Entrevista a André Mendes

Entrevista a André Mendes

André Mendes é o autor do livro "Scouting - O Futebol (Re)nasce aqui", fala-nos abertamente sobre o que é o scouting e como surgiu a ideia do lançamento do livro.

Explica-nos um pouco da tua relação com o futebol e o scouting em particular…até chegar ao lançamento do Livro “Scouting - O futebol (Re)nasce aqui”.

 O futebol é uma paixão de sempre. Após ingressar na Universidade, um amigo lançou-me o desafio de ir treinar camadas jovens no SC Covilhã, não hesitei e tudo começou aí. Após concluir a primeira fase dos estudos (2008), realizei um estágio profissional no mesmo clube, onde desempenhei algumas funções nas camadas jovens, mas trabalhando  perto da equipa sénior, onde o então treinador Hélio Sousa era o orientador de estágio. Como no clube não existia departamento de scouting, o mister achou que poderia ser uma mais valia do meu estágio realizar scouting para a equipa sénior, foi aí que tudo começou de uma forma mais séria. No entanto, um ano antes já tinha tido a experiência como observador do SL Benfica, seguiu-se o FC Porto durante 6 épocas (onde se inclui um estágio com o Pedro Emanuel nos sub-17), e alguns trabalhos pontuais de observação para clubes da 2.ª liga.

 

Como surgiu a ideia do lançamento do livro?

 Como o passar do tempo fui refletindo acerca de todas estas experiências, fiz balanços, encontrei semelhanças e disparidades, comecei então a pensar porque não partilhar as minhas ideias com os outros? Só assim é possível ser melhor e eu quero ser melhor a cada dia.     

 

O que achas que o livro ajuda, a quem o lê?

 Quando leio um livro e este não me fez pensar sobre o tema é porque não foi suficientemente provocador ou interessante para suscitar em mim uma reflexão. Neste caso, acho que a reflexão vai existir, seja acerca do que já se faz ou sobretudo pelo que se pode vir a fazer nesta área. As variáveis apresentadas, os pontos frisados, os exemplos dados devem levar o leitor a questionar-se se já tinha alguma vez pensado nelas quando observa um jogo/equipa/jogador. Mais que dar grandes respostas, pretendemos levantar grandes questões e a partir daí cada um pode aproveitar este conteúdo para o explorar da melhor forma.

 

Como surgiu a especialização para a observação?

 Como já referi anteriormente, durante o estágio com o treinador Hélio Sousa comecei a interessar-me mais pela temática e a perceber de fato a sua importância no futebol atual.

 

Qual a tua grande referência como treinador e como analista?

 Essa é sempre uma pergunta difícil. Referências existem algumas, mas com o passar do tempo algumas vão-se substituindo por outras, José Mourinho (pela rutura que provocou no futebol), Pep Guardiola, Vitor Pereira, Carlos Carvalhal e Paulo Fonseca (pelas suas ideias de jogo, pelo futebol que as suas equipas apresentam), Arsène Wenger (pelo trabalho desenvolvido e pelos jogadores jovens que vai encontrando e lapidando). Quanto aos analistas, não tenho nenhuma grande referência, oiço alguns, mas tento manter a devida distância para que não influencie muito a maneira como faço as minhas análises. As boas ideias são sempre bem-vindas e aí Paul Breitner (Chief Scout Bayern Munique), tem estado sempre na frente e talvez por isso o admire, as suas análises sobre a evolução do futebol, os cenários que cria e a forma como vê o futebol são um bom motivo para o acompanhar.

 

Quando observas um jogo ao vivo, qual é a primeira coisa que reparas numa equipa? Como começas a analisar uma equipa? Como estruturas a análise?

 Pode parecer paradoxal, mas em primeiro lugar observo os jogadores, faço-o de forma particular incidindo o meu olhar jogador por jogador, começando desde logo a perceber algumas dinâmicas e só depois a forma como a equipa se estrutura organizacionalmente. Depois, em função do tipo de análise que estejamos a realizar, começo por onde me parece mais rentável, não existe um ponto de começo ideal, depende muito da análise ou do relatório que pretendemos realizar. Por exemplo, se tenho um relatório tipo fico desde logo condicionado às análises que posso realizar, senão corro o risco de fugir do pretendido. Agora se tenho liberdade para fazer as minhas análises aí posso entrar por parâmetros, mesmo correndo o risco, à posteriori, que quem recebe e analisa os relatórios não entenda bem o intuito de algumas análises, mas isso acaba por ser assim em muitas situações da nossa sociedade, é normal, devemos arriscar e sermos coerentes com o nosso pensamento.

 

Como achas que a interação entre analista e treinador deve ser feita? O analista pode ou deve ajudar na elaboração dos exercícios e estratégias?

