Entrevista a Pedro Bouças

Entrevista a Pedro Bouças

Há oito anos começou a fazer a diferença expondo as suas ideias. Surgiu o Lateral Esquerdo. Um blog tornado em espaço de referência para muitos treinadores em que, apaixonadamente, fala sobre Futebol. Sobre Futebol com ideias! São essas ideias que o levou a Campeão Nacional, Vencedor da Taça e Super taça! Uma entrevista a não perder com quem pensa e sente o futebol com paixão!

Explique-nos um pouco do percurso do Prof. Pedro Bouças até ao triplete com a equipa Feminina do Fófó.

Licenciei-me em Educação Física e Desporto, onde acabei por ficar com equivalência ao curso de treinador de futebol, pela via académica. Tive a oportunidade e a felicidade de ser aluno do Professor Francisco Silveira Ramos, que contribuiu decisivamente para a forma como vejo o jogo e o treino. Quase todo o meu interesse do ponto de vista mais operacional chegou pelas aprendizagens desse tempo. Nunca pensei ser treinador de futebol mas em determinado momento senti necessidade de perceber se as ideias e teorias que me surgiram poderiam resultar de uma forma prática. Apresentei um projecto para o futebol feminino no Futebol Benfica, e tive a felicidade de o mesmo ser aprovado pelo presidente. Daí em diante, umas vezes mais pelas opções de planeamento e de modelo de jogo, mas seguramente até mais pela habilidade no recrutamento consegui com a ajuda de todos os envolvidos no processo contruir uma equipa na verdadeira aceção da palavra.

 

Sente que o teu blog “Lateral Esquerdo” já é uma referência e qual o segredo para a longevidade do mesmo?

Sim, sinto isso. Apesar de se ter tornado uma referência que é seguido, concordando ou discordando, por milhares e milhares de pessoas ligadas ao futebol em Portugal, e muitos deles profissionais altamente reconhecidos, continua a ser um projecto amador, sem qualquer linha editorial predefinida. Um espaço para falar das minhas ideias, e das ideias dos outros autores que entretanto foram sendo convidados para integrarem o projecto. Creio que há dois segredos para a longevidade. O sucesso que tem. Não sei se mais de oito anos depois de o ter criado continuaria a perder tempo a passar as minhas ideias sobre o jogo, sobre a formação, etc se não tivesse uma enorme audiência. O segundo segredo é o facto de continuar a não levar demasiado a sério o projecto. Não me chateio com o que por lá se diz ou com o que se diz por outros lados sobre o “lateral esquerdo”. O facto de continuar a encará-lo apenas como um espaço amador e pessoal onde nada me pode ser cobrado porque… é meu! Garantidamente que ajuda a manter a vontade de ter o blog activo.

 

No geral, qual a maior diferença que encontra no futebol feminino para o masculino? Faria o mesmo tipo de exercícios e de metodologia numa equipa masculina?

A grande diferença é sem dúvida as capacidades funcionais. A velocidade e a força que os homens têm que não têm as mulheres muda bastante o jogo. Se pensarmos no top masculino contrapondo com o top feminino, naturalmente que tecnicamente as diferenças também são gigantescas. Os exercícios e as metodologias serão as mesmas, porque é o mesmo jogo. O que muda, porque há características diferentes é o modelo de jogo. Os comportamentos que defines em função do nível com que trabalhas. Dou sempre um exemplo da forma como a equipa pressiona na sua primeira fase defensiva. Pedimos à extremo do lado o oposto que pressione central pelo lado cego, deixando totalmente livre o corredor lateral. Isto porque no nível em que estou, sei que um passe longo de corredor a corredor não será bem sucedido. Num outro contexto tal ideia poderia deixar de fazer sentido. Portanto o que muda é o modelo e não o processo de treino ou metodologias.

 

Neste momento além de treinar a equipa sénior feminina do Futebol Benfica, acumula a coordenação do futebol jovem, onde se sente mais à vontade e onde acha que faz mais a diferença?

Consigo retirar grande prazer de ambos os cargos. Ver as coisas acontecerem. Saber o antes e o depois, sabendo a competência que se provou deixa-me muito orgulhoso. Não consigo dizer em que tarefas me sinto mais confortável. Pensar em todo o processo é o que me dá mais prazer. Fazer as pessoas felizes pela minha proactividade.

 

Define para as camadas jovens uma metodologia de treino e orienta os treinadores no planeamento? Há uma forma generalizada do jogar em todos os escalões de formação?

