Norton de Matos

Norton de Matos

É um homem que faz jus ao que o Prof. Manuel Sérgio um dia afirmou: "quem só sabe de futebol nem de futebol sabe"! Excelente Entrevista de um treinador com percurso riquíssimo no Futebol. Norton de Matos "convida-nos" a conhecer melhor as suas ideias. Percebe-se que é muito mais que um treinador. A não Perder!

Todos os que estamos familiarizados com o futebol conhecemos o Norton de Matos. Contudo gostaríamos de saber quem é o Norton de Matos fora do Futebol?

R: Sobretudo um homem virado para a família. Sou de uma família grande que me habituou sempre a um convívio regular semanal ao longo de anos e anos. Imprescindível.

Sendo a família o aspecto mais importante da minha vida, a minha base e o meu porto seguro, sempre consegui viver com um grande conforto emocional , com um pensamento livre e sem ter medo de desafios, aventuras e desaires.

Desde a infância que o futebol é uma parte muito importante e significativa da minha vida. Mas não é tudo. Sempre fui ávido da cultura e do saber. A literatura, o cinema, a música e a escrita são também partes essenciais da minha vida. Sem eles sentir-me-ia brutificado.

Leio muito, hábito adquirido desde criança. Materializei o sonho de escrever um livro: “A Noite em que te Vinguei”, um romance que me encheu de satisfação a alma e a mente.

Aos 6 anos vi o meu primeiro filme no cinema. Tornou-se uma paixão para a vida. Também tive a satisfação de ter entrado em diversos filmes sendo que num deles fui o actor principal. “Voltar” do realizador Joaquim Leitão. Que sensação fascinante.

Em relação à música não tem explicação a minha paixão pela diversidade de estilos - fado, música portuguesa, rock ,soul, pop, funk, clássica, jazz, ópera....-que sempre me fizeram viajar através de sentimentos e emoções, perdendo a noção do tempo. Que companhia mais agradável! Como jogador outrora e como treinador agora, a música esteve sempre presente antes dos jogos . Tem um efeito de relaxamento.

Como corolário desta paixão natural pela música foi fantástico ter um programa da minha autoria - Ruídos de Inveja- na M80.

 

Como foi o seu percurso até a este momento? E se está onde julgava quando iniciou a sua carreira?

Comecei a dar os primeiros pontapés numa bola no Colégio São João de Brito em Lisboa. Mas só entrei no futebol federado aos 16 anos pela mão do meu amigo Manuel Arouca que, colega de estudos no Colégio Manuel Bernardes, me levou ao Estoril Praia, clube onde jogava nos juvenis. Assim o Estoril foi o meu primeiro clube a que se seguiu o Benfica, Académica, Atlético, Belenenses, Standard de Liége, Portimonense e Estrela da Amadora. Durante esse percurso joguei pela selecção de Juniores, selecção Olímpica, selecção de Esperanças e Selecção AA.

Como treinador comecei no Atlético, depois Barreirense, Espinho, Salgueiros, Vitória de Setúbal, Vitória de Guimarães, Benfica B, Chaves e União da Madeira.

Também treinei o Étoile Lusitana no Senegal. Clube fundado e treinado por mim, direcionado para a formação. Durante 5 anos. Transferir jogadores para o futebol italiano, francês, belga e português foi uma enorme satisfação. Do puro futebol de rua para o profissionalismo.

Tive uma passagem curta pela selecção nacional de sub 21, na altura dos selecionadores Artur Jorge, Toni e António Oliveira e treinei a selecção da Guiné Bissau.

Quando faço um balanço da minha vida futebolística fico naturalmente satisfeito em termos globais. Mas poderia ter ido muito mais longe como jogador se não tivesse tomado a pior decisão da minha vida que foi recusar ter ido para o Benfica no auge da minha carreira (Jogava na altura no Portimonense e era titular da selecção portuguesa). Um erro que penalizou muito a minha carreira. Como jogador e treinador.

