Entrevista Prof. Carlos Dinis

Entrevista Prof. Carlos Dinis

Treinador com vasta experiencia e conhecimento no futebol de formação mas também no futebol profissional. Obrigatório ler!

Entrevista - Professor Carlos Dinis

 

O grande público conhece-o atualmente como comentador, mas já conta com um longo curriculum como treinador de Futebol, como foi esta mudança?                                                                                           

A mudança aconteceu naturalmente, aliás algo que tem sido comum na minha vida profissional, não foi programada mas sim consequência de ter terminado a minha colaboração com a Federação Portuguesa de Futebol como Treinador Nacional, que teve a duração de 12 anos e 350 jogos realizados pelas várias Seleções Nacionais. Passado algum tempo fui convidado pela Sport TV para ser seu colaborador (comentador de futebol) que aceitei com todo o entusiasmo, numa área nova para mim, mas que me veio dar uma prespetiva do jogo de um lado que nunca tinha partilhado.

 

Onde se sente mais em “casa”, mais à vontade, no papel de comentador ou no campo?                                                          

Nos anos que tive a oportunidade de ser treinador, vivi experiencias completamente distintas, treinei em vários clubes modestos e em vários escalões etários, em dois desses clubes nem campo tínhamos para treinar, também o material disponível era muito reduzido, os recursos humanos exíguos, por outro lado o momento era bem distinto do que vivemos hoje, onde temos toda a informação ao carregar numa “tecla”, depois Sporting C P na formação, Atlético CP sénior e Seleções Nacionais, o que me deu a possibilidade de ter um percurso evolutivo e onde consegui crescer como treinador de forma sustentada. Ultimamente e já passaram mais de 6 anos no papel de comentador de futebol na Sport TV e, pelo meio um ano na RR, onde penso que tenho conseguido melhorar a minha comunicação e onde me sinto tranquilo, sempre exprimindo de forma bem independente as minhas convicções e opiniões.

 

Neste momento, espera que o telefone toque com uma proposta de um clube?                                

Todos os treinadores têm naturalmente a ambição de estar no terreno, o “bichinho” ando por cá, no entanto neste momento da minha vida e depois de várias experiencias acumuladas, sempre dentro do contexto futebol, só ponho a possibilidade de voltar a treinar dentro dum quadro que seja de boa qualidade a todos os níveis.

 

O facto de ter estado ligado 12 anos à FPF foi algo programado ou foi acontecendo? Prefere trabalho de seleção ou de clube?

A minha colaboração com a FPF foi a convite do Dr. Alberto Silveira, que infelizmente já não esta connosco, trabalhava na altura como Diretor técnico da AFL e na equipa sénior do Atlético CP, e o convite era por uma época desportiva. Fiquei 12 anos, onde usufruí uma experiencia humana e desportiva que considero de grande riqueza, onde tive a possibilidade de partilhar momentos de êxito coletivo (Campeão Europeu Sub/17, vice Campeão Europeu Sub/19, Vencedor dos Jogos da Lusofonia Sub/23, etc.) e outros menos bons, mas em todos eles, penso que consegui crescer como ser humano e treinador. No clube naturalmente tudo é diferente tanto ao nível do treino, como no dia-a-dia, mas viver os dois lados deu me a possibilidade de ter uma visão global das várias vertentes que fazem parte deste jogo apaixonante, bem como a possibilidade de ter uma visão clara dos interesses que muitas vezes são de alguma colisão e noutros momentos de interesse coletivo.

 

Nestes momentos de pausa (de treinar uma equipa), um treinador usa-a para melhorar o seu modelo de jogo?            

Está sempre implícito para qualquer treinador poder melhorar o seu rendimento/comportamento, no entanto como tenho tido a possibilidade de ter experiencias complementares, digamos que não é para mim uma preocupação diária, mas uma preocupação natural.

 

Que fatores tem em conta na construção do seu Modelo de jogo?

Saber o contexto competitivo em que vamos estar inseridos, que tipo de jogadores vou ter à minha disposição, suas características, os objetivos a que nos propomos no início da época, são fatores determinantes para podermos construir um modelo que possa ter êxito. Mas claro que tanto no processo ofensivo, como no defensivo e mesmo em cada posição que os jogadores ocupam no campo, terão que haver ideias claras e processos a seguir.

 

 

Fale-nos um pouco sobre o mais recente projeto –“Player Rate”, que tem em parceria com o Professor Rui Oliveira?

Os dois tivemos uma experiencia enriquecedora através da ESAF/BES, onde fizemos parte integrante do Comité de Investimento do “Benfica Star Fund” e Sporting Portugal Fund”, onde tínhamos como atribuições fazer a avaliação dos jogadores que poderiam fazer parte destes Fundos. Assim fazíamos observação, caraterização, bem como a quantificação do valor de mercado dos jogadores que na nossa opinião poderiam integrar os referidos fundos e posteriormente sugeríamos a percentagem a adquirir. Claro que também tínhamos que nos identificar com os movimentos desse mesmo mercado para podermos estabelecer critérios comparativos.

