Entrevista a Ricardo Sá Pinto

Entrevista a Ricardo Sá Pinto

Ricardo Sá Pinto, não se limitou a fazer da carreira de treinador um transfer da de jogador, procurou aprofundar competências, estudou, trabalhou e mostra-nos o quanto gosta de partilhar as suas ideias e convicções acerca do jogo... A não perder!!

 Neste momento encontra-se sem clube, quais os planos para o futuro?

 Os planos neste momento são o que qualquer treinador idealiza, ou seja, encontrar um clube que me preencha a todos os níveis, que vá ao encontro das minhas ambições, o que cada vez é mais difícil devido à competitividade e qualidade dos treinadores a este nível, é um mercado com muita volatilidade, onde os bons projectos escasseiam e têm muito mais procura que oferta. Posso adiantar que fui para a Arábia Saudita e que me apresentaram um projecto muito interessante, falámos várias vezes, as ideias pareciam existir, queriam evoluir para um aproximar de ideias Europeias acerca de metodologia etc.. e depois de lá chegar verifiquei que não era bem como falamos, tanto na organização como na mentalidade e quando estás habituado a um certo nível e rigor torna-se complicado aceitar ou dar continuidade a determinados projectos.

 

 E em relação ao treino, quais as principais diferenças a nível de metodologia?

Muitas diferenças, no inicio na minha carreira, imperava o treino convencional, o físico era treinado de forma analítica, o treino de conjunto (de organização e estratégia era à 4ºf e na  6ºf o de finalização etc.. depois tive o prazer de trabalhar com o Prof. Carlos Queiroz que foi o treinador que marcou mais a mudança, passando para um treino mais integrado, onde a a dimensão táctica  era a fundamental e onde fizemos as primeiras circulações tácticas, numa primeira fase com a bola a passar de mão em mão pelos jogadores sendo retificado o posicionamento, etc, a partir dai tive vários treinadores que também já trabalhavam na vertente integrada, antes ainda da periodização táctica.

 

Depois de jogar, sentiu-se logo preparado para ser treinador? Que conhecimentos procurou aprofundar?

A paixão pelo treino estava adormecida e veio com o tempo e só quando acabei a minha carreira de jogador pensei efetivamente em ser treinador, sabendo que não bastava a experiencia e sabendo que a gestão dos RH seriam sem dúvida o meu maior desafio, lidar com egos, personalidades diferentes etc, ainda por cima com uma personalidade vincada como a minha, procureiformar-me e procurar criar outras competências não só de futebol mas também paralelas ao futebol, ou seja, licenciei-me em comunicação empresarial e depois fiz mestrado em gestão de desporto e marketing. A comunicação está presente em tudo e no futebol moderno cada vez mais. Quis emancipar o Ricardo Sá Pinto e não querer vingar apenas porque fui o Ricardo Sá Pinto ex jogador internacional mas também o académico e com variadas habilitações, fi-lo para ser justo comigo próprio.

Posso dizer que quando assumi o cargo de treinador principal do Sporting, apesar de jovem estava muito preparado e que mesmo com todas as dificuldades estruturais do clube, conseguimos chegar a uma meia final europeia e não foi à base da raça ou do grito, mas sim da estratégia e da competência no trabalho.

 

Quando jogava já tinha esta percepção acerca do futebol? Esta visão?

Já tinha esta percepção eu percebia bem o jogo, talvez por isso me desgastasse tanto, por vezes penso que se fosse mais egoísta teria tido um aproveitamento individual diferente, mas era algo que para mim não fazia sentido, sempre tive um grande compromisso com a equipa e com os seus objetivos, sabia quando tinha de fechar, compensar, pressionar, etc e também quando faltava uma ligação no jogo, criava linhas de passe de apoio ou de rutura tanto à  largura como em profundidade, sempre pensando no colectivo.

 

Qual o momento do jogo que mais trabalha? Qual a fase dentro desse momento que mais trabalha? Como trabalha a fase de criação da sua equipa?

Trabalho todos os momentos de jogo de igual forma, talvez as bolas paradas sejam o momento que não trabalho como gostaria, talvez por ser o momento que me divirto menos a treinar e sinto também que é o momento que o jogador gosta menos de treinar, vejo que a motivação dos jogadores para este tipo de treino não é tao grande, já fiz de várias formas, desde reservar uma unidade de treino apenas para as bolas paradas; trabalha-las num jogo competitivo, no final de uma unidade de treino etc… depende muito do grupo que tens à tua disposição também. Mas atenção,é cada vez mais decisivo

 

Nas bolas paradas defende à zona, misto ou ao Homem?

Já defendi à zona, misto, e ao H-H, tudo tem a ver com o grupo que tens e com o nível de conhecimento e de características do mesmo. Já comecei com um tipo de abordagem e depois de analisarmos e de falar com os jogadores alterámos, quando chego a uma equipa e a mesma aborda este tipo de lances numa determinada maneira e tem sucesso, numa primeira fase não mudo, a equipa está habituada a defender daquela determinada maneira e opto por não alterar, julgo que temos de conhecer bem os jogadores, falar e ouvi-los para que a abordagem seja a melhor. Se o adversário tem um homem forte nas bolas paradas, se defendemos à zona, talvez faça sentido uma marcação mista, H-H neste homem, mas muitos treinadores sabendo deste tipo de marcação usam este homem também para bloqueio…portanto a abordagem tem muito a ver com a tua equipa e o adversário em questão.