Como treinador tenho a noção de estar muito aquém daquilo com que sonhava. Preparei-me desde os meus 20 anos para ser treinador. Era um objectivo e aos 24 anos já era treinador de futebol, formado no ISEF. Recordo a minha estreia tardia na I Liga no Vitória de Setúbal onde à 14a jornada tinha 29 pontos à frente de Sporting e Benfica!!! Um record deste século que será muito difícil de bater. Tive que sair por problemas de salários em atraso, porque a defesa intransigente de um grupo foi mais importante que a minha situação pessoal. Foi uma situação que marcou muito negativamente o meu futuro. Nos valores em que fui educado sei que estava certo. Nos valores da sociedade actual estive naturalmente errado.

Mas a vontade de treinar está intacta, (intenção) porque a paixão continua a existir (emoção). A intenção necessita de emoção, porque é esta que alimenta a intenção. Se temos uma intenção sem nenhuma energia por trás a nossa energia baixa e a intenção é baixa, logo difícil de alcançar.

O sonho continua a comandar a minha vida, por isso, independentemente do clube ou país, sei que o meu destino é estar à frente de uma equipa e lutar pela concretização de metas que ainda não atingi. Cláudio Ranieri ou Trapattoni são bons exemplos de inspiração. Não há idade nem barreiras para se atingir o top.

 

Como foi a experiencia de treinar uma selecção como a Guiné Bissau?

R: Extremamente enriquecedora pelas enormes dificuldades que existem num projecto que arranca do zero. Surgem sempre novos problemas para os quais temos de encontrar soluções. A minha experiência de na altura estar a viver num país vizinho, o Senegal, ajudou-me muito a lidar com a mentalidade e no trabalho de sensibilização dos vários agentes de decisão local - primeiro-ministro, secretário dos desportos, presidente da federação - para a importância da organização e disciplina que eram necessárias para estruturar uma selecção competitiva. Mas também sei que sozinho não conseguimos fazer tudo. Desde o inicio tive a colaboração preciosa e imprescindível do meu treinador assistente- Hélder Fontes -. Desde a logística das convocatórias, planificação dos estágios, logística das viagens, treinos, comunicação, equipamentos (muito importante para a imagem) cumprimento de horários, nutricionismo e apoio médico, tudo foi preparado com rigor. Depois tivemos de convencer jogadores guineenses que jogavam em Portugal a representarem o país. Montamos uma equipa competitiva muito jovem e inexperiente, com muitos jogadores das divisões secundarias. Zezinho, Mamadu Candé, Idrissa Camara, João Mário, Jonas foram alguns dos jovens que entraram neste projecto inicial. Conseguimos convencer outros jogadores experientes como o Basile de Carvalho, Cícero, Sami, Moreira, Ivanildo e até na França, Suécia e Inglaterra desencantamos guineenses. Ainda convocamos o Eder .que estava na Académica mas não foi possível. Falei com o Martins Indi mas estava a um passo de jogar pela selecção holandesa o que veio a acontecer.

Conseguimos uma base de futuro que devolveu a identidade de seleção ao país. A vitória histórica sobre o Quénia, teve manifestações por todo o país, independentemente da cor política, tribal ou religiosa. Foi único.

Vejo com alegria que a base da equipa continuou e, como afirmei muitas vezes, a Guiné Bissau estaria com naturalidade na fase final da CAN em 2017. o que aconteceu. Desfecho lógico do desenvolvimento de um plano de trabalho.

O mínimo que é exigível a esta excepcional geração de jogadores guineenses é a passagem histórica aos quartos-de-final da CAN. Mas para isso é fundamental seriedade, disciplina e organização na preparação deste importante evento futebolístico. E sobretudo um critério de isenção nas escolhas dos jogadores.

 

No seu currículo existem passagens pela formação, nomeadamente numa escola de talentos no Senegal e na fase final da formação de jogadores no Benfica B. Na sua opinião como está a formação em Portugal? O que acrescentaria ou mudaria para melhorar?

A formação em Portugal está numa óptima fase de sucesso, consolidada desde há alguns anos.