É toda essa experiência que estamos a transportar para a Player Rate, onde nos propomos avaliar jogadores e quantificar a sua avaliação de forma independente, através de Relatório Básico e Relatório Avançado, para todo um universo do futebol,

Desde que começou, mudou muito os teus métodos de treino e de preparação para o jogo?    

Tudo mudou e muito, quando comecei a treinar a referência era o treino do Atletismo, logo dá para perceber que o contexto era bem diferente, muito treino sem bola e sem uma vertente clara orientada para o jogo. Tudo mudou, o treino integra bola quase a 100% e sempre com o jogo como referencia, também na sua preparação há sem dúvida uma análise cuidada sobre todos os aspetos da equipa contrária e da nossa.  

Para si o que é jogar bem?

Será com certeza capacidade de harmonizar o talento/arte com o espírito coletivo, enquanto em posse conseguir chegar á área contrária com processos eficazes, que são normalmente simples e necessariamente criar situações de finalização, mas claro que a arte de defender bem é algo cada vez mais importante.

 

Ainda existe marcação H-H no futebol ao mais alto nível?

Alguns treinadores em situações específicas ainda o utilizam.

 

Ainda há muitos treinadores a confundir jogar à zona com passividade?

Neste momento penso que não.

 

Considera que a partilha de conhecimento entre treinadores está mais aberta ou ainda existe muito “secretismo”?                          

Claro que com a evolução dos tempos as mentalidades tem mudado no bom sentido, muitos tabus tem caído, no entanto infelizmente ainda existem alguns treinadores que tem o segredo milagroso bem guardado e, não pode ser divulgado.

 

Que opinião tem sobre as competências dos treinadores portugueses?

Os treinadores portugueses tem demostrado grande competência e senão vejamos, temos cerca de 250 a trabalhar no exterior tanto no futebol de 11 como no futsal e com muitos títulos pelo meio, que melhor cartão de visita para um país tão pequeno. O futebol através dos jogadores e treinadores portugueses tem sido um veiculo de promoção do nosso país.

 

Quais são ou quais foram os seus treinadores de referência?

Claro que tenho referencias no universo dos treinadores portugueses, começaria com Artur Jorge pois cada entrevista sua nos jornais desportivos da época era devorada, o seu percurso até dado momento foi capaz, no Porto, no PSG como exemplos, Jesualdo Ferreira no meio de tempos difíceis, de algumas lutas dentro da classe, e que veio dar outra organização e visão ao treino, depois Carlos Queirós pelo novo modelo organizativo, uma visão de futuro para o futebol português e ainda dois títulos mundiais, infelizmente não conseguiu depois disso ter a dimensão e os valores humanos que estão inerentes á classe de treinadores, José Mourinho com todo um estilo controverso mas de grandes êxitos, Fernando Santos que introduziu um discurso ambiciosos na Seleção Nacional e soube gerir todos os recursos disponíveis e, foi “só” Campeão Europeu. Nos mais jovens quero referir alguns treinadores que merecem a minha admiração por todo um percurso ascensional e a percorrerem várias etapas e, pelos também pelos êxitos conseguidos, Leonardo Jardim, Marco Silva e claro Rui Vitória.

 

Qual o momento com mais significado da sua carreira?

Vivi todos os momentos com grande entusiasmo, porque o futebol sempre foi uma paixão, a partir de dada altura foi também um modo de vida que passei a assumir com grande profissionalismo, penso que poderia ter sido melhor se tivesse tido oportunidade de trabalhar em dado momento com outros recursos, mas não exulto com alguns títulos que conquistei, mas sim com o privilegio que tive de ter sido treinador de jogadores de nível mundial, foram muitos, ter contribuído também embora com uma pequeníssima parte para a sua evolução, esses são de facto os meus maiores troféus.

 

Onde se vê daqui a 5 anos? A treinar, a comentar ou a gerir o seu novo projeto?

Não costumo fazer projetos a longo prazo, saem quase sempre furados, por isso prefiro focar-me neste novo projeto da Player Rate, que me parece pelos indicadores que possuímos, vai ter futuro e, quem sabe se novas oportunidades se me deparam.

 

Quem é o professor o Professor Carlos Dinis fora dos ecrãs, fora dos relvados? O que gosta de fazer nos tempo livres?

Sou um cidadão comum que vim duma pequena vila, Sobral de Monte Agraço, fui criado com valores transmitidos pelos meus pais que muito importantes se têm revelados, tenho um filho de que muito me orgulho, hoje Diretor do Jornal Publico e, duas netinhas fantásticas. Gosto de ler, de estar perto do mar e de o poder contemplar, de uma boa conversa que não será necessariamente só de futebol, de reunir amigos e claro uns bons almoços, cinema e espetáculos de âmbito diverso ao vivo de preferência, ah gosto de cozinhar etc....

Qual a sua opinião sobre o nosso Site? Quer deixar uma mensagens aos muitos treinadores que nos visitam?

Opinião naturalmente favorável, onde a partilha de conhecimentos é algo cada vez mais importante e decisivo no crescimento individual em cada profissão, neste contexto “esta formação” que é proporcionada pelo vosso site, tem naturalmente a maior importância.

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