Metodologia de treino sim. Houve sempre formações com o intuito de chegarmos a um processo de treino em todo o clube que contemplasse ao máximo variáveis tão importantes como o tempo de empenhamento motor, a promoção da variabilidade de estímulos, aproximando ao máximo o treino com aquilo que os miúdos terão depois de enfrentar na competição. Enfim, que subisse exponencialmente a qualidade do processo de treino no clube, para que pudéssemos ao máximo aproveitar o potencial dos miúdos, que infelizmente em algumas gerações não é muito grande. Situação que acredito estará agora a mudar paulatinamente, começando com as idades mais jovens, também porque chegam hoje ao clube maior quantidade de meninos a quererem praticar. Quando há maior quantidade de atletas para se poder escolher, naturalmente que a qualidade subirá. O Futebol Benfica é hoje, como já havia sido antes um clube apelativo aos encarregados de educação. E isso fará toda a diferença no futuro.

Não há uma forma generalizada de jogar em todos os escalões. Seria algo a implementar ao longo dos anos, mas depois de uma avaliação inicial percebi que era muito mais urgente mudar processos de treino que impor modelos de jogo. Já seria um choque para os treinadores terem de repensar o processo de treino. Se ainda impusesse ideias comuns imediatas, acabariam por se sentir lesados naquilo que é a sua individualidade enquanto treinadores. E a nós também interessa ter toda a gente feliz por nos servir. A questão do modelo de jogo comum a todos os escalões seria algo que surgiria mais tarde. Depois deste primeiro impacto com a mudança das prioridades no processo de treino.

 

Sabendo que é um apaixonado pelo futebol de ataque, pela posse de bola etc é complicado passar isso aos dirigentes, aos pais e outros intervenientes no jogo? Como o faz?

Sim. É complicado passar uma mentalidade de jogo diferente do que aquela a que se está habituado há muitos anos. Sinceramente, o que é importante é que as pessoas percebam que quem está a liderar o processo sabe o que faz. E, concordando mais ou menos, há que confiar. Se um pai não confia no trabalho do treinador, damos a liberdade ao seu filho para prosseguir a sua actividade noutro lado. Se um dirigente não confia na capacidade do treinador, tem liberdade e poder para optar por outro treinador. Agora, se a escolha é esta, não há liberdade para depois tentar influenciar negativamente o ambiente que rodeia o treinador. Foi para isso que criei um regulamento interno não só do atleta mas também do Encarregado de Educação. Têm todo o direito de não gostar da filosofia do treinador e / ou do clube, desde que não se metam no seu trabalho. Não gosta, pode procurar outro clube onde se sinta mais confortável. Se continua, as regras são claras e há que as seguir.

 

Segue alguma metodologia de treino? Ex: Periodização Tática?

Todos os jogos / exercícios que crio têm por base objectivos tácticos. O motor principal do exercício é sempre o comportamento em termos de posicionamento e decisão dentro daquele que é o meu modelo de jogo. O factor técnico e físico surgem-lhe sempre associado. O que não significa de todo que esteja a ser descurado. Essa é a ideia principal com que me rejo quando penso no processo de treino.

 

Como organizas o seu microciclo semanal com jogo de Domingo a domingo?

Ao nível a que estamos treinamos apenas três vezes por semana. Tudo depende do nível a que a equipa está no nosso modelo de jogo. O nível que apresenta em função das nossas ideias de jogo. Depois, o adversário seguinte e os erros do jogo transacto também condicionam o que fazemos durante a semana. Não há um padrão fixo, por exemplo: 3ª feira – Transição Ofensiva; 4ª feira – Organização ofensiva; 6ª feira – Bolas paradas. Não fazemos isso. Depende sempre da avaliação constante que fazemos dos processos de jogo da nossa equipa. Se sinto que estamos menos capazes em organização ofensiva posso estar uma semana inteira apenas preocupado com isso.

 

Sabendo que joga preferencialmente em 4x3x3, tem algum sistema alternativo? Se sim, quando o começa a trabalhar? Logo no início da época ou apenas quando o principal sistema estiver completamente assimilado?

Temos. O 442. Mas confesso que muito mal trabalhado. Treinando tão pouco quando comparado com o alto nível, é complicado desenvolver um sistema alternativo com qualidade. Procuro muito mais a excelência no sistema principal. Sabemos que se tivermos de recorrer ao alternativo, as jogadores saberão os posicionamentos e movimentações gerais. Mas não está rotinado como o principal. Trabalhá-lo não surgiu logo no inicio da época, mas antes quando sentimos que o modelo principal estava bem adquirido e os jogos que viriam no fim de semana teriam um grau de dificuldade menor, que nos possibilitasse estar alguns dias sem continuar a bater naquilo que é o mais importante.