Na fase final dos anos 80 dá-se a grande revolução na formação do futebol português, e o grande responsável foi o Prof. Carlos Queirós. O corolário lógico dessa mudança foram os títulos de Campeão do Mundo de sub 20, Ryade em 1989 e Lisboa em 1991, que colocaram Portugal num trilho de êxitos que ainda hoje perdura. Os clubes passaram a olhar de maneira diferente para o futebol jovem, a pouco e pouco passou a haver muitos jogadores saídos dos juniores a integrarem os planteis seniores profissionais e, inclusive, a jogarem de forma mais regular.

Ao mesmo tempo os clubes começaram a pensar ter complexos desportivos de treino onde desenvolveriam as suas academias de jovens. A primeira referência que tenho presente foi a do Vitória de Guimarães, criada pelo Dr. Pimenta Machado.

Depois construíram-se mais academias de grande gabarito: Sporting, Benfica e Porto, sendo as duas primeiras referências de excelência em todo o mundo, com largos dividendos para o futebol profissional dos respectivos clubes e das selecções nacionais. Felizmente que actualmente muitos outros clubes enveredaram por esta via.

Mas o mais importante desses títulos foi a quebra de tabus em relação ao mundo académico, os chamados “preparadores físicos”, ao qual Queirós pertencia. Tal como o Prof. Jesualdo Ferreira outro nome fundamental na formação do futebol português. E não podemos esquecer o pai ideológico desta corrente académica, da qual era e é defensor acérrimo: Prof. Manuel Sérgio.

Hoje a maioria dos clubes melhoraram bastante a visão em relação ao futebol jovem, com melhores condições de treino, com bastantes licenciados na FMH a integrarem as estruturas técnicas. Com isso melhorou muito o aspecto qualitativo da competição e as selecções beneficiam bastante de toda esta melhoria do processo de treino dos clubes.

As equipas B foram outro passo decisivo para o aparecimento de novos valores, sobretudo pela oportunidade que muitos jogadores no seu primeiro ano de seniores, e muitos deles ainda como juniores, poderem jogar ao nível profissional sénior.

 

Já desempenhou cargos de diferentes competências na área do futebol, nomeadamente director desportivo. São experiencias para repetir?

R: A minha experiencia de vida e do futebol, aliado aos conhecimentos, permite-me uma polivalência para o desempenho de vários cargos. Sinto-me à vontade de abraçar diferentes áreas num clube. Poderia ser CEO de um clube, director desportivo, director da formação , manager, coordenador na área do scouting, treinador...Tudo depende do momento e da seriedade do projecto. Mas o meu foco principal, o meu grande amor, continua a ser o cargo de treinador.

 

No início de época, como é a primeira semana de trabalhos e que objectivos pretende alcançar?

R: O início de época é o período mais importante da preparação da equipa para a toda a época.

Por ser extremamente importante é fundamental e decisivo ter um mínimo 90%do plantel definido nos primeiros dias de treino.

Porque nesse período começa logo o treino do modelo de jogo preconizado. Toda a ideia de jogo é trabalhada desde o início.

Normalmente a minha planificação na primeira semana contempla sempre treinos bi-diários durante 6 dias e ao 7ºdia é fundamental que ter uma primeira abordagem competitiva, num jogo treino.

Outro objectivo fundamental na primeira semana de trabalhos é ter possibilidade de efectuar um estágio porque isso permite o contacto, o conhecimento de todos os elementos do grupo. Criar um espírito solidário, de amizade, entreajuda neste contacto diário vai ser fulcral para a época.

 

Como é um Microciclo tipo em período de competição?

R: Jogo domingo.

2ºfeira de manha – treino de recuperação para os que jogaram mais de 60´e normal para os restantes.

3ºfeira – folga

4ªfeira- Bi diário

5ºfeira – Treino tarde

6ªfeira – Treino manhã

Sábado – treino de manha

Domingo - Jogo.

 

Qual o momento do jogo em que investe mais tempo de preparação? E porquê?

