aquecimento numa fase inicial de alguns treinos.

Muitas vezes penso também que estes exercícios estão um pouco associados a uma mecanização excessiva do jogar, em que o treinador diz e o jogador tenta reproduzir e por isso parece-me interessante também evoluir e criar condicionantes ao longo do tempo para situações em que sejam os jogadores a decidir aquilo que vão fazer nessas circulações e para que passe a ser uma situação em que trabalhes mais a tomada de decisão e a inteligência do jogador de acordo com um plano inicial definido pelo treinador.

 

Como é trabalhar com o mister Leonardo Jardim? Qual o momento de jogo que mais trabalham?

É extremamente fácil de trabalhar com ele. A comunicação é cada vez melhor ano após ano. Conhecemo-nos melhor e isso facilita tudo o resto.

O momento de jogo que mais trabalhamos é talvez a pergunta mais difícil de responder. Mas apenas porque não consigo dissociar o momento defensivo do ofensivo e vice-versa, pois tudo está relacionado. A nossa forma de trabalhar explora em grande parte a vertente do jogo em espaços reduzidos (5x5, 7x7 e 10x10) e diferentes  manutenções de posse de bola e nestes momentos não podemos dissociar as coisas. Naturalmente, existem momentos em que tens necessidade de trabalhar mais sub-princípios específicos, mas estes acontecem de forma pontual e/ou sempre que queres corrigir erros relacionados com aspectos tácticos.

De forma mais estática, damos muita importância ás bolas paradas e guardamos sempre um treino para melhorar os nossos movimentos ofensivos e coordenação defensiva.

 

Onde te vês daqui a 5 anos? Quais os teus planos?

A longo prazo vejo-me a pegar numa equipa, num projeto, como treinador principal. Nunca foi uma obsessão e nunca será, mas tenho essa ambição. No entanto, num futuro próximo, daqui a 5 anos, não me vejo a abandonar quem me apoiou durante 8 anos, a não ser que seja por impedimentos que não possa controlar. No futebol como na vida, temos que estar sempre preparados para tudo.

 

Qual a tua opinião sobre os treinadores Portugueses?

Penso que a minha opinião é semelhante àde muita gente. Os treinadores Portugueses são aqueles que melhor entendem o lado estratégico do jogo e aqueles que melhor se adaptam a contextos, rotinas e culturas diferentes. Sempre fomos um povo imigrante e, da forma que isto vai, vamos continuar a sê-lo em várias áreas. O Futebol é só mais uma. Somos dos melhores, se não os melhores, e prova disso foi, por exemplo, em 2014/2015 termos 6 treinadores nas diferentes equipas presentes nessa edição da champions, logo, o país com mais treinadores na Champions.

 

Que opinião tens da WI COACH?

Comecei a seguir o site há pouco tempo e ainda não o explorei ao máximo.No entanto, dá para ver que o ponto de partida e a ideia base são fantásticos. Parece-me que não há nada igual no nosso país e, por isso, é também original. Já tive a oportunidade de partilhar convosco um artigo que realizei (acerca do Arsenal) e acredito que o caminho é por aí - um espaço-chave para a partilha, troca de ideias, sugestões, etc. Aproveito desde já para vos desejar as maiores felicidades no futuro.

 

Agradecemos muito a tua disponibilidade em partilhar conhecimentos connosco. Pedíamos-te uma mensagem para todos os treinadores que são seguidores da WI Coach.

A minha mensagem vai no sentido de dar esperança a todos aqueles que um dia anseiam treinar no futebol profissional.

“Prefiro estar preparado para uma oportunidade que nunca vai chegar, do que essa oportunidade chegar e eu não estar preparado”

                                                                                              Whitney Young Jr.

 

Obrigado pela atenção

Continuação de bom trabalho

 

 

Muito Obrigado pela Colaboração

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