 

Como é que as jogadoras têm conhecimento do Modelo de jogo, é feito uma apresentação ou é através do treino e das conversas?

É pelo treino. Pelo exercício. São explicados os comportamentos pretendidos para cada jogo / exercício, em função de cada momento ou fase, e é no treino que são apreendidos. Não só pela instrução inicial como pelo feedback no decorrer do exercício. Mas é curiosa a pergunta, porque na Escola Superior de Desporto de Rio Maior dei um seminário que contemplou a apresentação do nosso modelo de jogo, e algumas das jogadoras estiverem presentes, acabando por me dar o feedback de que seria interessante também fazer a tal apresentação ao plantel. Muito do nosso modelo acaba por surgir também das conversas no final do treino. Procuramos sempre o que cremos melhor para a equipa e o melhor para a equipa tem de contemplar sempre uma interação das nossas ideias com o conforto das jogadoras perante o que lhes é pedido tacticamente. Elas ou eles é que são o centro de tudo e nós temos de o saber perceber.

 

Alguma vez abdicou de jogar o seu jogo e das suas ideias em função do resultado?

Muito, muito, muito raramente. Nem sempre conseguimos ter dias inspirados do ponto de vista técnico. Nem sempre a exibição corresponde ao que desejamos, mas isso não é nunca porque queiramos abdicar das nossas ideias. Mas posso dizer que recentemente, num jogo em que não estávamos felizes na construção. Num jogo que estávamos a somar perdas e a levar transições, muito por mérito do adversário naturalmente, pedi para fazermos coisas diferentes. E depois de termos chegado à vantagem pedi às laterais para não darem mais profundidade ofensiva. Como sabes, na construção assumimos um 3x4x3 e naquele determinado momento, assim que marcámos o primeiro golo do jogo, já na segunda parte, dei indicação para não haver essa projecção em profundidade das laterais, precavendo as possíveis perdas de bola.

 

Sabendo que gosta que suas  equipas tenham bola e assumam o jogo, se jogasse contra um barça, assumia a inferioridade e baixava as linhas ou tentaria ir de “igual para igual”?

 Depende sempre da qualidade que tens ao teu dispor. Eu sou um defensor de que quem muito se esconde, quem muito se inferioriza menos hipóteses terá de ser bem sucedido. Por minha opção nunca baixaríamos linhas, mas a verdade é que muitas vezes a qualidade adversária nos quebra as primeiras linhas e somos obrigados a baixar para controlar a profundidade. Uma equipa minha recolhida ao seu meio campo a pensar unicamente em defender só porque naquele momento ou jogo específico não estamos a ser felizes, ou individualmente ou porque não preparei a equipa devidamente do ponto de vista colectivo para o jogo. Nunca será por vontade da equipa técnica.

 

Considera que a partilha de conhecimento entre treinadores está mais aberta ou ainda existe muito “secretismo”?

 Os treinadores começam a perceber que partilhar ideias também os ajuda a promoverem-se mais um pouco. As pessoas ficam sempre espantadas quando não me coíbo de partilhar algumas coisas do meu jogar. Mas a verdade é que o foco está nos jogadores e não creio que o sucesso de um treinador passe pelo esconder do seu trabalho.

 

Que opinião tem sobre as competências dos treinadores portugueses?

 Muito boa. Partilho da opinião de que por cá se trabalha ao nível do que de melhor se faz no mundo. Não será por acaso que somos tão requisitados em todo o lado. Somos interessados pela vertente táctica e pela operacionalização das ideias. É verdade que por vezes se sente que podia haver um pouco mais de audácia, mas cada qual sabe do seu contexto. Se vou perder o meu trabalho por perder determinado jogo, é natural que me resguarde mais. Que me exponha menos. Cada um sabe de si e há que respeitar todas as opções.

 

Quais são ou quais foram os seus treinadores de referência?

Primeiro Mourinho. Foi quem mais me marcou. Depois surgiu Guardiola, que considero o mais genial de sempre. É de genialidade que se fala mesmo, porque não é fácil entender as dinâmicas que cria.

 

Qual a sua opinião sobre o nosso Site? Queres deixar uma mensagem aos muitos treinadores que nos visitam?

Está fantástico. Creio que poderá ser uma referência para todos nós. É um projecto inovador e que me desperta bastante a curiosidade em explorar mais. Em interagir mais.

 

Muito Obrigado pela disponibilidade e pela colaboração.

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