Entrevista a José Viterbo

Entrevista a José Viterbo

José Viterbo, expõe as suas ideias numa entrevista a não perder. Um treinador experiente que partilha a sua visão do jogo! Obrigatório ler!

 Todos os que estamos familiarizados com o futebol conhecemos o mister José Viterbo, contudo gostaríamos de saber quem é o José Viterbo fora do Futebol?

O José Viterbo como pessoa é igual a tantas outras. Tem uma vida pacata, gosta de estar com a família, com os amigos, gosta de ler e de ver muito futebol também.

 

Que diferenças encontra para a mística da Académica nos anos dourados e para a Académica dos nossos dias?

Não é fácil fazer comparações dessas. São períodos competitivos completamente diferentes, sobretudo com diferenças acentuadas ao nível da exigência profissional, embora nos anos 50, 60, 70 e 80 o jogador da AAC tivesse tido sempre um estatuto diferente dos colegas que eram apenas e só estudantes universitários, atendendo a que lhes era permitido treinarem à exigência da época, sendo-lhes facilitada pelos professores a dispensa de algumas aulas para poderem estar presentes em treinos ou inclusivamente alterando datas de exames ou frequências. No entanto hoje a grande diferença está claramente no reduzido número de atletas estudantes que compõem o plantel profissional. Contudo, a mística também se manifesta de fora para dentro e hoje o reduzido número de adeptos que vai ao estádio e acompanha a equipa, também não ajuda a criar a empatia necessária e a mística de outrora. Haverá porventura outros factores, mas esses têm a ver com uma enorme oferta que Coimbra tem hoje ao fim de semana e não tinha há 30 ou 40 anos atrás.

 

Sendo um treinador atento ao que se faz na Formação, considera que esta em Portugal está de boa saúde?

Nunca nenhum treinador se pode dar por satisfeito com o que tem. No entanto, considero que, com a recente construção dos centros de treino / Academias, a formação é quem mais tem e deve lucrar, atendendo a que as condições de trabalho melhoraram exponencialmente. Daí termos uma “fornada” de jovens atletas que garantem o futuro da selecção Portuguesa e em muitos casos garantem também o crescimento sustentado de algumas (não todas) equipas profissionais.

 

Além da Académica vê-se a treinar mais alguma equipa dos campeonatos profissionais?

Treinar a Briosa foi o “clímax” da minha já longa carreira de vinte e cinco anos dedicados à orientação técnica, táctica e estratégica. Fi-lo na pura convicção de que se não o fizesse, nem que fosse apenas durante uma semana, a minha carreira de treinador não teria tido muito sentido. Fi-lo também porque me achei humildemente capaz de responder a um desafio em que poucos já acreditavam que tivesse sucesso. Mas, tudo na vida tem o seu fim. Encerrei agora um segundo ciclo, após outro que tinha tido 14 anos. Como diz o povo, não há duas sem três. Mas enquanto a terceira não surge, se tiver oportunidade de voltar a treinar na elite, mesmo não sendo em Coimbra, que possa ser onde eu considere útil a minha presença.

 

Qual a sua grande referência como treinador? Qual o treinador que mais o marcou e porquê?

Tenho referido publicamente com grande frequência, que treinadores como Vítor Manuel, João Alves, Henrique Calisto e Vítor Oliveira, me deram a “beber” muitos dos seus ensinamentos. São os que viveram o jogo, treinaram o jogo e criaram ao longo de quase três décadas, padrões de conhecimento cujo o efeito fez deles as minhas grandes referencias. Não posso esquecer todos os que me ajudaram a crescer como homem / atleta num percurso de vários anos como jogador da formação da AAC. Nomeadamente figuras ímpares da nossa brilhante história, como Pinho, Bentes, Crispim, Francisco Andrade e o já referido Victor Manuel. No final da época de 70, ainda como júnior, tive o prazer de ser chamado várias vezes a treinar com a equipa principal sob o comando de um grande Senhor do futebol, chamado Júlio Cernadas Pereira, mais conhecido por “Juca”. Claro que não podemos esquecer o que, o excepcional José Mourinho tem feito pelo treinador português e pelo futebol português além-fronteiras.

 

Defina-nos, o que é jogar bem na sua opinião? Quais as diretrizes do seu jogar?

Não existe o meu jogar. O que existe é “um jogar” de acordo com as características dos jogadores que o treinador tem à sua disposição. Que me vale gostar de colocar em prática “o meu jogar”, o futebol “association”, se à minha volta tenho predominantemente jogadores tecnicamente rudimentares e incapazes de manter a posse numa sequência de 10, 15 ou 20 passes seguidos, como por exemplo a AAC fazia com aqueles a quem chamaram durante décadas os “Pardalitos do Choupal”? Por isso quem fala hoje no ”meu Jogar” demonstra uma perspectiva egoísta, redutora e pouco interactiva com o colectivo que treina. No limite, aceito que possamos designar ao “meu jogar”, o “nosso jogar” porque esse sim, deverá ser o produto final do treinador, olhando ás características dos jogadores que treina, bem como do colectivo para quem trabalha diariamente.

 

No início de época, como é a primeira semana de trabalhos e que objetivos pretende alcançar?