 Esta questão é bastante pertinente. O analista deve conhecer o homem que está por detrás do treinador, saber o que ele pretende e o que valoriza, pois só  assim estará em concordância com o pretendido. Defendo que o analista deve ser parte integrante da estrutura, não um treinador adjunto mas alguém que deve estar presente algumas vezes no treino. Ser analista exige muito tempo disponível, pelo que não é exequível que este esteja permanentemente no treino, no entanto, ser analista é muito mais do que apenas realizar análises ou recolher dados. Reafirmo por isso que este deve estar presente sempre que possível, seja no treino, na preparação dos mesmos, delineação das estratégias ou objectivos. No fundo é mais um elemento da estrutura técnica que deve estar envolvido em todos os processos inerentes à equipa. 

 

Quanto tempo demoras a observar e a fazer o relatório de um jogo / equipa?

 Se na observação não existir a possibilidade de filmar, apenas fica disponível o tempo de jogo para registar o essencial, o que acaba por ser prejudicial. Com a possibilidade de filmar, pode-se rever o mesmo vezes sem conta, avançar, recuar e ir ao pormenor. Por norma, à medida que vou observando registo logo alguns parâmetros para considerar no relatório, o tempo de observação pode ser entre 3h-4h, o relatório de jogo/equipa em função do nível de detalhe pode levar 6 ou mais horas, é sempre relativo porque pode também depender de fatores externos.  

 

Ao longo dos anos, tens mudado a tua forma de análise, procuras novas tecnologias, novas técnicas?

 Com a experiência é normal que se alterem padrões de análise e trabalho, até pela constante evolução do futebol é frequente que isso se verifique. Todas as novas tecnologias podem ser utéis, no entanto, ter muito dados disponíveis não significa realizar uma análise com mais qualidade até pelo contrário, pode ser-nos muito prejudicial e levar ao erro. Sei que contrário de algumas tecnologias que podem levar-nos ao erro, os meus olhos tem sido fiéis intérpretes do que observam e isso é uma segurança muito boa para mim. As técnicas vão-se aprumando com a experiência, mas estou sempre atento à possibilidade de experimentar novas técnicas.

 

Como preparas uma observação? Quais os materiais indispensáveis ao teu trabalho neste momento?

 Saber ao que vou é fundamental, gosto de saber que tipo de condições vou encontrar à partida. Se a observação for presencial e permitir obtenção de imagens, uma câmara de filmar, máquina fotográfica, papel e caneta. Se não estiver a ver o jogo ao vivo e tiver apenas a gravação um computador chega

 

Mostras muitos vídeos à equipa? E individualmente a cada jogador? Qual a frequência da visualização de vídeos?

 Atualmente, os vídeos permitem aos jogadores uma melhor compreensão do jogo, a objetividade dos mesmos permite que se seja mais sucinto sem perder a eficiência. O tempo de o jogador de futebol ir apenas ao treino já não deveria usar-se (em casos profissionais), pois existe muito tempo durante a semana para poder trabalhar individual e coletivamente e aí incluir-se-á a visualização de vídeos. O ideal será que o jogador observe um vídeo do jogo anterior, relativo à sua performance, ficando assim elucidado acerca do seu rendimento. Depois, com a abordagem à próxima equipa a defrontar, é normal que se visualizem mais alguns pequenos vídeos. Em resumo 2 ou 3 sessões de audiovisuais é que considero normal.

 

A grande parte dos treinadores em Portugal não tem condições humanas nem materiais para trabalharem a observação.Como aconselhas que se faça o trabalho de observação em clubes com menos posses? Algum software ou técnicas?

 Essa é a realidade, com condições tudo se torna mais fácil. Os recursos humanos são fulcrais, muito mais que os materiais. Não adianta ter-se os materiais se depois não se têm pessoas com capacidade para os utilizar e manipular da melhor forma. Nos clubes com menores condições existe muitas vezes a ideia de que se “não temos muitas capacidades para poder fazer este tipo de trabalho, então não fazemos…”. É preferível fazer alguma coisa, e ter alguns dados para analisar e dar informações pertinentes aos jogadores, do que não lhes dar nada ou apenas na palestra pré- jogo dizer meia dúzia de coisas, que acaba por nem ser assimilada pelos jogadores. Um relatório por mais simples que seja pode ser importante para conhecer um pouco mais do adversário. No entanto, fazer o scouting da própria equipa é excelente neste tipo de contexto, e isso qualquer equipa pode fazer. Como costumo dizer algumas vezes “ficar parado não leva a lado algum”, por isso é necessário por mãos à obra e deixar as lamúrias de lado.  