R: Como tenho uma concepção do treino integrado, trabalho todos os dias o meu modelo de jogo, incluindo as bolas paradas, contemplando os vários momentos do jogo, que são todos igualmente importantes. Por exemplo vejo muitos treinadores fazerem posse de bola, mas muitas vezes é apenas posse pela posse. Eu tento dinamizar a posse com objectivos precisos, sendo o de finalização um deles.

 

Que características procura dotar as suas equipas nos vários momentos do jogo?

R: Tomadas de decisão. Quanto mais rápidas e eficazes, mais perto do sucesso. Para isso acontecer é importante a inteligência de interpretar o jogo. A análise rápida da situação que se depara, a reacção ao estimulo e a capacidade de o identificar. Isto tem a ver com a posição no campo, com a posição da bola, saber antecipar o que adversário vai fazer, que espaço vai ocupar. Importante treinar a equipa nas situações mais próximas da complexidade do jogo. Treino difícil, complexidade máxima torna o jogo fácil. O contrário, que acontece muitas vezes, torna o jogo muito mais difícil.

 

Quando analisa um jogo, ao que dá maior importância numa primeira fase?

R: Quando analiso um jogo como forma de observação de um futuro adversário estou muito habituado a captar a generalidade dos pontos mais importantes (fortes e débeis) desse mesmo adversário. Com os apontamentos que vou tirando ao longo do jogo, ganham importância os detalhes do adversário a que dou particular atenção: bolas paradas, circuitos preferenciais na organização de jogo, dinamização dos flancos, influencia dos médios e laterais no jogo ofensivo, movimentação do ponta de lança....

Tudo é importante.

 

Como se define enquanto Líder de uma equipa de futebol? Que características mais relevantes do Líder podem conduzir ao sucesso na gestão de grupo?

R: A liderança não se estuda nos livros. Liderar é influenciar. Para se ser líder é preciso ter seguidores. Ter capacidade de influenciar o comportamento de outras pessoas. Liderar pressupõe relação e relação pressupõe comunicação.

Há pessoas que nascem com características de liderança, o que é inato, mas a sua maior aprendizagem está na experiência de vida.

Conhecimento qualquer jovem tem mas por mais conhecimentos que tenha, é a experiencia de vida que traz a sabedoria. Essa experiência faz a diferença.

A sociedade actual não prepara os jovens para o insucesso. As pessoas só evoluem operacionalizando o que aprenderam, errando mas aprendendo com esses erros para evoluírem. A maturidade chega quando conseguimos juntar o conhecimento à sabedoria.

Ao longo da minha carreira de treinador tenho sentido uma evolução na minha forma de liderança, porque justamente a experiência foi moldando a minha personalidade de líder.

Mas sempre procurei liderar os meus grupos de trabalho através de uma liderança natural e nunca através de uma liderança formal inerente à força, ao poder do cargo de treinador. Mas sei que há um aspecto fundamental para se ser líder de uma equipa de futebol: igualdade de tratamento a todos os jogadores, desde o mais titular ao menos utilizado. Tento actuar mais como o líder de um gang, ou um irmão mais velho, em defesa intransigente do grupo em relação ao exterior.

 

Como é composta a sua equipa técnica e de que forma distribui e delega funções nesses elementos? Tem algum elemento especializado na vertente Mental/Comportamental de forma a coadjuvá-lo no sentido de potencializar o rendimento dos jogadores e da equipa?

R: Trabalhei sempre com equipas técnicas muito pequenas. Um treinador adjunto, um outro treinador adjunto com maior vocação para a área da prevenção e recuperação, um treinador de guarda redes e um observador de jogos responsável pelos relatórios da equipa adversária. Muitas vezes assumindo eu as despesas da parte da observação.

Tive a sorte de na maioria das escolhas ter sido sempre gente mais nova com quem aprendi bastante, realçando o Hélder Fontes e o Hugo Martins, meus valiosíssimos braços direitos.

Por exemplo aprendi muito com o Prof. João Pedro Silva no União da Madeira na área da prevenção e da recuperação. Do melhor que conheci no futebol com lugar nos mais altos patamares de alta competição no mundo.