A primeira semana de trabalho é relativamente “soft”. Alternamos treinos diários com treinos bidiários. Entendemos que após 6 a 7 semanas de férias o impacto da carga deve ser progressivo e olhamos para o treino de forma sempre específica. Observamos e analisamos o “produto” que temos à nossa disposição e vamos introduzindo de forma progressiva algumas ideias simples que levem a uma interacção e a uma boa dialéctica, treinador / jogador, de forma a irmos ao encontro daquilo que achamos ser o embrião de um processo que se torna mais complexo e meta- especializado com o decorrer dos treinos.

 

Qual o momento do jogo em que investe mais tempo de preparação? E porquê?

Não tenho qualquer tipo de relutância em afirmar que durante a época tentamos aperfeiçoar com mais determinação o processo defensivo, sem como é óbvio, descurar o processo ofensivo. Porquê? Porque consideramos o processo defensivo, muito mais exigente, sobretudo no que diz respeito à mentalidade, à concentração competitiva e à redução de espaços ao adversário, entre outros. Treinamos por exemplo situações de jogo em espaço e número reduzido de jogadores, com inferioridade e igualdade numérica e ainda com exercícios intersectoriais com objectivos bem definidos. Quanto ao processo ofensivo criamos precisamente condições mais favoráveis ao atleta para poder aplicar a sua criatividade aliada a um conjunto de ideias que provoquem o 1x1, 2x1, 3x2, 4x3, etc, com movimentos de ruptura seja no ataque organizado ou no ataque rápido. Sempre com uma grande máxima: o instinto do humano sempre foi o de atacar o seu próximo, tendo logo à partida o jogador, um conjunto de “truques” enraizados no seu sob consciente que lhe permitem ultrapassar o obstáculo, nunca esquecendo também, que quem tem bola, tem sempre vantagem!

 

Até que ponto, um princípio de jogo do seu modelo, interfere com a liberdade de decisão dos seus jogadores?

No momento em que a equipa (embora dependendo da zona em que se encontra e do espaço que tem à sua disposição) recupera a

posse e encontrando-se momentaneamente em inferioridade numérica, não age em função do momento crítico que lhe é colocado pelo opositor.

 

Como trabalha a primeira fase criação?

Apenas trabalhamos a 1ª fase de construção se os nossos jogadores demonstrarem confiança e capacidade para fazê-lo. Caso contrário, a nossa reposição torna-se muito mais vezes longa que curta. No entanto e imaginando que o nosso plantel tem a capacidade para na 1ª fase, sair a jogar, damos profundidade aos laterais, alargamos o espaço entre defesas centrais e tentamos colocar o médio defensivo entre os defesas centrais. Se tal se tornar possível, definimos duas ou três circulações tácticas, estratégicas, que visem o envolvimento de vários jogadores num corredor, tendo como principal objectivo, desmontar o posicionamento defensivo adversário.

 

Fez grande parte da sua carreira em escalões secundários,  as suas ideias e metodologia sofreram alterações ?

Sim, sobretudo ao nível da intensidade e volume do treino, bem como na preparação específica do jogo e do audiovisual.

 

Costuma fazer exercícios 11x0, ou sem oposição? Se sim, que ganhos pretende alcançar com este tipo de exercícios?

Sim. Com frequência na véspera do jogo e no dia dedicado à recuperação, pós jogo.

 

Costuma padronizar algum movimento / movimentações, em que fase /fases?

Sim, nas três fases, mas com mais insistência na 2ª e 3ª fase.

 

Quais as grandes diferenças que encontra  em termos de treino desde o momento que iniciou a sua carreira e o presente?

Iniciei a minha actividade como treinador em 1990. Embora na altura já introduzisse muita bola nos exercícios, reconheço que hoje a componente especifica é a base do nosso trabalho. Hoje tens uma panóplia de instrumentos que te ajudam a melhorar as dinâmicas individuais e colectivas, coisa que há 25 anos atrás quase não existiam. O treino era muito mais empírico. No entanto, hoje a criatividade com que preparamos o exercício/s na parte principal do treino é determinante para irmos ao encontro do que achamos necessário para a nossa equipa.

 

Que características procura dotar as suas equipas nos vários momentos do jogo?

Depende das características e da mentalidade dos nossos jogadores. Sem bola, se tivermos argumentos para pressionar o adversário e defender um pouco mais alto, assumimos essa componente. Caso contrário não, baixamos o bloco e tentamos reduzir o espaço mais atrás. De qualquer forma em qualquer uma destas situações “encaminhar” o adversário para os corredores laterais deve ser uma preocupação colectiva sem nunca esquecer a forma agressiva e determinada com que o devemos fazer. Com bola, num primeiro momento é ter a capacidade para perceber o como e o quando tornar o jogo mais ou menos apoiado, mais ou menos profundo, mais ou menos amplo, tentando retirar ao máximo e em poucos toques a bola de zonas onde o “transito” e a concentração de jogadores adversários é elevada. 

 

Onde se vê daqui a 5 anos? Quais os seus planos?

Daqui a 5 anos quero estar vivo para poder continuar a minha actividade seja a que nível for. Não sou de fazer grandes planos.

 

Qual a sua opinião sobre os treinadores Portugueses?

O treinador Português é excelente. Matreiro e estratégico, determinado e confiante, criativo e ambicioso.

 

Que opinião tem da WI COACH?

Já conhecia bem o site WI COACH. É um espaço de afirmação do treinador, de ampla visualização de vários temas partilhados por centenas de colegas e onde todos se tornam iguais. Parabéns pelo trabalho. 

 

Muito Obrigado pela Colaboração.

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