 

Dá-nos um exemplo de como a observação do adversário influencia o treino durante a semana.

 Oconhecimento do adversário e do padrão comportamental predominante permite-nos estar mais preparados para o que se irá encontrar. Se forem detetados comportamentos que se verificam com muita regularidade no adversário, e estes não colidem com o modelo de jogo da nossa equipa, podemos tentar começar a condicionar o adversário por aí e fazê-lo sair das suas zonas de conforto, expondo-o a situações a que não está habituado. Concretizando em forma de exemplo, suponhamos que o adversário tem como comportamento padrão a exploração do corredor central em detrimentos das faixas laterais, o que poderemos fazer então para o condicionar? Simples, aglomerar o nosso espaço interior e ceder-lhes as faixas (desde que isso não abone em desfavor do nosso modelo de jogo). Caso isso colida com o nosso modelo, poderemos então jogar com as características dos nossos jogadores para encurtar essas diferenças. Sugiro então que durante a semana exploremos mais essas zonas, onde pretendemos que se jogue mais durante o jogo, sem que tenhamos de alterar os nossos princípios, mas que possibilite aos jogadores adaptarem-se a situações distintas, mas que vão ao encontro do que irá, em princípio, suceder-se no jogo seguinte. Quanto a mim, o ideal será que o conhecimento do adversário nunca se sobreponha ao da nossa equipa, por isso mais importante que conhecer a equipa adversária é conhecermo-nos a nós mesmos, por isso referi anteriormente que os clubes com menores condições também podiam fazer scouting.

 

O que achas acerca da padronização de jogadas / movimentos? És adepto? Em que fase /fases?

 Acho que devemos definir bem o que são esses termos. Se o termo padronização for no sentido de promover uma mecanização não sou a favor, porque isso limita os jogadores em parâmetros cruciais, na interpretação dos contextos de jogo, na tomada de decisão, na criatividade, no raciocínio e por aí fora… Os comportamentos que desejamos que aconteçam devem ser solicitados e promovidos no treino, é para isso que o mesmo deve servir. Numa fase preparatória (inicio de época), é normal que os processos não fiquem totalmente assimilados, pois demoram algum tempo até que comecem a produzir os efeitos desejados. Numa fase inicial é normal que alguns movimentos sejam mais repetidos, não para que fiquem assimilados definitivamente, mas para que os jogadores comecem a perceber por que tipo de processos irão passar e de que forma estes são preponderantes para chegar ao rendimento desejado. Por vezes quanto mais se repete menos os movimentos acontecem no jogo, é necessário que se encontre um equilíbrio. Treinar muito a finalização pode levar a que se falhem mais golos do que quando se treina menos, de acordo com as características dos jogadores disponíveis é também necessário fazer este tipo de avaliação e refletir.     

 

Onde te vês daqui a 5 anos? Quais os teus planos?

 Cinco anos é muito tempo. É quase impossível saber onde vou estar daqui por seis meses, o mundo dinâmico torna tudo muito imprevisível. Se me perguntar onde gostava de estar isso já é outra coisa, quero chegar ao futebol profissional o mais rápido possível para mostrar que é possível fazer ainda melhor do que já se faz. Algumas pessoas do futebol desconfiam muito dos académicos, mas a verdade é que cada vez mais estes começam a fazer muita diferença no futebol. Espero dentro desse prazo conseguir estabelecer-me no futebol profissional, numa equipa bem estruturada, seja no scouting ou no treino visto que também tenho investido nessa área onde possuo nível 2 de treinador(UEFA B).

 

Qual a tua opinião sobre os treinadores / scouts Portugueses?

 A opinião é unânime, os treinadores portugueses são dos melhores do mundo, disso não tenho dúvidas. Relativamente aos scouts, é mais difícil avaliar até porque muitos trabalham no anonimato, no entanto, acredito que estejamos no bom caminho e que eventualmente já estaremos entre os melhores.  

 

Que opinião tens da WI COACH?

 A opinião só pode ser boa. É um projeto diferente, que permite a partilha de opiniões e trabalhos, dá a conhecer novas pessoas e eventuais parcerias, assim todos podem sair a ganhar.

 

 Agradecemos muito a tua disponibilidade em partilhar conhecimentos connosco. Pedíamos-te uma mensagem para todos os treinadores que são seguidores da WI Coach.

 

Façam o que têm de fazer (o que acham melhor), sigam as vossas ideias, sejam convictos, não tenham medo de arriscar e apostem em quem mais garantias vos dá, e não se esqueçam da interdisciplinaridade porque esta é fundamental para chegar ao sucesso. A partilha há-de levar-nos mais além, partilhem e seremos melhores.

 

Muito Obrigado pela colaboração.

 

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