Na vertente mental/comportamental continuo a pensar que a maioria do trabalho foi e é da quase exclusividade da equipa técnica.

Tive várias experiências com psicólogos e confesso que, excepção feita no trabalho na selecção da Guiné, as outras foram uma decepção completa. O problema mais frequente é a vontade de intromissão nas áreas que não lhes dizem respeito.

O ideal seria ter um elemento com o perfil do prof. José Neto. Conhecedor do futebol e da psicologia e com muitos anos de experiência acumulada. Mas não há muitos

 

Quais as estratégias que usa para representar, no treino, a carga emocional que surge nos jogos, principalmente, nos jogos de carácter decisivo?

R: Há um conceito que tenho presente desde o primeiro dia de treinos: todos os jogos são decisivos. Por isso o treino tem de ser próximo da realidade daquilo que vamos encontrar no jogo. A melhor estratégia é preparar diariamente a concentração e o foco para ganhar todos o jogos. Com concentração, rigor e intensidade. Este o grande desafio para o treinador. Nunca deixar o grupo relaxar.

Tenho uma metodologia própria de treino através de exercícios com bola (situações de jogo) que obrigam os jogadores a estarem concentrados. Curiosamente nestes exercícios são os próprios colegas os primeiros a chamarem a atenção a um jogador desconcentrado.

O objectivo não é tanto ver ou fazer o que ainda ninguém fez mas pensar e fazer aquilo em que ninguém pensou sobre o que todos veem.

 

Existem diferenças entre o futebol quando iniciou a carreira e o futebol actual? Se sim, quais?

R: O alto profissionalismo de outrora seria considerado amadorismo nos dias de hoje. Houve uma evolução e revolução enorme, tal como a sociedade, em todos os aspectos. A qualidade do treino actual reflecte os enormes progressos dos conhecimentos das equipas técnicas aliados a uma enorme melhoria das condições de trabalho. Passou-se do empirismo, que continua a ser importante, para o científico.

Quando iniciei a minha carreira jogava com botas de travessas, mais tarde pitons de madeira, mas na dureza dos pelados muitas vezes ao intervalo tinha de martelar os pregos que faziam sangrar os pés.

Sou de um tempo em que jogava na I Liga e quase 50% dos clubes utilizavam campos pelados!! Como raras eram as equipas que tinham um relvado para treinos, muitos dos treinos eram em pelados (inicio doas anos 80). Então no Inverno era quase impossível treinar em relva. (Apesar de ainda hoje clubes da I Liga terem este problema).

Sou do tempo que se faziam infiltrações (com produtos que hoje são proibidíssimos), para aliviar dores, antes de entrar para o aquecimento a fim de poder jogar. Muitas vezes não dava.

Hoje há muito mais trabalho de prevenção, muito menos recurso ao doping, enorme melhoria na medicina desportiva nomeadamente nas técnicas operatórias de lesões graves e na recuperação.

O material de treino e jogo está muito melhor.

A nutrição passou a ter um papel muito importante na preparação diária dos atletas.

Em suma há uma maior educação e consciência profissional dos jogadores. Estes são igualmente mais cultos e tem acesso a muito mais informação que no passado.

 

Que diferenças encontra entre o Norton de Matos de início de carreira para o actual?

R: No inicio da minha carreira estava muito influenciado pela teoria do treino e pelas ideias de treinadores marcantes na minha etapa de jogador. O meu guru de treino era Ernst Happel ( o treinador de referencia do século XX juntamente com Kovacs e Rinus Michels), de quem tinha anotado num dossier os 2 anos de treino em que trabalhei com ele (tinha 24 anos). Era a minha Bíblia e confesso que muitos desses treinos, só me apercebi mais tarde, tinham uma riqueza que estava muito à frente do tempo. Nada do que treinava na Bélgica nessa altura tinha a ver com o que tinha feito até então em Portugal. Em 1978 havia uma enorme diferença nos processos de treino.