 

Como jogador, o que nunca aprendeu que tenta ensinar aos seus jogadores?

Trabalho individualizado, algo que faço muito e gosto. No campo, por posições e relações diretas, ou antes ou no final do treino. É algo que julgo que valoriza o jogador e ajuda-o depois nas suas tarefas habituais. Exemplo defensivo, situações 1x1, dificuldades na contenção, etc … e  trabalhar também aspectos ofensivos, trabalho técnico, de recepção em apoio ou orientado, trabalho de remate , cruzamentos etc..muitas das vezes existem jogadores profissionais que não sabem rematar à baliza e os treinadores pensam “ neste nível não vou ensinar a rematar a baliza”…porque não? Deve-se trabalhar. Não podemos ajudar o jogador a melhorar independentemente da idade ou experiência? O jogador tem sempre margem de evolução. Gostava de ter mais tempo para treinar, mas deparo-me sempre ou com a falta de tempo ou que os jogadores não estão disponíveis mentalmente para outro tipo de treino e temos de saber jogar com isto, pois não há tempo para treinar tudo o que queremos. Claro que o trabalho de análise em vídeo e, as correções individuais e os feedbacks positivos são sempre um grande complemento e também são feitas. Algo que não acontecia no meu tempo de jogador

 

Procura ser muito interventivo durante um exercício ou deixa rolar o exercício e faz uma análise /resumo no final?

Devemos sempre explicar bem o exercício e deixar rolar, procuro passar só o feedback suficiente para que não massacre o ouvido do jogador, não lhe tire a concentração nem a capacidade de decisão. Não condiciona-lo nesse aspecto.

 

Actualmente qual o seu treinador de referência? E qual o que mais o marcou?

Eu gostava muito do futebol ofensivo do Co Adriaanse, aquele 3x4x3, joguei contra eles e senti que jogavam mesmo muito, também já o tinha defrontado como jogador quando jogámos frente ao AZ Alkkmar e  com uma equipa sem muitas individualidades, o futebol era muito agradável.

Como já referi o prof. Carlos Queiroz também me marcou pela diferença no método.

 

Futebol pensado em organização ou vertiginoso em transição?

No futebol atual, as equipas têm de saber jogar em todos os momentos do jogo. É claro, que existem modelos, padrões, tendências que definem maioritariamente o “jogar” de uma equipa. No meu caso, gosto de jogar um futebol “pensado”, estratégico, sem tirar a criatividade, alegria de jogar e a decisão ao jogador e da equipa. Agora, diz-me o que tenho e dir-te-ei que jogo vou jogar...

 

Como é composta a sua equipa técnica e de que forma distribui e delega funções nesses elementos?

Se pudesses ter uma equipa técnica completa (pois em muitos projectos isso não é possível), teria um treinador adjunto cujas competências fossem tantas ou mesmo melhores que as minhas, para operacionalizar e transmitir a mesma mensagem aos jogadores e, para tomar decisões também, por isso é chamado de segundo treinador. Um fisiologista (preparador físico), para controlar fundamentalmente o treino, a relação do esforço e do repouso, julgo que cada vez mais é mais importante alguém que possa ajudar neste aspecto os jogadores e o próprio treinador, ou seja, para mim é fundamental que o modelo de jogo esteja sempre presente e não desintegrado. Se pudesse juntar um outro treinador para trabalhar com este para ajudar em questões como: Fazer transfer para quem está lesionado ou a fazer trabalho especifico no ginásio ou no campo, fazer um trabalho de recuperação com os mais utilizados, etc.. e um treinador de GR vejo o jogo de trás para a frente e é fundamental na minha equipa técnica. Muito importante também ter um analista connosco, análise colectiva e individual da própria equipa e adversário, dou muita atenção a este tipo de trabalho de forma a conseguir ajudar ao máximo os nossos jogadores.

 

Actualmente alguns treinadores já filmam os seus treinos, que relevância pode isso ter na rendibilidade da equipa e do processo?

Também o faço e julgo que é importante para perceber se a dinâmica pretendida esta a ser a correta. Analiso a atitude global dos jogadores, alerta-me para algumas correções específicas, avalio os exercícios e a própria unidade de treino. Resumindo, faço uma análise e falo com a equipa ou com os jogadores em questão se for necessário.

 

Que critérios utiliza para a palestra aos jogadores no dia de jogo? O que é mais relevante na sua comunicação nesse momento?

Estrategicamente a equipa já foi trabalhada desde o início da semana, neste dia faço um resumo curto e um apanhado do que vamos apanhar no jogo, reforço o que fizemos durante a semana. Depois mediante o adversário e a estratégia, preparo a palestra motivacional. Tento focar e tirar partido do melhor de cada jogador.

 

Qual a sua opinião sobre os treinadores Portugueses?

Boa! No sentido da organização, estratégia e da paixão pelo treino e jogo. Talvez muitas das vezes por querermos ser perfeccionistas e ao mesmo tempo teimosos, tenhamos alguns dissabores. Precisamos de ser em algumas situações um pouco mais práticos, objetivos e humildes.

 

Que opinião tem da WI COACH?

Muito válido, parabéns! já estão a ajudar na partilha entre os treinadores, acho que o caminho é este. E na valorização daqueles que não tem espaço para mostrar o seu trabalho. Muitas felicidades!

 

 Muito Obrigado pela colaboração!

 

 

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