Com o evoluir da minha carreira, e um vivenciar da prática regular da competição, levou-me a ter mais ideias próprias, tornei-me muito mais estudioso do jogo e a procurar soluções de treino que me ajudassem a resolver com mais facilidade os problemas da competição. Criei e desenvolvi o meu próprio método de treino. Passei a ter uma maior auto estima e confiança. Aprendi a controlar melhor as emoções, a relativizar o sucesso e o insucesso e a ter uma melhor comunicação.

 

Que conselho pode dar a quem está no início da carreira de treinador?

R: O mais importante para um treinador é ter uma linha de conduta coerente com as suas ideias. Ter humildade para reconhecer que a vida é uma constante aprendizagem e estar aberto a aprender com os outros. Fundamental reunir colaboradores que, mais do que amigos ou conhecidos, sejam competentes nas respectivas áreas. Saber delegar responsabilidades. O sucesso é compartilhado. Nenhum treinador ganha sozinho.

E lembrem-se que não há “treinadores jovens ambiciosos” como muitos dirigentes teimam em proclamar quando estão à procura de um treinador. Porque a ambição e a excelência não tem idade. Não conheço nenhum treinador que não tenha ambição.

 

Na sua opinião, quais são, actualmente, as maiores referências enquanto treinadores nacionais? E num futuro próximo?

R: Mourinho é e será por muitos anos a principal referencia dos treinadores portugueses.

A verdadeira dimensão de um treinador está associada ao grau de dificuldade dos países onde treinam. Quais os 5 campeonatos top do futebol mundial? Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França.

Quem treina ou treinou nestes campeonatos? Mourinho, Leonardo Jardim, Paulo Sousa, Carlos Queirós, Villas Boas e recentemente Sérgio Conceição.

Quem ganhou um titulo ou mais neste contexto de dificuldade máxima? Apenas um: Mourinho.

Quem ganhou Liga dos Campeões: Mourinho por 3 vezes.

Em quantos países acima referidos ganhou títulos? Inglaterra, Itália e Espanha.

Tenho de falar obrigatoriamente de outra uma importante referência como treinador, muitas vezes injustiçado, que se chama Artur Jorge. Também ganhou uma Liga dos Campeões, mas sobretudo na década 80, trouxe novas ideias e conceitos que foram uma lufada de ar fresco no convencionalismo existente.

Leonardo jardim tem efectuado um percurso absolutamente excepcional no Mónaco. Todos os anos tem de refazer a equipa e recomeçar de novo porque valoriza tanto os jogadores que acabam por ser vendidos.

Um treinador vê-se pelas ideias, pelo discurso, pela postura, pela filosofia de jogo, pela regularidade exibicional, pela valorização dos jogadores e pelos resultados. Nesse campo sou um adepto incondicional de Paulo Fonseca (o futebol praticado pela Paços de Ferreira e pelo Braga eram do melhor que havia em Portugal), tendo o jogo da sua actual equipa - o Shaktar – a sua marca de qualidade indiscutível. Marco Silva é outro treinador cujo trabalho me dá prazer de ver.

Estes dois treinadores, que tive o prazer de treinar, no Barreirense e no Salgueiros respectivamente, são aqueles com quem me identifico mais e acredito que, a curto prazo, possam chegar a um patamar de elite internacional.

Não posso esquecer de, a nível de treinadores/seleccionadores, dois nomes de referência:

Fernando Santos - campeão europeu um feito único na nossa selecção

Carlos Queirós - que conseguiu qualificar o Irão para o ultimo Mundial e está de novo em boa posição para repetir essa façanha.

 

Qual a sua opinião sobre os treinadores Portugueses?

R: Já afirmei inúmeras vezes em Portugal e no estrangeiro que os treinadores portugueses são actualmente dos melhores que há no Mundo. São sinónimo de qualidade. Há provas concretas desse valor (sucesso) nos 5 continentes do Planeta…

Não há como os treinadores portugueses para se adaptarem às condições, de se integrarem nas sociedades e nas religiões e saberem improvisar soluções.

Mas curiosamente no nosso futebol o treinador português não está devidamente protegido e valorizado. Na presente época 2016/17 antes do Natal foram despedidos 11 treinadores (2 deles eram estrangeiros). Ou seja cerca de 60%!!

É urgente que a muito curto prazo o sindicato dos treinadores promova aquilo que se passa em outros países, como a França, Itália ou Espanha: na mesma época um treinador só pode treinar 1 equipa. Com esta medida os dirigentes terão de ter mais critério na escolha inicial dos seus treinadores.

Num país com tantos treinadores, aqueles que não entraram nas escolhas iniciais terão mais oportunidades de poderem exercer a sua profissão. Mais justo.

 

Pelos seus anos de actividade deverá ter muitas histórias curiosas. Tem alguma interessante/engraçada que nos possa contar?

R: Todos os profissionais tem histórias para contar. Dava para escrever um livro.. Aqui vão duas.

Numa noite depois de um jogo, o autocarro da equipa, onde eu jogava na altura, seguia na estrada nacional Lisboa-Porto quando o presidente do clube ordena ao motorista para parar na berma. Estávamos na zona de Leiria. A porta abre-se e sai o presidente e o treinador. O motorista recebe ordens para fazer 1km e esperar. Treinador e presidente tinham feito uma aposta durante o jantar na Mealhada de uma corrida nessa distância para ver quem era o mais rápido. Perante os incentivos, bocas e gargalhadas lá ficamos a ver surgir das trevas o treinador a cortar a meta em primeiro lugar, com uma boa distância de avanço sobre presidente, todo vermelho a rebentar pelas costuras e prestes a vomitar o jantar. Foi uma risota até chegar a casa. Brincadeira inocente que reflectia o espírito da época e que reforçava imenso a solidariedade do grupo.

Hoje também há histórias adaptadas aos tempos modernos. Mas mais tristes, como aquele presidente que amante da tecnologia e dos filmes de espionagem, instalou no carro do clube fornecido ao treinador mas sem conhecimento deste, um sofisticado aparelho de localização com GPS e dotado de sistema áudio. Assim sabia todos os movimentos do treinador. Com essa informação exercia uma enorme manipulação sobre o seu treinador. Uma tortura psicológica permanente num atentado aos princípios mais basilares da liberdade de um individuo. Prática mesquinha que gera desconfiança, mina as relações humanas e afecta os resultados desportivos.

 

Que projectos tem para o futuro?

R: A fadista Maria da Fé canta um fado com um título muito elucidativo:” Até que a voz me doa”.

Eu espero trabalhar no futebol até que o corpo me doa. É a minha vida desde os 16 anos de idade e continua a ser a minha paixão.

 

Que opinião tem da WI COACH?

R: No mundo dos treinadores, independentemente dos resultados, há uma característica que é real e visível. Todos querem ganhar. Mas somos todos diferentes na nossa intervenção. Não há fotocópias.

Acho o projeto Wi Coach uma óptima ideia. É um espaço onde podemos ter acesso, sem competição de quem é melhor ou pior, ao pensamento de treinadores com raciocínios enriquecedores com os quais aprendemos seguramente.

 

 

Agradecemos muito a sua disponibilidade de partilhar conhecimentos connosco. Pedíamos uma mensagem para todos os treinadores que são seguidores da WI Coach.

Espero que esta entrevista permita conhecerem-me um bocadinho melhor, que a partilha das minhas ideias de futebol vos tenham agradado e vos seja útil de uma qualquer forma. Também me disponibilizo para alguma questão ou duvida vossa através do meu email pessoal(lunm53@yahoo.com).

(Igualmente gostaria, sem compromisso, que aqueles que tenham conhecimento da língua francesa e/ou inglesa, e estejam interessados em trabalhar no estrangeiro me enviem o vosso CV. Neste momento não tenho nada de concreto mas pode surgir uma oportunidade de vir a treinar num país onde o conhecimento destas línguas seja um factor determinante.)

 

BOM ANO 2017

MUITO OBRIGADO WI COAH PELO COVITE DE ENTREVISTA

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